Diz que foi “Um grito de alma”

Não tinha pensado escrever sobre as coisas que o deputado socialista Pedro Nuno Santos disse lá para os lados da vila de Castelo de Paiva, ali nas redondezas do Porto. Mas já que o assunto veio à baila neste blogue e tendo eu dito coisas sobre as declarações de José Sócrates ainda há poucos dias, dois casos susceptíveis de comparações, direi o que penso sobre o caso em torno das declarações de Pedro Nuno Santos agora trazidas ao conhecimento da opinião pública.

Não há como relativizar. São, quanto ao conteúdo, um disparate. Pior, sendo proferidas por um Vice-presidente da bancada parlamentar do PS, são um disparate que poderia não ser inconsequente.

Leiamos as declarações para não haver enganos no que se julga:

Estou marimbando-me para os bancos alemães que nos emprestaram dinheiro nas condições em que nos emprestaram. Estou marimbando-me que nos chamem irresponsáveis. Nós temos uma bomba atómica que podemos usar na cara dos alemães e dos franceses. Ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos a dívida” e se o fizermos “as pernas dos banqueiros alemães até tremem.

As condições segundo as quais os bancos alemães nos emprestaram dinheiro não foram condições que não merecessem o acordo das autoridades portugueses relevantes para o caso. As condições de empréstimo com os bancos alemães não terão sido substancialmente diferentes das condições de empréstimo dos próprios bancos portugueses. Marimbar-se para condições que foram previamente acordadas pelo governo português e em muitos casos até pelo governo do Partido cuja bancada parlamentar o deputado Pedro Nuno Santos co-dirige é bizarro. Sim, até pode marimbar-se para o que nos chamam. Nisso, concordo. Já nos chamaram, com muito pouca subtileza, de pigs, ou seja, porcos, pelo que virem chamar-nos de irresponsáveis não faz grande mossa ao ego nacional. Outra coisa, bem diferente, para lá do que nos chamem os banqueiros alemães, é sermos de facto irresponsáveis. Usássemos a bomba atómica na cara dos franceses e dos alemães (que imagem desagradavelmente violenta!), e o senhor deputado em pouco tempo não receberia o seu salário, nem eu, nem umas centenas de milhares de funcionários públicos, e uns milhões mesmo de pensionistas. Além de salários e pensões, faltaria o dinheiro para fazer funcionar a saúde, a educação, talvez a própria justiça. Sem rendimento, são as minhas pernas que tremem e não a de banqueiros, muito menos teutónicos. Portanto, quanto a bombas atómicas, o único ground zero que se perspectivaria, caso alguém tivesse realmente levado a sério o senhor deputado, seríamos nós, a sociedade portuguesa. Este é o disparate.

Apesar disto, há uma segunda leitura a fazer destas declarações de Pedro Nuno Santos. Tê-las feitas longe, num concelho tradicionalmente rural, lá no Norte do país, no calor das bases, permitiu-lhe uma franqueza que, possivelmente, ele próprio não se autorizaria se discursasse mais próximo das sedes do poder em Portugal. A indignação sobrelevada do seu discurso, apesar de imprópria à posição de Vice-presidente da bancada parlamentar do principal partido da oposição, não pode deixar de significar um “grito de alma”, mas não no sentido que lhe deu Manuel Alegre. Longe das atenções do líder do parlamentar e do líder do PS, o grito de alma do deputado era sobretudo dirigido para dentro do seu próprio partido, a sua queixa era de que o PS está demasiado conformado ao raciocínio “austeridade sim, desde que com contrapartidas de crescimento”, quase a dizer o mesmo que o Presidente da República, quando o que havia de se fazer, do seu ponto de vista, era realmente tomar partido. Mas como tomar partido quando o que se faz é tomar posição pela abstenção, como sucedeu na votação do Orçamento de Estado? Como se pode ser convincentemente mobilizador num quadro abstencionista? Este deve ser o grito que ia calado na alma do deputado. Digo eu…

Mas, visto de fora, haverá realmente dentro do espaço ideológico do PS, e sobretudo no espaço que lhe é permitida na sua condição de partido de poder, alguma alternativa? Seguramente não a que o deputado defendeu lá em Castelo de Paiva, mas seguramente que sim. Uma dica para o seu líder partidário: já que o Primeiro-Ministro não o faz, e por que não promover uma cimeira entre os países periféricos? Se Sarkozy e Merkel se reunem a torto e direito para discutir os destinos dos países periféricos, por que não reunir, uma vez que seja, as sensibilidades desta traumatizada periferia europeia?

