Sociedade de trabalho: Fim ou repetição?

  «Les formes contemporaines du capitalisme, l’éclatement du marché du travail, la précarité nouvelle et la destruction des systèmes de solidarité social créent aujourd’hui des formes de vie et des expériences du travail souvent plus proches de celles des prolétaires du XIXe siècle que l’univers de techniciens high-tech ou du règne mondial d’une petite bourgeoisie adonnée au culte frénétique de la consommation décrits par tant de sociologues.»

Jacques Rancière

O Fim da Sociedade de Trabalho é um óptimo pequeno ensaio do António Guerreiro, que vale mesmo a pena ler. Perceber os tempos difíceis que vivemos com olhos e leituras diferentes das da economia e das ciências sociais é algo muito raro em Portugal. E se em muitos aspectos acompanho António Guerreiro, há alguns pontos em que vejo as coisas de maneira diferente e que acho valer a pena expor.

Divirjo da caracterização que é dada aos tempos que vivemos e que seriam, como bem assinala o título do texto, tempos de fim da sociedade de trabalho. Cada vez me sinto mais distanciado dos obituários que proclamam o fim disto ou daquilo. Penso, pelo contrário, que sucede hoje assistirmos ao retorno de formas de vida passadas, de exploração laboral descarnada, sem as “gorduras” com que a social-democracia nos almofadava uma existência decente. No jargão habitual, dir-se-ia mesmo que a tendência está instalada. Há dias mais um guru vinha dizer que se impunha trabalhar até aos 80 anos, outro era os salários baixarem.

Não vivemos hoje mais o fim da sociedade de trabalho do que há duas décadas; o que vivemos hoje é tempos, como há muito não se viviam, de retorno de uma sociedade de trabalho em condições de exploração acirrada. Esta é que é a novidade. Por isso, ponho em epígrafe a estimulante citação de Rancière. Penso que por aqui passa também o colapso súbito da pós-modernidade, moldura que pensava quase sempre a partir da ideia de fim, para, em seu lugar, se constituir um retorno aos antagonismos da modernidade e às tensões pré-modernas que a confrontavam.

O problemático não é vivermos numa sociedade do trabalho, mas sim na hegemonia de uma concepção do trabalho exploradora, que elide a componente realizadora do trabalho, alterizando-o radicalmente face ao trabalhador. A produtividade do trabalho tornou-se a produtividade do trabalhador. Com efeito, uma concepção produtivista do trabalhador assimila-o a prolongamento da máquina, com output mensurável em termos de quantidades por unidade de tempo. É assim numa fábrica, como é assim num hospital, ou numa universidade, seja trabalho manual ou intelectual, mais ou menos qualificado. O formato é o das máquinas – unidades produzidas por unidade de tempo. E esta hegemonia do modelo produtivo, no matter what you produce, é um lugar-comum ideológico dos nossos tempos. Parece que estes tempos deram toda a razão a Hannah Arendt contra Marx, quando ela criticava o seu entendimento produtivista do trabalho. Ironicamente, a hegemonia produtivista repõe a actualidade de Marx. Só não será tanto uma questão de vender força de trabalho, quanto de entrega incondicional da disponibilidade, aquém de todo o direito adquirido ou garantia. Há, aliás, a este respeito, uma profunda ambivalência da tecnologia. A tecnologia que pôde substituir pessoas, pondo nos seus postos de trabalho máquinas, como nota bem António Guerreiro, ainda que não note tanto que assim é há muitas décadas nas economias desenvolvidas, é também a mesma tecnologia que sujeita hoje cada vez mais as pessoas ao regime da disponibilidade e da competição. A banalização do telemóvel, e agora os ipads e iphones, hibrida o lazer e o trabalho nas mesmas ferramentas tecnológicas, numa falsa síntese que não humaniza o trabalho, mas desumaniza o lazer e, pior, arrasta a humanidade para um regime existencial de despotismo da disponibilidade. Como, em tempos industriais, a mão-de-obra era afeiçoada à máquina, agora, em tempos pós-industriais (pelo menos até certo ponto), são os “cérebros de obra” (para empregar uma expressão que ouvi há dias a um economista) que são afeiçoados à máquina. Decerto, as máquinas são outras, mas as de hoje não libertam mais as consciências do que as aprisionam a uma disponibilidade permanente, proto-laboral. O domínio faz-se menos pela força, em todo o caso a força produtiva já não é feita da força dos braços, mas pela própria forma das consciências. A disponibilidade laboral é hoje uma disponibilidade moral, que a delação pública atesta, logo com as convicções de quem nos governa e dos moralismos de gurus da alta finança.

