euro-medos

Começa a revelar-se um consenso sobre a necessidade e a forma de manter o projecto do euro. A existência de uma moeda única é apenas problemática porque retirou instrumentos de curto prazo a favor de instrumentos de longo prazo. Retirou a desvalorização cambial, e obriga os governos dos países a pensarem em termos de longo prazo nas suas políticas. A antecipação de comportamentos “oportunistas”, como sobre-endividamento dos Governos, estava nas preocupações iniciais do euro, e por isso foram criados tratados para detectar e sancionar desvios a comportamentos das finanças públicas de cada país que correspondem a “abusar” da solidariedade comunitária.

Uma das origens dos actuais problemas está em que os países grandes, nomeadamente a França e a Alemanha, não quiseram essas regras quando lhes seriam aplicáveis e exigiram uma flexibilidade que lhes foi dada, e que simultaneamente transmitiu a mensagem de que afinal as regras não eram tão rígidas assim.

Deste modo, quando se ouve agora a Alemanha e a França a falarem de novas regras e de novos caminhos institucionais para evitar abusos, deveria ser igualmente claro que eles, esses mesmos países grandes, não podem alterar, flexibilizar, interpretar essas regras.

Este é um trabalho político, e não apenas económico. Exigir rigor aos outros, mas pretender flexibilidade em caso próprio é o melhor caminho para destruir a solidariedade europeia.

O maior euro-medo não é a Alemanha ditar regras, ou novas regras, ou regras reforçadas. O maior euro-medo é a Alemanha querer regras para os outros cumprirem, mas não quando chega a sua vez. Cabe aos países pequenos criarem os mecanismos que impeçam novamente de surgirem circunstâncias em que os países grandes “sugerem” uma interpretação menos rigorosa das regras acordadas.

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Sobre Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa
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2 respostas a euro-medos

  1. Daniel Ribeiro diz:

    Ora Ora… Seja bem vindo este novo blog. Desde já os meus parabéns pelo propósito com que se apresenta e por estes dois excelentes postais de abertura!
    Para animar a malta atrave-mo já a duas pequenas notas de pé pagina a cada um dos ditos:

    André, a partir da frase final – “Em economia, o que faz sentido é não deixarmos nas maos de Deus, como dizia Lutero, o resultado das nossas acções”. Dizia Lutero – digo eu – em favor de Deus. E como isso foi determinante!! Mas como hoje “os mercados” são invocados de forma tão intensa que a sua “mão” se assemelha por vezes à de “deus”, apetece dizer: – o que faz sentido, hoje, é não deixarmos nas mãos dos mercados o resultado das nossas acções. Em nosso favor, sobretudo, mas se quiseres – digo eu – também em favor dos mercados.

    Pedro (esta é lateral, mas ouve lá, mais um blog? Quantas mãos tens tu para tocar piano?) – ao teu postal junto esta nota: – claro que um medo é a Alemenha querer regras para os outros cumprirem mas não quando chega a sua vez. Mas há uma coisa que temo mais que essa: – é a Alemanha, de novo grande e perto da ideia da velha Prússia, não saber o que quer, e estar hoje a viver uma crise de “ambivalência” face à ideia do seu destino e do seu papel na Europa. O ministro polaco dos negócios estrangeiros dizia há dias qualquer coisa como esta: -à Alemenha, mais do que a sua força temo sobretudo a sua inacção. E olha que os polacos sabem do que falam….

    Mas hoje, claramente, o fantasma maior é a hipótese de caos numa crise bancária generalizada … a provocar o colapso do euro.

    Um grande abraço todos.

    Daniel

  2. André Barata diz:

    Meu caro Daniel, obrigado pela mensagem e desculpa-me a demora em reagir. Então, pois, partilho a mesma preocupação com a deificação dos mercados. E preocupa-me, em particular, a transposição, que o ministro faz nesta declaração, de uma moral das intenções para o âmbito do regramento da vida económica de uma sociedade. Tenho as maiores reservas a que se deixe a economia nas mãos de uma “fé”.

    Um grande abraço e novos contra-argumentos virão aí!

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