Para trás ficaram os rios. Isto agora é o mar.

Ainda há quem tenha pavor das redes sociais como quem no séc. XIX não se deixava fotografar por medo de que a sua intimidade ficasse exposta ao olhar de terceiros. São aqueles que estoicamente resistem a abrir uma conta no mundo virtual e que fazem distinção entre relações supostamente verdadeiras e outras que seriam artificiais.

Não sabem que a desmaterialização dos amigos não implica a desmaterialização das amizades e que a existência nas redes não conduz ao afastamento dos amigos. Pelo contrário. Não só encontrámos, na ausência do outro, uma forma de comunicar mais próxima e mais plural do que o telefone ou o telemóvel, como finalmente descobrimos uma maneira de nos desdobrarmos e sermos capazes de estar, nem que seja virtualmente, em muitos sítios ao mesmo tempo, em ocasiões diversas com amigos diferentes. Seria um exagero dizer que ganhámos o dom da ubiquidade.

Mas ganhámos sem dúvida o dom de saber o que se passa em várias frentes. Passámos a ter um acesso transversal à informação. Temos amigos da escola, amigos da faculdade, amigos antigos e amigos recentes, temos amigos adolescentes, amigos chineses, amigos dinamarqueses e amigos alemães, temos amigos políticos, amigos-família, amigos artistas, amigos da onça e amigos que ainda o podem vir a ser. E muitos deles têm ideias, partilham links e comentam coisas.

Quando de repente não resistimos a comentar uma afirmação de um amigo do nosso filho e com isso suscitamos primeiro espanto e depois um rol de comentários a justificar a afirmação inicial…

Quando amigos ditos de esquerda (aqueles que colocam no seu perfil a informação de que a sua ideologia política é de esquerda) partilham despreocupadamente uma recente intervenção de Nigel Farage da UKIP no Parlamento Europeu em que este ataca veementemente o euro e os líderes da União Europeia, pelo simples facto de concordarem com as suas palavras….

Quando amigos que se assumem de direita (por oposição à esquerda, noção que facilmente suscita uma espécie de vade retro assim que evocada) partilham a música sublime de Carlos Paredes com a ressalva de que, embora se trate de um homem de esquerda, a arte se sobrepõe a qualquer opção ideológica do artista….

Quando conhecidos tornados amigos por força da expressão levam as nossas ideias para outras paragens….

Quando alguns amigos mais atentos ao que se passa no mundo nos trazem novas de outros reinos e de outras batalhas…

Quando toda a gente viu o mapa mental animado baseado na palestra de Sir Ken Robinson sobre a criatividade e de como a escola hoje não sabe dar resposta aos desafios que os novos tempos lhe colocam…

Quando simplesmente partilhamos uma música de que gostámos, uma piada de que nos rimos, um evento que nos marcou….

… estamos a abrir brechas numa sociedade habituada a pensar em esferas, políticas, sociais, geracionais, geográficas, a partir de grupos que sempre se afirmaram consciente ou inconscientemente através da clivagem entre “nós” e “os outros”. A diversidade de experiências, o acesso (quase) universal à educação, a proliferação dos espaços, a mobilidade facilitada e, sobretudo, a coabitação no espaço virtual vieram mostrar que temos tanta coisa em comum com tanta gente, que a resposta às nossas questões pode por vezes vir de onde nunca a iríamos procurar. Afinal partilhamos tantas vezes as mesmas preocupações, os mesmos desejos, os mesmos receios, a mesma indignação. Abrimo-nos à discussão de ideias e aceitamos pôr-nos em causa. A simples exposição às ideias do outro, que é nosso semelhante, às suas opiniões e aos seus comentários, favorece a tolerância. Ou não vivêssemos nas mesmas condições, impostas por um mundo globalizado e desigual.

Lembro-me, a propósito, de uma música dos anos oitenta dos The Waterboys: “That was the river. This is the sea.” Bem-vindos.

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3 respostas a Para trás ficaram os rios. Isto agora é o mar.

  1. Rui Matos diz:

    Excelente abordagem. Nunca conseguiria uma extrapolação melhor.
    Não resisto, no entanto, a fazer uma pequena analogia ao artista de circo. É que por vezes, esta coisa das amizades em rede nem sempre é o mesmo do que as fazer sem rede.
    Digo eu. Sem rede…

    • Cristina Motta diz:

      Claro! As amizades são para praticar sem rede. O que as redes vieram trazer foi uma nova maneira de estar. Agora passámos a “ver” mais vezes os amigos. É só isso. Prefiro a analogia com a escola. Quando andávamos no liceu tínhamos a nossa turma, com os nossos amigos e os nossos colegas. Depois íamos para o recreio. Aí havia de tudo. Davamo-nos com quem nos queríamos dar, tínhamos amigos e conhecidos, tínhamos o nosso cantinho. Nas redes é mais ou menos assim. Só que virtualmente.

  2. Daniel Ribeiro diz:

    Olá Cristina,
    Que belas boas vindas…Bem caçada a ideia de mar – uma rede que não é lançada ao mar mas é o próprio mar.
    Há mar e mar há ir e blogar…
    bjs

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