Aliás, é revelador como os lapsos de língua e as impaciências do Primeiro-ministro desnudam de efeitos de linguagen a mais genuína auto-certeza sobre o tipo de sociedade que nos deseja. Depois da reforma do código do trabalho, depois dos mandamentos austeritários, é legítimo dizer que, desde há muito, não vivíamos uma sociedade de trabalho tão hostil. Não só se trabalha mais horas, cada vez mais dentro do fim da vida, e em condição cada vez mais incerta, precária portanto, sem as garantias das décadas anteriores. Mas é preciso perceber quanto a crise económica é menos causa do que ocasião para esta transformação da sociedade de trabalho. Incorpora-se um regime de disponibilidade absoluta, de despojamento e de exposição ao risco laboral que altera significativamente o que possa ser o papel social dos cidadãos. Com a tendência instalada, estrutural e não conjunturalmente,  a própria ideia de contrato social já só é mais um direito (mal) adquirido, a rever pois.

Subscrevo a crítica de que esquerda e direita estejam a presumir excessivamente que a solução para combater o mal do desemprego esteja num regresso ao crescimento, mas por razões distintas das indicadas pelo António Guerreiro. Não tanto porque tecnologias de produção eficazes, numerosas e difundidas substituam a mão-de-obra, tornando o desemprego uma realidade avassaladora (e daí presumir-se a ideia de fim da sociedade de trabalho), mas porque o crescimento económico é, na configuração actual, cada vez mais difícil, esteja a produção a cargo de máquinas ou de mãos humanas. Se aliás a tecnologia fosse tão eficiente, tão numerosa, tão difundida, por que razão não cresce mais a produção económica nas economias desenvolvidas e por que razão cresce tanto nas economias emergentes (essencialmente baseadas na mão-de-obra)? A minha hipótese é a de que, nas economias desenvolvidas (ou nas que estão na sua sombra como acontece com a portuguesa) nos confrontámos subitamente com a consciência da escassez. A retórica de que vivemos no passado acima das possibilidades não deixa de assinalar o receio de que o crescimento não regressará, de que é pelo menos muito razoável que estejamos a tocar os limites da sustentabilidade. Lembrava-me o meu amigo Luís Henriques que, para Melville, o oceano gigante continha mais baleias do que as que pudéssemos contar. Pois, agora sabemos que a realidade está longe de ser assim, dada a um ilimitado crescimento. Os fantasmas que a China evoca no Ocidente são dessa ordem, da consciência de que os recursos estão todos contados, não podem sem fraude ser inventados, de que gastamos muito mais do que todos os outros, que ainda assim não nos bastam, e que vamos perdendo a capacidade de os monopolizar em detrimento do resto do mundo com expedientes de avanço civilizacional ou, quase sempre, puro e simples poderio militar. São os direitos da China e da Índia por exemplo, juntos quatro vezes e meia mais gente do que a Europa, aos parcos recursos e ao espaço económico disponível, e não tanto a tecnologização das suas economias (muito menos a nossa), o motivo que determina a nossa consciência do escasso. Vendo bem, o rationale por que degradamos em Portugal as relações laborais é a crença de que devemos rapidamente pôr-nos no mesmo nível competitivo das economias emergentes, precisamente aquelas em que a tecnologização começa agora a fazer um caminho há muito feito nas economias mais desenvolvidas. Deixámo-nos encurralar entre duas consciências que são como duas tenazes: a consciência da escassez diante de nós e a consciência da nossa inadaptação.

