Por que perturba tanto que um Primeiro-Ministro diga a verdade?

Nas universidades é habitual um professor aconselhar os seus alunos a que estejam atentos aos concursos que aparecem no Brasil e que vejam aí uma oportunidade de encontrar saídas que lhes permitam prosseguir os projectos de vida que gostariam de levar. Mesmo entre colegas com as carreiras estagnadas e sem perspectivas de pelo menos preservar o nível de rendimento de que dispunham há seis e sete anos atrás, tornou-se habitual comentar possibilidades de carreira no Brasil, até mesmo em Angola e Moçambique. Também se fala frequentemente destas coisas em jantares de amigos ou de família. É o que pais dizem com amor a filhos, alguns lembrando escolhas que eles mesmos fizeram há 30 e 40 anos atrás. Fala-se disso conhecendo por dentro o sofrimento destas escolhas, e fala-se, em todo o caso, da necessidade de cortar despesas, adiar férias no estrangeiro, trocar jantares fora por jantares em casa, viajar em segunda classe, etc. Sim, é verdade, muitos portugueses têm escolhido, por prevenção ou necessidade absoluta, modos de vida menos ricos. Repito: sim, é verdade. Até ao desespero para muitos.

Mas então, se nós mesmos decidimos, por força da necessidade e da decência pública, empobrecer os nossos estilos de vida, e se não é menos verdade que muitos consideramos a possibilidade de emigrar, centenas de milhares mesmo, por que indigna de forma tão absoluta que um Primeiro-Ministro nos venha confirmar que temos de empobrecer e talvez emigrar?

Indigna, em primeiro lugar, porque nos obriga a reconhecer estarmos a ser governados por um líder que assume desistir do país que governa, não todo o país de uma só vez, mas, pedaço a pedaço, e assim, paulatinamente, um governo disposto a desistir de todo o país. À pouca riqueza do país, seguem-se agora os professores. E seguir-se-ão outras desistências que já imagino, e que não me atrevo a enumerar uma vez arredada a esperança por quem a haveria de carregar até ao último fôlego.  Do que se desiste em cada um destes casos, não é de uma opção estratégica, de uma política demasiado dispendiosa ou de um objectivo económico irrealista, nada disso; do que se desiste é da própria existência colectiva do país. Antes de se sacrificar a massa humana com que é feito o país, sacrifica-se o sentido colectivo da sua existência. O país continua profundamente subdesenvolvido em termos de educação, mas os seus professores são dispensados a ponto de lhes ser sugerida a emigração. Uma vez iniciada, esta é uma lógica imparável, que nos conduzirá a retalhar a sociedade. O primeiro pecado capital das declarações do senhor Primeiro-Ministro foi terem revelado a sua disposição para deixar cair o país como quem larga lastro.

Mas há mais. Um governo que interfere no campo das difíceis escolhas privadas, individuais ou familiares, sobre emigrar ou resistir às dificuldades, é um governo que opta pelo mais impiedoso dos paternalismos: o paternalismo que põe gente fora de casa. A história das democracias ocidentais é em grande medida uma história de emancipação do jugo paternalista. Compete ao governo governar o interesse comum a todos os particulares, abstendo-se de intromissões no campo das escolhas particulares de cada um dos seus cidadãos. Não são apenas autores liberais anti-estatistas que o dizem, é toda a tradição de pensadores politicos que, no longo arco que vai do liberal John Locke ao democratista Rousseau, o dizem. Não é politicamente tolerável que, em democracias maduras, em Estados de direito, algum poder político pronuncie a necessidade da sociedade empobrecer, ou de algum seu sector emigrar. Nem o mandato de Primeiro-Ministro, nem nenhum outro, lhe confere esse poder. Não existe o poder político que enquadre  uma indicação de empobrecimento ou de emigração.

Este paternalismo poderia ter sido apenas imprevidente, até fruto de alguma ânsia em dizer verdade sobre tudo e a toda hora, confundindo ordens de discurso, e nestas a posição do cidadão Passos Coelho, com as suas ideias e a sua vida passada, como todos nós, e a posição de Primeiro-Ministro,  a que tem de se habituar. O pior é que o excesso de presença que este paternalismo representa sobre as nossas vidas é tão-só a contrapartida de uma capitulação. O mesmo governo que se dispõe a se intrometer na esfera sacralizada das escolhas particulares dos seus cidadãos, é o governo que se dispõe deixar ao desgoverno partes significativas do interesse comum aos seus cidadãos. Por exemplo, o futuro nacional dos seus professores.

É bom que se perceba. Fora o desapego do Primeiro-Ministro por alguns que governa, estas declarações fazem adivinhar, a prazo, o desastre político nacional. Lembrar que o último governo começou a precipitar o seu fim ao permitir-se que fosse acusado de menosprezar os professores é lembrar pouco. Pois a preocupação é hoje menos a sobrevivência do governo do que a do próprio país. Nos dias que correm, é um imperativo nacional que quem governa esteja à altura da função.

Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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5 respostas a Por que perturba tanto que um Primeiro-Ministro diga a verdade?

