20 Anos !

Celebram-se no próximo Sábado vinte anos desde que a URSS foi dissolvida. Para quem nem 20 anos tinha na altura, parece que ainda foi ontem, mas a verdade é que essa outra União, de repúblicas socialistas soviéticas, se extinguiu faz quase uma geração (como se lembra aqui). Depois de uma crise de final de Verão, desmoronou-se como um castelo de cartas que um qualquer sopro de liberdade derrubaria, se não nesse dia, no seguinte ou no seguinte, mas inapelavelmente.

Para a minha juventude, que descobria precisamente por esses dias o empenhamento político, na Associação de Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa, foi acima de tudo com alívio que vi ficarem para trás os fantasmas da Sibéria, da Checoslováquia, da Polónia, que me incutiam reservas ao sonho da fraternidade comunista. A vivência que tinha nesses anos do Leste europeu era sobretudo uma vivência literária, e que muito devia à leitura rendida do universo romanesco de Milan Kundera. Havia mais razões, mas, em 1991, a experimentar a universidade e as causas estudantis, encarei o fim da URSS como uma oportunidade de recomeço. Infelizmente, o PCP não encarou as coisas da mesma forma e, 20 anos depois, de forma que raia o delírio, é ainda um partido comunista que escolhe, sem que nada a isso o obrigue, não apresentar condolências pelo falecimento de um resistente da estatura inteletual de Vaclac Havel e que insiste em solidarizar-se com o indescritível regime da República Popular da Coreia do Norte. Tanto mais lamentável quanto reconhecemos o enorme contributo de resistência em prol da liberdade em Portugal.

Passaram-se 20 anos, aritmeticamente somados às nossas vidas como às dos países, transformando-nos feições e feitios, crenças e ilusões. 20 anos é realmente um lapso de tempo apreciável e, se pensarmos nas ex-repúblicas soviéticas, talvez o bastante para que o tempo das grandes mudanças tenha passado e para que as antigas populações destes países  possam fazer um balanço das novas vidas que abraçaram.

O Pew Global Attitudes Project, cujos estudos mereciam maior atenção por cá, acaba de publicar alguns resultados de inquéritos realizados em três antigas repúblicas soviéticas – Rússia, Ucrânia e Lituânia. A impressão geral que se retira desses resultados é que, apesar da pouca liberalidade do extinto regime soviético, com condicionamentos graves à expressão livre, ao pluralismo político, e às liberdades individuais, existe hoje uma profunda desilusão com as conquistas de há 20 anos, seja com a democracia pluripartidária, seja com a economia assente no mercado livre.

Este Pew Global Attitudes Project integra o plano de investigação do Pew Research Center, que se autodenomina um “fact tank”  apartidário, que não toma posição sobre questões políticas. A ideia é apresentar factos respeitantes a atitudes globais, portanto  em diversos países considerados representativos, factos obtidos através de estudos de opinião  repetidos ao longo de anos de modo a se poder esboçar tendências globais. Um “fact tank” como este dá muito que pensar aos “think tank”. É um convite à reflexão.

Os resultados, publicados no início deste mês, são muito significativos e vale a pena passá-los em revista.

1. Sistema multipartidário
Há 20 anos, 71% dos ucranianos aprovavam a mudança para o sistema multipartidário. Hoje são apenas cerca de 35%, ou seja menos de metade de há duas décadas. O decréscimo na Lituânia foi de 75% para 52% e na Rússia de 61% para 50%.

2. Economia de mercado
Os resultados seguem o mesmo padrão. Na Ucrânia, de forma menos pronunciada, a aprovação da economia de mercado recuou de 52% para 34%. Já bastante mais pronunciado foi o recuo na Lituânia: de 76% para 45%. Resultado confrangedor e procupante, sendo a Lituânia, destes três, o único estado-membro da União Europeia. Também na Rússia houve um recuo significativo, de 54% para 42%, de aprovação da economia de mercado.

3. Confiança na democracia
A percentagem de inquiridos nas três ex-repúblicas soviéticas que confiam mais na democracia do que num líder forte como solução para os problemas nacionais recuou muito significativamente nos últimos 20 anos. A Lituânia e a Ucrânia recuam 27%, a primeira de 79% para 52%, e a segunda de 57% para 30%. Por seu turno, na Rússia 51% para 32%. Nem um terço dos ucranianos, ou dos russos, confia hoje na democracia.
Em todas as três ex-repúblicas soviéticas cerca de 70% inquiridos considera preferível uma boa economia a uma boa democracia.

4. Quem beneficiou com as mudanças de 1991?
Segundo os inquiridos, sempre muito mais os políticos e os empresários (respetivamente 95% e 76% na Ucrânia, 91% e 78% na Lituânia, 82% e 80% na Rússia). As pessoas normais terem beneficiado com as mudanças só é defendido por 11% dos ucranianos inquiridos, 20% dos lituanos, 26% dos russos, o que é um resultado desolador. Não tenho nenhum estudo à mão, mas estou muito convencido de que, em Portugal, e relativamente à revolução de 1974, o juízo das pessoas teria sido vinte anos depois, portanto por volta de 1994, substancialmente diferente.

5. Impactos negativos na sociedade
Mas o que terá, na opinião dos inquiridos destes três países, regredido tanto a ponto de justificar tamanha desilusão? Sem apontar percentagens, que no caso da Ucrânia chegam a superar os 80%, por ordem de maior impacto negativo, temos que as grandes vítimas foram ou têm sido, primeiro, a solidariedade social, em segundo, o nível de vida das pessoas, em terceiro, a Justiça e a ordem pública e, em quarto lugar, a moralidade pública. Em todas estas quatro dimensões da vida colectiva, são sempre maiorias claras, nos três países, a considerar que as mudanças de 1991 prejudicaram a sociedade.