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Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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10 respostas a Diz que foi “Um grito de alma”

  1. Daniel Ribeiro diz:

    Vocês desculpem mas hoje não consigo deixar é de indignar com isto:
    Passos Coelho sugere aos professores desempregados que emigrem
    http://www.publico.pt/Sociedade/passos-coelho-sugere-aos-professores-desempregados-que-emigrem-1525528

    ainda nem acredito que o “1º ministro” tenha dito uma coisa destas!!!
    Abraço

  2. André Barata diz:

    Daniel, eu também hei-de escrever sobre isso. Um abraço!

  3. Fernando Penim Redondo diz:

    Há uma terceira explicação. O vinho de Castelo de Paiva é muito bom. No restaurante onde decorria o repasto não usam o alcoolímetro antes dos discursos.
    Esta é a explicação mais favorável ao senhor vice-presidente da bancada do PS pois anunciar os alemães de que se vai fazer bluff sem estar bêbado só pode ser obra de um imbecil.

  4. Alvaro Gomes Martins diz:

    Caros,

    Só para baralhar ainda mais, mas tentando mudar o eixo da conversa, sugiro que passemos por cima do Pedro que fez bluff em castelo de paiva e vejamos a coisa a outro nível: – porque não um Jubileu da dívida?

    Esta sugestão do Jorge Nascimento Rodrigues…
    «Plano F: Simulação de um “Jubileu” da dívida soberana na Europa

    O professor inglês Anthony Evans e os colegas da Europe Business School (ESCP), em Paris, lançaram em maio como simulador para os seus estudantes a solução de um “jubileu” da dívida soberana , através de um processo de liquidação mútua das dívidas entre os membros da União Europeia, por exemplo de um modo bilateral ou mesmo tripartido.
    Segundo a simulação de Evans, a dívida soberana dos 8 países estudados (Alemanha, Irlanda, Itália, Espanha, França, Grécia, Portugal e Reino Unido) poderia ser reduzida em 64% através do cancelamento cruzado das dívidas, baixando a dívida total em relação ao PIB de 40,47% para 14,58%. Seis países – Alemanha, Irlanda, Itália, Espanha, França e Reino Unido – poderiam eliminar 50% da dívida existente. A rede de cruzamentos de dívida (valores em dólares) foi publicada pelo The New York Times recentemente.
    No caso português, a simulação dos cruzamentos implicaria uma redução de mais de 1/3 da dívida.»
    in
    http://geoscopio.tv/2011/06/sem-seccao/falhado-o-plano-a-para-a-grecia-nao-faltam-planos-b/

    Conhecem Niall Ferguson? Devem então saber que não é um ‘perigoso esquerdista’, nem costuma ir a esse restaurante em Castelo de Paiva. E sugere aos americanos que será o melhor que têm a fazer

    P:So I guess the unanswerable question is, what could you do to solve this problem?
    NFerguson: Well I’ll tell you what you have to do—you actually have to cancel the debt. There are historical precedents for this.
    Excessive debt burdens in the past tended to be public sector debts. What we’ve got now is an exceptional level of private debt. There’s never been an economy in history that’s had so much private debt. Britain and America today lead the world in the indebtedness of the household sector and the banking sector and the corporate sector. But debt is debt; it doesn’t even matter if it’s household debt or government. Once it gets to a certain level, there is a problem.
    In the past, when excessive debt burdens were accumulated by government, they tended to do one of two things: either they defaulted—this is the Argentine solution—where you say, “Ah, I’m sorry, I’m afraid we’re not going to be able to meet the interest payments this month, and never again will we make the interest payments.”
    The other scenario is inflation, where the real debt burden is eroded because the money that it’s denominated in loses value.
    I don’t think we’re really going to be out of the woods here until something of that sort happens to the huge debt burdens of the U.S. economy. Either these debts will have to be fundamentally written off in some way, or inflation will have to reduce the real burden.

    http://www.bestwaytoinvest.com/stories/vanity-fair-niall-ferguson-america-needs-cancel-its-debt

    http://www.ft.com/intl/cms/s/0/85432b32-cd32-11dd-9905-000077b07658.html#axzz1gve0r3Bx

    Cpts
    Alv

  5. O André Parece esquecer-se de uma coisa muito importante. É que não estamos a falar de uma família que recorreu ao crédito para pagar um carro e que agora diz que não quer pagar. Aí quem decide é a lei. A coisa muda de figura quando estamos a falar de Estados soberanos. Portugal é accionista do FMI, membro de pleno direito da UE, deu garantias para o FEEF e é ‘accionista’ do BCE. Isto é tudo do domínio da política, e portanto envolve poder. Os credores usam o seu. Os devedores devem fazer o mesmo. Ou acha que não? A crise do euro tem sido debatida nos termos definidos pelos credores, e isto tem de mudar. Ou melhor: é necessário enocntrar um equilibrio, que respeito os direitos de ambas as partes. Se os credores insistirem em submeter os devedores a um tratamento punitivo e moralista, parece-me evidente que os devedores devem dar um murro na mesa. Como é óbvio, isto não se faz a partir de Castelo de Paiva. Mas em algum lugar terá de começar. Papandreo ameaçou com um referendo. Agora foi a Irlanda, que, segundo palavras do seu ministro das finanças, parece que se está a ‘marimbar para os credores’ e exige reestruturar a divida p/ aprovar nov ‘tratado’ (http://www.irishtimes.com/newspaper/breaking/2011/1218/breaking11.html). Será que são todos irresponsáveis?

