Três tristes…frases

As duas últimas semanas foram fartas em frases…tristes.

Tristes porque revelaram falta de sentido político em políticos “profissionais”.

Tristes porque as frases foram exploradas e em larga medida abusadas.

A primeira dessas frases tristes foi proferida por José Sócrates sobre a “eternidade da dívida” e já mereceu discussão neste blog (aqui e aqui).

A segunda frase triste foi dita por um deputado do Partido Socialista sobre relacionamento com credores de dívida, que mereceram um comentário do André Barata (aqui) e reacção nos comentários ao seu texto.

Adiciono apenas a interpretação de que se é discutível o relacionamento com os credores, o poder de negociação de Portugal é reduzido, sobretudo se isolado e desligado dos outros países em situação similar. Para além disso, a forma assumida pelo deputado do PS é despropositada (e o ter sido feita no interior do país não é desculpa).

A terceira frase foi da autoria do primeiro ministro, com respeito à emigração.

Novamente, para além do conteúdo, que discuti aqui, o que esteve em causa nesta frase foi a falta de empatia com o país que a afirmação revelou.

Num país que se pretende internacional em muitas das suas dimensões, num país que se procura integrar plenamente num espaço económico europeu, num país com uma tradição longa de séculos de sair do seu espaço geográfico original, num país com uma tradição recente de estudantes passarem por outro estado europeu, não deixa de ser surpreendente a reacção à sugestão e à ideia de emigrar.

A reacção deve-se, a meu ver, mais devido à forma como foi dito do que ao seu conteúdo.

E este é o traço comum com as duas outras frases.

Todas estas três tristes frases partilham:

a) o facto de serem afirmações infelizes;

b) de terem um elemento subjacente que não é inteiramente falso, mas não da forma como a afirmação foi colocada;

c) o aproveitamento mediático e político dessas frases.

Enquanto houver esta falta de rigor, de parte a parte, dificilmente se conseguirá melhorar o nível de discussão política.

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Sobre Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa
Esta entrada foi publicada em Os media, Política Nacional. ligação permanente.

6 respostas a Três tristes…frases

  1. Daniel Ribeiro diz:

    Olá Pedro,
    Não é dificil concordar contigo, numa determinada perspectiva. Mas creio não ser só uma questão de rigor. É também uma questão de carácter e de valores, afinal da cepa que faz ou rarefaz um político. Como um político dizia há dias de outro político, a um político “não basta ter razão, é preciso saber tê-la”. E, direi eu, nesse saber tê-la está muito, ou sobretudo, do quadro de valores ou referências éticas com que convoca os demais, com que nos convoca. E isso faz de certeza toda a diferença. O tempo é exigente.
    Um abraço
    Daniel

  2. Olá Daniel,
    Obrigado pelo teu comentário.
    Tens razão na exigência de carácter e de valores, absolutamente necessários para se conseguir reunir as pessoas em torno de um esforço comum.
    Mas mesmo que o tenham, que tenham razão, o “saber ter” razão obriga também a uma empatia e a emocionalidade no agregar desses esforços comuns.
    Esta última parte é mais difícil de construir, pode-se argumentar se pode ser cultivada ou se nasce. Só que claramente não resulta de andar aos gritos de os banqueiros alemães terão as pernas a tremer face ao clamor dos portugueses endividados, nem de sugerir a emigração do alto de uma cadeira (do poder).
    Um abraço
    Pedro

  3. Alvaro Gomes Martins diz:

    Caros,
    Então aí vai o que penso, curto:
    – Sócrates não disse nenhuma asneira. Mas o que disse não ajudou nada ao que quiz dizer. Devia sabê-lo. Contribuiu para tornar pouco séria e credível uma coisa que é, em substância, séria: – a gestão da dívida como um fluxo.
    – O VP do Grupo parlamentar do PS foi impróprio e despropositado. Um argumento sustentável, dito fora de tempo e de contexto transforma-se numa irresponsabilidade. E uma irresponsabilidade. A irresponsabilidade do autor acaba por criar a imagem de um argumento irresponsável, o que não é necessariamente verdade. Mas fica mais dificil usar o argumento.
    – Pedro Passos Coelho é primeiro ministro. Não é aceitável que se refira á emigração dos portugueses como solução. No limite,se não houver portugueses em Portugal fica mais fácil a governação. Um governante não pode falar assim. Pede-nos austeridade, mas solidariedade … nada. Se não tens lugar no modelo… emigra! Estou esclarecido – É inaceitável. Não é moralmente comparável ao que disseram os outros dois…
    Cpts
    Alv

  4. Caro Álvaro
    Obrigado pelo seu comentário.

    Assinalo apenas que a emigração está a ser uma solução encontrada por portugueses, antes e depois da crise; que a evolução da economia portuguesa, ou mais concretamente da demografia portuguesa não permite contratar todos os que pretendem ser professores do sector público ou privado; que algumas dessas pessoas terão que procurar outra forma de realização profissional se trabalharem em Portugal (o que não é novidade para outras profissões, por exemplo arqueologia ou história da arte). De um ponto de vista estritamente económico, a afirmação do primeiro-ministro não está errada.
    Se o discurso tivesse sido outro, começando por falar da preocupação com realização profissional dos portugueses, que apesar de todos os esforços o país não terá capacidade de encontrar trabalho para todos, e que nesse caso haverá todo o empenho em que as pessoas encontrem a sua felicidade e realização profissional, em Portugal ou num país da lusofonia, até dando um carácter de universalidade lusa a esse esforço, será que a reacção teria sido a mesma?

    As reacções a todas estas frases mostram também a “sensibilidade” da comunicação política em tempos de crise, independentemente do fundamento do que se afirma, e deverá ser tido em conta pelos actores políticos.

  5. Ana Bárrios diz:

    Subscrevo plenamente as palavras do Prof. Dr. André Barata. Deu voz à angústia que as palavras do nosso Primeiro-Ministro despertaram em mim, cidadã portuguesa.

  6. Ana,
    A questão é mesmo essa, angústia, independentemente do que possa ter estado factualmente na base das afirmações do Primeiro-Ministro. E a existência dessa angústia, sua e creio que da generalidade dos portugueses, não é coisa de somenos. Estamos com um problema económico, mas também de esperança e de confiança da sociedade.

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