O Gentil Monstro

O gentil monstro, e não o monstro gentil: na tradução a ordem do adjectivo não é indiferente se queremos transmitir o espírito deste “Gentle Monster” de que Hans Magnus Enzensberger se aproxima com extrema relutância.

Uma viagem quase pessoal pela Europa das instituições, mas principalmente pela dos seus “guardiões”: distantes, relativamente acríticos e ferozmente benevolentes.

Um dos problemas desta Europa é que a benevolência não é uma boa forma de governo.

As quase bíblicas imperfeições humanas, perversões de informação e de intenção, obrigaram gerações de antepassados a inventar um sistema de governo, também imperfeito, mas que não dependesse da benevolência de governantes.

Esse sistema chama-se democracia.

Quanto à natureza dos governados, o proverbial bom senso popular, essa realidade quase estatística, temperada por limites constitucionais apropriados, faria o resto.

Na Europa das instituições falta precisamente este elemento de modéstia que faz a riqueza da democracia: a audição regular de todos os governados sobre a natureza do bem comum.

A expressão “défice democrático”, de tão estafada, assemelha-se hoje a uma anestesia. A melhor prova disso é a frequência com que é usada pelos guardiões do templo, ora com fatalismo ora com quase bonomia.

Enzensberger assusta-se e recua. Sugere a retirada parcial, a mais difícil das decisões.

Pode estar enganado.

A Europa provavelmente precisa de mais Europa, embora não em todas as direcções. Com certeza que necessita de mais democracia.

A ideia de um homem um voto fez milagres para pacificar a relação entre cidadãos e instituições. Trata-se do direito de todos à expressão simultânea sobre assuntos de interesse comum.

A ideia de um europeu um voto ainda tem um longo caminho a percorrer.

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Brussels, the Gentle Monster or the Disenfranchisement of Europe

 Hans Magnus Enzensberger

 

 

 

Sobre José Tavares

José Tavares doutorou-se em economia na Universidade de Harvard, onde se especializou em economia política e macroeconomia. Ensinou na Universidade de Harvard, University of California Los Angeles (UCLA), e Universidade Católica Portuguesa. É professor na Universidade Nova de Lisboa e investigador no Centre for Economic Policy Research (CEPR), em Londres. A sua investigação aprofunda temas como a relação entre democracia e crescimento económico, as determinantes da corrupção, e as consequências macroeconómicas da discriminação de género. Publicou em revistas científicas na Europa e nos Estados Unidos, e em volumes da Harvard University Press, MIT Press, e Princeton University Press. O seu trabalho académico foi comentado nos jornais New York Times, La Reppublica, Expresso, Público, e nos sítios de comentário especializado Vox.eu e Eurointelligence. Homepage: www.josetavares.eu
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