Duvido que seja possível produzir mais riqueza com menos trabalho. Se fosse assim, então o problema da nossa época resumir-se-ia a assegurar a melhor redistribuição possível da nova riqueza produzida, e redescobrir conceitos de trabalho mais realizadores num tempo em que, enquanto dispositivos de produtividade, tendemos para a inutilidade. Mas se o entendimento de trabalho que vigora é precisamente o que nos condena à condição de dispositivos produtivos, jamais, sem blasfémia, inúteis (mesmo que não utilizáveis), a razão para isso não se prende, infelizmente, com nenhuma fixação com o crescimento, ou alguma ilusão sobre o desemprego, mas com o dado bem mais brutal de que, no contexto actual, com o sistema produtivo que temos, com o nível tecnológico que alcançámos, com os recursos à mão, não é possível produzir muito mais riqueza do que a que produzimos. E por isso vemos exacerbada a ameaça de nos vermos lançados, sem protecção, ao mundo feroz da competição internacional. O medo do mundo transmite-se mecanicamente para dentro da sociedade, cada vez mais uma sociedade de trabalho hostil, da exposição e da disponibilidade sem mediação.

Não estamos em tempos de fins, com excepção claro para o fim do tempo dos fins; estamos sim em tempos de regressos que ainda há pouco tomaríamos por inimagináveis. Em face deste estado de coisas, não vejo, como António Guerreiro, que, a respeito do trabalho, o importante seja “deixar de pensá-lo como o que falta e começar a vê-lo como o que está a mais e precisa de ser retirado do centro da organização e do contrato social”. Pelo contrário, é preciso insistir numa concepção realizadora do trabalho humano, o trabalho além do animal laborans de que falava Hannah Arendt. Mas antes, face à compulsão para os regressos a formas de vida passadas e já tão repassadas, compete à acção humana fazer tudo para evitar que a História não seja uma repetição, não sei mesmo se não como tragédia.

Sobre André Barata

Professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior desde 2002, fez toda a sua formação, em filosofia, pela Faculdade de Letras de Lisboa, onde se doutorou em 2004. Trabalhou com os filósofos Fernando Gil e João Paisana, tendo dirigido a revista Análise (2005/6) e integrado a direcção fundadora da revista de fenomenologia Phainomenon. É hoje vice-presidente da Assoc. Portuguesa de Filosofia Fenomenológica, integra o Conselho Científico da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Participou da fundação do curso de Ciência Política e Relações Internacionais da UBI, de que foi director desde finais de 2009 e onde leciona "Ética e política" Em 2011, foi professor visitante na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e do ISPA. Actualmente, dirige o mestrado de ciência política da UBI.
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4 respostas a Sociedade de trabalho: Fim ou repetição?