Num tempo em que outra União, a nossa União Europeia, se vê tão ameaçada por uma pusilanimidade que se infiltrou no tutano das suas esperanças, era bom que os seus responsáveis políticos compreendessem o papel histórico que se espera dela. A aposta na continuidade do projecto desta senhora europa de velhas nações é trazer-lhe a graça de um gesto juvenil de vitalidade que, apesar de todas as idades, detenha a desilusão que a ameaça. Há também uma imortalidade de que Kundera não falou, e em que é preciso acreditar como quando se tem 20 anos: o ideal desta Europa, em azul intenso.

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Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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5 respostas a 20 Anos !

  1. Há 20 anos (um pouco mais) seguia com atenção sobretudo o que se passava na Polónia, com Lech Walesa 🙂

    Mas para além da memória, dois aspectos relevantes:
    a) quanto mais distante no tempo, menor a memória real desses tempos; é mais fácil depreciar o que se tem hoje face ao passado.
    b) não sabemos o que se seriam hoje esses países se não tivesse ocorrido a dissolução da União Soviética; e é por isso que as percepções da população não são necessariamente um bom guia.

    Preocupante é alguma predisposição para um trade-off entre economia mais pujante e democracia.

    Abraço.

  2. André Barata diz:

    Obrigado Pedro pela menção a esses dois aspetos, com que concordo claro. Ainda assim, os sinais de desilusão persistem.
    Já agora, eu não referi um dado a que devia ter dado maior atenção: Não há evidência, entre os inquiridos, de uma preferência pelo regime que precedeu 1991. O que me pareceu importante é a muito notória desilusão nestes países com a implantação do modelo que a Europa ocidental, rica e pluralista, deveria encarnar. Não se espera um retorno ao passado (embora haja sempre nostálgicos), mas, talvez, um ideal de Europa mais fortalecido. Essa é pelo menos a hipótese que eu prefiro e que me faz esperar uma responsabilidade da UE por mais Europa do que a dos 27.
    Abraço!

  3. A propósito das mudanças (radicais) na Europa de Leste.

    O trailer de um filme assaz conhecido, Goodbye Lenin.

    e um artigo académico sobre a permanência e a mudança das preferências dos cidadãos da ex-Alemanha Oriental

    http://www.economics.harvard.edu/faculty/alesina/files/goodbyelenin-0606.pdf

  4. André Barata diz:

    Caro José Tavares,
    obrigado pela referência do artigo, muito interessante. Chamou-me especial atenção o facto de os autores projectarem a tão longo prazo a coincidência de atitudes nos dois lados da Alemanha a respeito do mercado livre e do intervencionismo de Estado. De acordo com a projecção, será necessário um lapso de tempo tão grande quanto o tempo que durou a RDA enquanto Estado para que se “dissolva” a influência do regime. Esse é um dado que dá que pensar, sobretudo se atendermos à situação singular da RDA, que transitou de um regime comunista particularmente duro para um processo de unificação intenso, e logo com a economia mais poderosa da UE. Se comparada a veloz unificação alemã com a tímida e cada vez mais problemática “unificação” europeia, não é de surpreender que os resultados nos restantes países do “Leste” e nas ex-repúblicas da URSS sejam mais pessimistas relativamente ao modelo político e económico dos países da parte ocidental da Europa. A preocupante evolução mais recente da situação na Hungria, apesar de ser um estado membro da UE, até mesmo por o ser, constitui um exemplo que enquadra bem este debate sobre heranças ainda bem vivas nesta Europa.
    http://pt.euronews.net/2012/01/02/orbanizacao-da-hungria/#.TwIOQXzexo4.facebook

  5. André Barata diz:

    Comentários no Facebook:

    #1: DOTeCOMe…o Blog: O fim da URSS há vinte anos
    http://dotecome.blogspot.com/2011/12/o-fim-da-urss-ha-vinte-anos.html
    27 de Dezembro de 2011 às 13:53

    André Barata Fernando, boa! Estou no Ipad, mas mais logo em casa faço um link. Veja os resultados do Pew center… São muito interessantes.
    27 de Dezembro de 2011 às 13:55

    Fernando Penim Redondo: O que me levou a fazer o post que abusivamente despejei aqui (peço indulgência) foi a quase indiferença com que os media passaram por esta efeméride. Muitos dos que têm mais de 40 anos viveram o desmembramento da URSS como um drama quase pessoal. Talvez hoje não se tenha a noção do investimento político de várias gerações que foi suportado pela ideia de que a URSS significava a possibilidade de uma sociedade com outras regras. Apesar dos erros e apesar dos crimes que, mesmo quando não conhecidos, eram subentendidos.
    27 de Dezembro de 2011 às 15:35

    Fernando Penim Redondo: Sobre os resultados do Pew Center eu, como sempre neste tipo de inquéritos, tento ser cauteloso. Apenas gostaria de comentar que os cidadãos do Leste foram bombardeados com expectativas exageradas, antes da queda do muro, como forma de fazer colapsar o regime. Lembro-me de várias conversas na Rússia e na RDA, com cidadãos que esperavam tanto da abertura que só poderiam desiludir-se. Depois há também o efeito, muito conhecido, de a distância no tempo ir limando as arestas de regimes anteriores como se vai verificando em Portugal.
    27 de Dezembro de 2011 às 15:41

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