  6. André Barata diz:

    Caro João, obrigado antes de mais pelo seu comentário. Talvez não estejamos a dizer coisas tão diferentes. O fio condutor geral do seu argumento é de que têm sido os credores a estabelecer os termos do debate da crise e que isso tem de mudar. Justamente a minha sugestão final vai ao encontro dessa ideia importante. Não entendo como não há encontros intergovernamentais entre os países periféricos em dificuldades para concertarem posições que visem uma solução da crise. Por exemplo o que o Ministro das Finanças irlandês Brian Hayes vem dizer agora é tão relevante para a Irlanda como para Portugal ou para a Grécia. Por isso, deveria em algum momento estar a ser debatido com os parceiros desta crise. O meu desafio é que o PS, como principal partido da oposição, incentive o governo ou encontre formas de promover este tipo de concerto de posições. Por exemplo, uma Declaração conjunta…
    Quanto ao assunto não pagamos, aí de facto a história é outra. Repare que mesmo quem citou não subscreveria a ideia do Pedro Nuno Santos.

    Mr Hayes said.

    “We’re going to pay back our debts – that’s a very important message. But we want a longer period of time to do it, to refloat the economy and to get growth of two to three per cent.”

    Isto faz sentido, pelo menos faz sentido debater, acho mesmo que terá de ser discutido. Basta olhar para as últimas notícias que nos chegam do Forte de São Julião da Barra. Mas muito mais sentido se fosse articulado entre os países em dificuldades.

  7. André Barata diz:

    Caro Álvaro Gomes Martins,
    Muito obrigado pelo seu contributo. A ideia de um jubileu da dívida entusiasma, mas, depois, vejo imensas dificuldades. Por exemplo, o Estado português não deve simplesmente ao Estado alemão. Deve sim a bancos, portugueses, por um lado, estrangeiros por outro, alguns alemães. Os bancos por seu turno devem uns aos outros no sistema interbancário, alemães a ingleses, ingleses a americanos, americanos a chineses… Estou a supor… Mas aonde quero chegar com isto? No final da cadeia de credores encontramos uma dívida que já não é manejável sem pôr em causa todo o sistema de crédito europeu, se não mesmo mundial. Mas posso estar a ver mal.

  8. rachel diz:

    como é possível que um dirigente parlamentar tenha este nível de conversação? qualquer taberneiro (com todo o respeito) seria mais civilizado. não há dicurso político possível! é esta corja que nos orienta?

  9. Pedro Cruz Carrilho diz:

    Pois é, os grandes teóricos, à esquerda e à direita, divagam sobre o acessório em detrimento do essencial, esquecem-se propositadamente deste, então se não pagarmos aos troikas não há dinheiro para pensões, não acham que isso é a política da cenoura e do cacete, não consideram que, independentemente da linguagem brejeira e pontualmente desacertada, a questão de fundo foi colocada com a maior pertinência possível , então não é verdade que quando se deve e não se pode pagar se renegoceia, que esse é um dos riscos pelo qual se cobram juros, não é verdade que se não nos facultarem mais crédito o que se deve deixar de pagar é essa mesma dívida que nos foi impostas com juros usurários, em detrimento do não pagamento de pensões, sálarios de f.p., etc, é a velha história dos papões…a verdade é que este poblema tem a ver com uma dimensão transnacional, com a deslocalização da produção para o sudeste asiático por parte dos capitalistas sem escrupulos, que querem viver bem nos países de origem mas não querem pagar impostos a quem lhe proporciona essa vida faustosa, tem a ver com uma guerra financeira entre as divisaa chinesa e a norte americana, tem a ver com os rios de dinheiros que se ganham diariamente com as oscilaçõe bolsistas, tem a ver com a compra de grandes empresas publicas por parte de capitais estrangeiros, tem a ver, acima de tudo, com gente que se auto denomina de élites, mas que de isso só tem mesmo uma assustadora falta de caracter, de princípios e, acima de tudo. de verticalidade humana, são a escória da nossa espécie e vocês, os pequenos guardiães do templo, são, por definição, piores do que eles, porque defendem a vossa vida mesquinha de profissionaios liberais com a sua carrinha alemã e a vivenda de fim de semana, isso é um mundo que não tem qualquer tipo de substância a não ser aquela que vos venderam de que seriam felizes assim…e são? a pergunta é pura retórica, claro, porque todos sabemos a resposta…

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