  1. Jorge Menezes diz:

    Concordando com o que André Barata diz, quero a propósito tecer um comentário a propósito das declarações do primeiro-ministro, pois o assunto está no ar, é polémico, mas carece a meu ver de um enfoque que não tem sido defendido. É indiscutível que Passos Coelho errou. Mas por que o fez? Porque não soube falar como um homem de estado, como um estadista, expressões com que não simpatizo em particular, mas que me parece necessário invocar. Um verdadeiro estadista, daqueles que vêem mais longe do que o horizonte das próximas eleições, enquadraria a questão dos professores portugueses trabalharem em países lusófonos na sua autêntica dimensão, o que ele não fez, e por isso merece ser criticado. O grande estadista diria que a cooperação com os países lusófonos é um objectivo estratégico para Portugal, tão importante como a nossa participação na UE. Em segundo lugar explicaria que a cooperação com os países lusófonos irá aumentar com o seu governo, e que irão ser criadas condições não só para que os professores à procura de emprego possam vir a trabalhar nos países lusófonos, mas para que mesmo os professores no activo possam ciclicamente ensinar nas escolas e universidades dos países lusófonos contribuindo para o desenvolvimento cultural dos países irmãos, e reciprocamente para o enriquecimento curricular e humano dos professores portugueses.
    O primeiro-ministro não focou essa perspectiva porque simplesmente não a vê, é cego culturalmente para essa realidade, o que como político é grave. Talvez pense que a cooperação deve assentar exclusivamente numa espécie de troca capitalista pura, esquecendo a história, não perspectivando o futuro, e sobretudo sem engenho e sensibilidade para abordar o presente. É estranho que um primeiro-ministro tão “africanista” não apresente a cooperação com os países lusófonos como um grande desígnio nacional.
    Mas o primeiro-ministro afirmou nuamente, sem atavios, e isto sim é muito grave, que não vê perspectivas de desenvolvimento económico para Portugal, e que por isso os desempregados devem emigrar. Ora isto é grave porque evidencia que ele não tem qualquer perspectiva de desenvolvimento para Portugal, ele ignora que a economia portuguesa pode crescer, que há sectores em que a economia cresce, mas receio que mais uma vez o primeiro-ministro seja escravo da sua curteza de vistas, e dos seus preconceitos ideológicos. O primeiro-ministro não sabe que a agricultura biológica é um subsector em grande crescimento? Quer ignorar, é mais fácil, não é? Não sabe que nas áreas das energias alternativas está muito, imenso por fazer, e que se podem criar muitos postos de trabalho? Não sabe que a Cultura pode gerar riqueza, que está associada ao turismo, e é uma alavanca para o desenvolvimento do país? Em suma, o primeiro-ministro não acredita que os Portugueses possam criar mais riqueza do que aquela que existe, mas o que é mesmo grave é que o primeiro-ministro de Portugal parece muito imberbe, muito adolescente para governar este país em águas tão tormentosas. Aprofunde a sua cultura sobre os países lusófonos, consciencialize-se do papel da cooperação, antes de aconselhar os Portugueses a emigrar diga-lhes que há desenvolvimento possível em Portugal, que é possível criar riqueza e postos de trabalho, diga-lhes isso, mas primeiro cultive-se, até economicamente, para depois aconselhar e orientar os Portugueses para as áreas estratégicas de desenvolvimento.

  2. Pedro Cruz Carrilho diz:

    Claro está que um dirigente governativo com este tipo de discurso, em circunstâncias normais e num país desenvolvido-de massa cizenta e crítica-, não necessariamente de pib per capita-já teria sido forçado a demitir-se, mas nem as circunstâcias são normais, nem nós pertecencemos a essa classe de países, ou talvez seja melhor dizer de povos…porém só quem não vê o nível-ou a falta dele-decrescente de políticos que vimos tendo se pode espantar com estas atoardas e com gente deste calibre, este indivíduo sempre foi um boémio, para não adejectivar de modo próprio, que sempre viveu à custa de ecxpedientes na política e na sua órbita, e que agora vem fazer um papel em que não passa de um mero ventriluquo de quem de facto manda, se repararem nunca diz nada de específico, e o seu pensamento político reduz-se a um livrinho que foi teorizado pelo padrinho do lixo, o ângelo, constatem bem os (com)passos de espera sempre que procura emitir qualquer verborreia, é gente sem intelecto, sem visão de vida, sem valores e acima de tudo sem coluna vertebral, que se diz patriótica mas que na primeira oportunidade nos vende por uns us dolares ou, no caso vertente, por uns velhos marcos…

  3. piradodamona diz:

    Concordo inteiramente com o que diz André Barata e também, muito particularmente, com o comentário de Pedro Carrilho, a quem dou os parabéns pela profundidade e realismo da sua análise.
    Parece, de facto, que em vez de um verdadeiro Governo, com plenos poderes para elaborar uma estratégia de relançamento de Portugal, nada mais temos do que um governo de gestão que, aflito, diz aos portugueses para abandonarem o país.
    Quando é que as pessoas percebem que os partidos que até aqui estiveram na governação, mais do que fazerem parte da solução fazem parte do problema?

  4. Caro André Barata
    Leia o “Manifesto Dos Economistas Aterrados”, e perceba os motivos de tanto enviesamento das questões fundamentais por parte de todo este governo, da própria Europa. No fundo, tudo uma questão de poder, acão de efeitos pretendidos, numa ideologia que pretende cristalizar-se como a única verdade.
    Cumprimentos

  5. André Barata diz:

    Obrigado pelos comentários e pela referência ao livro Manifesto Dos Economistas Aterrados, que ainda não li.

    Votos de bom ano!

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