ainda as declarações de José Sócrates

O texto do André Barata, de ontem, recebeu alguns comentários, que merecem um comentário e informação adicional.

O que o André escreveu corresponde em grande medida à minha reacção ao assunto: excessivamente empolado pela imprensa e comentários. Reflecte sobretudo uma reacção à pessoa mais do que às declarações.

Mas vejamos com mais atenção as declarações e a sua justificação.

Não há dúvidas sobre o pagamento de dívidas de particulares. Quem pede emprestado deve pagar, e o pagamento da dívida é algo que é devido.

Porque surge então a questão a nível agregado da economia?

Proponho que se pense a partir de uma situação simplificada, com dois grandes períodos de tempo na vida de cada pessoa, os anos mais novos e os anos menos novos. No primeiro desses períodos, pede-se emprestado, no segundo paga-se o empréstimo. Cada pessoa paga a sua dívida. E o que se passa em cada ano, em termos agregados da economia? havendo “mais novos” e “menos novos” em cada momento, significa que haverá sempre dívida agregada, mesmo que individualmente cada pessoa tenha que pagar as dívidas. E este efeito não depende sequer de existir ou não Estado que contraia dívida.

Ou seja, as dívidas têm que ser pagas, mas há sempre dívida agregada.

Coloquemos agora a dúvida de quem empresta sobre se a dívida será paga ou não. Então, deixará de emprestar, e esta “cadeia” que gera a dívida “eterna” quebra-se.

Se introduzirmos agora o Estado a pedir emprestado, em cada momento tem uma dívida a pagar, e pode estar a contrair nova dívida. Desde que haja quem empreste, vai-se refinanciando – mas quem toma os títulos de dívida num momento pode ser diferente de quem toma noutro momento. Neste sentido, também a dívida do Estado terá uma componente de “eternidade”.  Mas se se quebrar a confiança de que será paga a dívida emitida, não haverá tomadores (ou exigirão taxas de juro superiores) de nova dívida, quebra-se a “eternidade” da dívida também no caso do Estado. Um exemplo de uma quebra parcial desta “eternidade” foi a reacção à alteração das condições de taxa de juro e de resgate dos Certificados de Aforro. A perda de confiança dos cidadãos na “palavra do Estado” quanto a um dos seus instrumentos de obtenção de dinheiro (emissão de dívida) ainda não foi recuperada. Ficará sempre a dúvida de quando voltarão a alterar as condições. A reputação demora muitos anos a ganhar, e breves instantes a dissipar. E no caso do pagamento da dívida, a quebra de reputação de que se paga, quebra a aparente “eternidade”.

Tudo por junto, existe um elemento de verdade nas afirmações de Sócrates, no sentido de tender a existir uma dívida rolante a nível agregado. Mas toda a dívida terá de ser paga, independentemente de ser novamente contraída dívida ao mesmo tempo.

Se houve reacção excessiva às declarações, creio não haver dúvida (independentemente do julgamento que se faça sobre os últimos tempos da governação de José Sócrates).

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Sobre Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa
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3 respostas a ainda as declarações de José Sócrates

  1. Dimanche diz:

    Aquilo que qualquer puto, deve saber puto de economia é que só vale a pena HAVER CAPITAL, quando ele por definição gera algo com valor, em relação a outro processo produtivo, tendo em vista um mesmo fim. Para além dessa diferença, o capital, digno desse nome, deve VALER-SE a si próprio, auto gerador
    de pagamento de si próprio. Há muito investimento público, que não é CAPITAL, ou que É UM SACRIFÍCIO em relação ao NADA de outras opções de investimento (não há autores). Dinheiro barato deitado para cima de CAPITAL que fracamente se paga a si próprio, não gera CRESCIMENTO. EU SOU UM BURRO EM ECONOMIA, agora o que não sou, é TANSO. Dívida desta forma cria deflação, é AUTOMÁTICO.

  2. Joffre Justino diz:

    Ponhamos as coisas assim,

    Durante 48 anos os países democráticos ou andaram a prometer o fim de uma ditadura em Portugal que manteve o país nos mais baixos indices de desenvolvimento, de crescimento, de saber, de bem estar, ou andaram a viver à custa dessa ditatura e sem nunca darem nada de jeito para o seu findar, bem pelo contrario…

    Portugal, por si, até 1985, integrou 600 000 pessoas, iniciou o processo de criar escolas, hospitais, centros de saude, energia eletrica, agua canalizada, esgotos, estradas e autoestradas.

    Depois, em 1986 foi prometido que o paraíso estava aí a chegar, e vá de exagerarmos, nas rotundas, nas estradas para a mama do Jardim da Madeira, no findar das pescas e da agricultura, nos créditos à habitação propria, nas autoestradas sem critério, nas placas sobre bioliqueime, etc, etc, que se teve de ir pagando, parte a fundo perdido e parte com empréstimos que se foram acumulando, (lembram-se da venda da divida publica da sra Manuela Ferreira Leite? Veio daí…)…

    Mas o país melhorou e muito em bem estar e lá foi encontrando soluções para ir pagando, (até a Manuela Ferreira Leite as foi encontrando)…

    Eis o que Socrates explicitou e bem!

  3. Pingback: Três tristes…frases | No Reino da Dinamarca

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