Contra-argumentos sem querer ser do contra: Umas quaisquer declarações de José Sócrates

Por que razão algo está podre na encenação que muitos media fazem do debate político em Portugal? Um jornal, com o à vontade que todos nós permitimos, recorta umas declarações inocentes de um ex-Primeiro-Ministro, tornando-as, na mais imediata leitura, que é também a mais comum, em declarações polémicas, inacreditáveis, inaceitáveis, atentatórias, em suma, declarações de quem ou perdeu o juízo ou bem seria capaz de nos levar a perder o juízo. Os restantes media, impavidamente acríticos, seguem por reflexo pavloviano o primeiro. Todo o imenso dispositivo dos media, suportado pela unânime indignação entretanto constituída no país online, torna-se correia de transmissão oleada, levando a boa nova aos políticos, aos secretários-gerais, aos líderes parlamentares, se possível ao senhor todo-poderoso, pois alguém terá alguma coisa a dizer, em alguém terão de ressoar as palavras de Sócrates! Mas, não nos próprios media… É que talvez tanto eco só aconteça porque os media se escondam nas paredes desoladas de um quarto que deixam vazio.

Mas, detenhamo-nos no procedimento noticioso envolvido nestas declarações. A notícia é intitulada assim: “Pagar a dívida é ideia de criança”. Reactivamente, qualquer cidadão consciencioso deve retesar-se, conter o tremor incrédulo da vista e perguntar-se – como é?, então o endividador-mor deste país diz que pagar a dívida é ideia de criança? A indignação instala-se, mas os media sabem que o cidadão não é tão tolo que se persuada com um título. Vêm então as declarações:

Para pequenos países como Portugal e Espanha, pagar a dívida é uma ideia de criança. As dívidas dos Estados são por definição eternas. As dívidas gerem-se. Foi assim que eu estudei.

É fácil imaginar a sequência de pensamentos a correr num par de milhões de portugueses – Estudou? Bom, quanto a estudos é melhor não falar… Gerir dívidas? Mas que belo gestor de dívidas este me saiu! Não acerta numa!

E pronto, notícia feita, debate concluído, só se perderam as que caíram. Agora, olhemos novamente para as declarações. E olhemos para as que efectivamente foram feitas:

Para pequenos países como Portugal e Espanha, a ideia de que agora é preciso pagar a dívida é uma ideia de criança. As dívidas dos Estados são por definição eternas. As dívidas gerem-se. Foi assim que eu estudei.

O contexto da afirmação era um contexto de estudantes e não um comício político, na afirmação realmente proferida encontrava-se o advérbio “agora”, palavra que desaparece nas declarações noticiadas, adulterando significativamente o sentido das mesmas. E quanto ao título da notícia já conversámos. Na verdade, Sócrates disse o que quis dizer e o que quis dizer é fundamentalmente certo e correctamente enunciado. Aliás, como as declarações seguintes:

Claro que não devemos deixar crescer a dívida muito, porque isso pesa depois sobre os encargos. Todavia, para um país como Portugal, é essencial financiamento para desenvolver a sua economia. É assim que eu vejo as coisas.

Para que não haja grandes dúvidas sobre a natureza falaciosa da notícia, mais interessada em mover um Tu quoque! (uma espécie de argumento ad hominem) ao declarante, do que em examinar o conteúdo das declarações, permito-me citar um livro recente de Vítor Bento, que alia uma clara capacidade de exposição com uma insuspeita condição de economista crítico da governação económica do anterior Primeiro-Ministro.

Os agentes económicos individuais do sector das famílias têm um “ciclo de vida” assumidamente finito e, por isso, a sua capacidade de gerar rendimento regular é normalmente temporária, correspondendo, grosso modo, à sua vida activa. Por isso, não podem funcionar permanentemente em dívida (…) Com as empresas, o Estado e o País como um todo (i.e., o agregado da Economia Interna), o processo é diferente. Não existe um horizonte temporal limitado para a sua existência, pelo que o planeamento financeiro da sua vida é diferente do caso dos particulares. Desta forma, é razoável assumir a sua existência como prospectivamente infinita, pelo que é também razoável que funcionem saudavelmente com endividamento permanente, que vai sendo periodicamente renovado, e sem que haja a expectativa – temporalmente definida – de que tal endividamento venha a ser totalmente pago. (Vítor Bento, Economia, Moral e Política, 2011, pp.79-80; sublinhados meus)


Quod erat demonstrandum!

PS : Nada no que digo implica, compromete ou indicia a menor concordância com os 6 anos de governação sob a responsabilidade de José Sócrates. Esse é precisamente o ponto.

Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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11 respostas a Contra-argumentos sem querer ser do contra: Umas quaisquer declarações de José Sócrates

  1. E porém que o homem não geriu dívida alguma, enquanto, irresponsável, desonesto, sacou o País, em benefício próprio e da família, até não poder mais, quando a bomba lhe rebentou no traseiro, de todo o lado.

  2. Ana de Freitas diz:

    declarações inocentes? Se há coisa que esse senhor ex primeiro ministro não é, é inocente! Quiçá quisesse ter graça… mas o sentido de humor é privilégio de criaturas inteligentes.