  1. António Betâmio de Almeida diz:

    O artigo de António Guerreiro e o texto de André Barata são duas excelentes contribuições para a reflexão sobre um assunto cada vez mais actual, um desafio a que não se pode (deve) ficar indiferente.
    A etimologia da palavra “trabalho”está associada a instrumento de tortura ( do latim tripalium), sofrimento…
    Que boa notícia, então, seria o fim da Sociedade do Trabalho! O trabalho como organização social forçada.
    Será mesmo assim? O artigo de António Guerreiro é muito interessante e o André Barata coloca questões muito pertinentes. A questão é recorrente, permanente ao longo da história da industrialização mecanizada, da técnica. A desconfiança do operariado relativamente aos efeitos das máquinas, do progresso técnico permanece desde o início. Não só do operariado mas também de intelectuais de relevo. O movimento luddista (Ned Ludd, 1811) ficou ligado a essa pulsão de rejeição.
    Depois de ler o texto de André Barata, revi o livro de François Jarrige “Face au Monstre Mecanique. Une Histoire des Résistances à la Technique” (2009) que complementa, exaustivamente, as referências de António Guerreiro.
    Procurei, também, na minha biblioteca o texto “Trabalho Assalariado e Capital “ de Karl Marx ( uma conferência de 1847, edição portuguesa de 1974, nas Publicações Escorpião). São notáveis as oito páginas finais (Parte V) sobre o trabalho, as máquinas e o capitalismo. Expurgando algum anacronismo compreensível, o problema social em discussão está ali muito bem delineado, muito completo. Se substituirmos maquinaria por tecnologia podemos pensar que estamos no séc. XXI. Se me permitem, aconselho a leitura destas duas referências.
    No séc. XX já não estamos só perante hipotéticas ameaças da ciência e da tecnologia, aparentemente os pensadores ocidentais (ocidentais repito…) enfrentam os efeitos sobre o ambiente, a saúde pública, as catástrofes e…o trabalho. Na passagem da década de 70 para 80 discutiu-se muito a problemática, então novidade, da “sociedade do lazer”: o que fazer com o tempo livre diário resultante da produção mecanizada, automatizada… Rapidamente surgiram as mais diversas soluções, enquadradas (Oh!, época de ilusões positivas…) pela ideia de um consumo esclarecido para compensar a incomodidade de “quase todos” terem mais tempos livres. Meio dia chegaria para produzir o suficiente!
    Posteriormente (década de 90) surgiu a ideia da Sociedade do Imaterial, uma tentativa de preparar a saída da produção material e o reforço da actividade conceptual (o “cérebro de obra”). Foi-se, mas poderá ter de voltar…
    É pertinente lembrar que alguns cidadãos já vivem muito bem sem trabalho: os que vivem dos rendimentos avultados de aplicações em bolsa(s), em Florida ou noutro local apropriado, sempre em risco de falência ( talvez um exemplo da “sociedade de risco” de U. Beck…).
    A mundialização, caracterizada por novas tecnologias da comunicação, do transporte e pela extensão sem barreiras (notável ideia…) do domínio da produção e distribuição a outros continentes, aproveitando salários baixos, baixinhos…nunca antes imaginados, veio mudar as nossas (dos ocidentais) angústias e aqui estamos com a perspectiva de ficarmos sem trabalho, um “buraco negro social”…Apareceu um oceano de trabalhadores e nós, europeus, temos a sensação de estar numa pequena ilha sujeita a um hipotético maremoto, com o agravante de uma elite afirmar estar excitada com isso, uma boa limpeza, um acertar de contas entre nós…
    Não é verdade (na minha opinião) que os políticos não estejam a ter em conta a sociedade “sem trabalho”. Fazem-no através de uma metáfora, uma ilusão: o incentivo ao conceito do empreendedor, uma figura que não seria um trabalhador no sentido em causa, não teria empregador…não se vê credibilidade sustentável a esta ideia, um paliativo…
    Até hoje, a sociedade humana adaptou-se porque todos precisam de actividade socialmente reconhecida, é uma ordem estabelecida, muito forte (deixo este ponto para outra oportunidade…).
    Penso que existem diversas resistências que dificultam a proposta de soluções:
    – Poderá existir capitalismo sem o “trabalho”?
    – Que valores estruturantes da organização social poderão substituir o valor da remuneração associada ao “trabalho”?
    – O mundo urbano poderá manter-se sem o “trabalho”?
    O tema é excelente para pensarmos mas há dois obstáculos:
    – O factor tempo, não há actualmente o tempo suficiente para procurar propostas de soluções muito sensatas em nome de todos, logo esperam-se respostas atabalhoadas e violentas, em função de crises e de provas de força…estarei errado?
    – O factor moral/religioso: na percepção social o trabalho é uma obrigação moral. “O que é preciso é trabalhar!”, “Quem não trabalha é malandro!”,”A solução (a salvação) é trabalhar mais, mais!” (não quero recordar outra frase muito infeliz, da nossa história recente, associada a morte…)…Ou seja, há um simbólico transcendente muito forte relativamente ao trabalho, uma forma de regular e dominar ( o instrumento de tortura…) e tal como se instalam nos automóveis eléctricos simuladores de ruído de combustão, não me admira que se pensa em simulação de trabalho numa série de simulacros sociais onde não se chegará a poder saber se, na verdade, poderemos viver sem trabalho…isso ficará para os futuros resistentes a uma nova forma avançada de organização social!

  2. Francisco diz:

    O problema neste momento é, para produzir tudo o que 100 pessoas precisam basta que 20 pessoas trabalhem. Se trabalharem 30 vai haver excesso de produção, os preços vão cair como tem acontecido em quase tudo, os lucros das empresas descem e a Bolsa também. Este é o problema do mundo, há tudo a mais. O que fazer? ser diferente (ser a Apple ) ou ser uma commodity em que só o mais barato vai sobreviver.

  3. António Betâmio de Almeida diz:

    O que o Francisco escreve está correcto, mas então é preciso que pensemos alternativas melhores. O esquema lógico que o Francisco segue é o de um mercado rígido e imutável. Se o Mundo muda, as construções humanas ( o mercado é uma delas) poderão ter de mudar. O desafio é esse: o que deve mudar para que todos os 100 tenham o que devem ter de uma forma equilibrada, justa…
    Perante uma ameaça social ou ficamos quietinhos ou pensamos em soluções!

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