Eu que sou feio, sólido, leal *

A ti, que és bela, frágil, assustada.

Em geral tenho tendência para simpatizar com pessoas que sabem fazer coisas em relação às quais eu não possuo a mais leve suspeita dos seus meandros, enredos, circunvalações. Falo de canalizadores, porque não?, e também mecânicos de carros e dos senhores que arranjam elevadores.  

Mas também dos tipos que lidam, com a facilidade de quem maneja um fecho-éclair, com as entranhas desta coisa diabólica que é a informática, e dissecam-lhe os órgãos, e autopsiam-lhe os interiores. E navegam na Internet com petroleiros e porta-aviões e não com barcaças trôpegas, que à mínima ondulação, metem água e são arrastadas contras as rochas, sem apelo nem glória.

Logo, nutro uma inevitável admiração pelos hackers que se conseguem infiltrar nos mais blindados sistemas. Isto desde que vi os Jogos de Guerra, para aí na escola primária. Cada vez que um destes introduz um pauzinho na engrenagem, sinto o mesmo empolgamento quando um barco a motor consegue interceptar mais um baleeiro japonês.

Noutro ponto, gosto daquela gente que anda de «chanatos» de piscina, mesmo nos ambientes mais elitistas, a desafiar fatos e gravatas e outros convénios ridículos de indumentária masculina.

E até gostei do filme do David Fincher.

Considerava-me uma boa cliente dessa rede de contactos, fórum social, que é o Facebook. Fazia dela um uso misto, profissional e pessoal. E também de depósito de vídeos, fotos e memórias.

De repente, desactivaram-me a conta. Perdi centenas de amigos, de fotos, de vídeos, vi-me despojada de imensos privilégios, como o de pedir amizades, ou de enviar mensagens …

Eu que sou feio, sólido e leal, que nunca postei uma mulher nua, um palavrão ou um conteúdo explícito – aliás, evito sempre que posso, ser óbvia, explícita e literalista.

Nada disto é muito grave. A sensação remonta aos tempos e infância quando, de repente, se ficava sozinho no recreio, enquanto os outros abalavam em brincadeiras colectivas.

Dizem-me que fui denunciada, durante semanas a fio, por um louco/a, um fundamentalista/o, um brincalhão/ona, um stalker/ina… Dizem que foi por causa de uma foto da irmã Lúcia – paz à sua alma.

Também pode ter sido um realizador com mau feitio. 

Parece que na Califórnia faz imenso sol agora.

* Cesário Verde

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