  3. MGT diz:

    Dr. André Barata, sabe que quanto mais se mexe mais mal cheira. De José Sócrates já só os muito fundamentalistas (e nem todos) fãs deste senhor lhe dão qualquer privilégio de dúvida. O que ele disse foi claro… as dívidas não sáo para pagar. E seja Portugal, Espanha, Alemanha, grande ou pequeno… quem deve paga! a honra é uma característica de pessoa, singular ou colectiva e não uma propriedade ou direito do tamanho e da dimensão. Sócrates apenas confirmou o que já todos sabemos. Que é falso, mentiroso, sem honrra, sem palavra, indigno de representar um país, indigno de ser meu concidadão, porque arruinou um país, pois não há crise nem conjuntura que o desculpem.
    Já houve demasiado branqueamento deste homem, que tem passado incólume e inimputável a todas as trafulhices que fez. E quanto ao que estudou… bom, que diga ele que livros leu e que teorias económicas suportam o que diz, para além da GRANDE ENCICLOPÉDIA DA ASNEIRA, DA FACHADA E DA MENTIRA!

    • rc diz:

      aprenda a ler sff, depois, só depois abra a boca. só lhe peço o mínimo de racionalidade, puxe um bocadinho pela sua cabeça, que se está a provar ou fraca ou precipitada, e leia o que Sócrates realmente disse, pense um bocado. se não percebeu, abstenha-se

    • rc diz:

      até o vou ajudar um bocadinho, aqui cito parte do link que o autor citou:
      “Os agentes económicos individuais do sector das Famílias têm um “ciclo de vida” assumidamente finito e, por isso, a sua capacidade de gerar rendimento regular é normalmente temporária, correspondendo, grosso modo, à sua vida activa. Por isso não podem funcionar permanentemente em dívida, tendo que planear a sua vida financeira em função do seu ciclo de geração de rendimento. Assim, é natural que, no início da sua vida activa, as perspectivas de rendimento futuro sejam mais elevadas no futuro do que no presente, ao mesmo tempo que uma grande parte das suas necessidades “de instalação” – casamento, filhos, etc. – se concentre na fase inicial dessa vida activa. Correspondentemente, é natural que esses agentes sejam deficitários se endividem sobretudo entre o início e o prospectivo meio da vida activa e que se tornem aforradores líquidos no período seguinte, pagando as dívidas contraídas.
      Com as Empresas, o Estado e o País como um todo (i.e. o agregado da Economia Interna), o processo é diferente. Não existe um horizonte temporal limitado para a sua existência, pelo que o planeamento financeiro da sua vida é diferente do caso dos particulares . Dessa forma, é razoável assumir a sua existência como prospectivamente infinita, pelo que é também razoável que funcionem saudavelmente com endividamento permanente, que vai sendo periodicamente renovado, e sem que haja a expectativa – temporalmente definida – de que tal endividamento venha a ser totalmente pago.” chegou lá?

  4. paula silva diz:

    Acho que José Sócrates se devia abster de falar de assuntos tão delicados em público! Porque sabe, perfeitamente, que seria filmado e, muito provavelmente, mal interpretado (segundo ele) – passou muitas vezes por isso enquanto foi primeiro ministro.
    Ou se queria “arriscar” falar da dívida de Portugal, tinha de o fazer de forma mais refletida e tecnicamente baseada, tal como Vítor Bento, por exemplo.
    Uma vez que optou por voltar a estudar – o que saúdo – devia aproveitar para se concentrar nisso e evitar opinar publicamente. Até porque, raramente, conseguiu evitar polémicas subsequentes, mesmo quando se iniciou como governante – é, de facto, um mau comunicador.
    Infelizmente, para Portugal e para os portugueses, foi também um fraco governante. Pior ainda, não esteve sozinho nessa atuação…

  5. Pingback: ainda as declarações de José Sócrates | No Reino da Dinamarca

  6. Pingback: sobre dívidas, eternidade e crianças… « Momentos económicos… e não só

  7. Vitória saboia diz:

    Gostei dos textos do Dr. André Barata e Pedro Pita Barros. São esclarecedores. A minha especialidade não é nem nunca foi economia, mas ao longo dos tempos tenho lido muito e por isso quando li a notícia achei-a natural. Já a forma como ela foi dada é discutível.
    Lamento a percentagem de iletrados que falam sobre Sócrates e o que ele diz. Pior, é constatar que os portugueses além de iletrados são muito ordinários. Falam de economia e de política como falam de futebol.
    Ainda nenhum português de excelência provou que faria melhor em 2008. Falar depois do jogo é fácil.
    A História fará justiça a Sócrates.

  8. VM diz:

    Fala-se em reflexo pavloviano e o que temos ?
    MGT diz: “Sócrates …é falso, mentiroso, sem honrra, sem palavra … porque arruinou um país, pois não há crise nem conjuntura que o desculpem … todas trafulhices que fez”
    Ana de Freitas diz:”Quiçá quisesse ter graça… mas o sentido de humor é privilégio de criaturas inteligentes.”
    Simon Teles diz:” enquanto, irresponsável, desonesto, sacou o País, em benefício próprio e da família, até não poder mais…”

    Comentários ao mesmo nível da bicharada.
    Cumprimentos,

  9. André Barata diz:

    Por ser relevante para este post, junto link para post de Vítor Bento:
    http://www.sedes.pt/blog/?p=4043

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