Bom Ano para ti também!

A sério, pensei muito se faria sentido desejar um feliz 2012 ao Governo. As ideias que passam pela cabeça de uma pessoa! Mas depressa me convenci de que isto de sorrir e dizer “Bom Ano para ti também!” poderia não ser tão boa ideia quanto isso. O mais provável é os desejos não coincidirem.

Ainda assim não me faltavam desejos para aquelas passas! Acabei concluindo que o mais prudente seria desejar-me a mim próprio os votos de que o governo partilhasse os meus desejos. Ninguém me levará a mal este desejo de convergência de ideias e vontades, até porque não desejo nada de mais. Ainda ontem regressava a casa e lá estava o troço da auto-estrada a cobrar mais 10 cêntimos pelo desgaste no asfalto. Nestes tempos, não duvido de que o que passou pela cabeça de muitos, enquanto engoliam as passas, já não eram euromilhões, há que poupar nesses sonhos de criança, mas os muitos tostões que se vão, em portagens, impostos e subsídios.

E que pequenos desejos desejei eu, então, que o governo desejasse para 2012? São três simples desejos de agendas:

1. Concertar posições com os outros países periféricos, fazer cimeiras nas nossas magníficas praias, ou nas de Espanha, da Grécia, vá lá as de Itália também, para que não haja invejas. Mas de direito reservado aos periféricos: Mónacos e Côte d’Azur paciência. E até já tenho um desejo de nome – «Cimeira da Coesão» – lembrando que, dantes, quando a UE ainda era um grande projeto de alma, chamava-se Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha não por algum acrónimo de mau gosto, mas por “países da coesão”. As batalhas começam a perder-se, ou a ganhar-se, nas palavras de que desistimos ou com que insistimos. Reúnam-se pois com os vossos congéneres, e alcancem uma nova agenda para a coesão europeia. Consolidação orçamental sim, coesão social e económica sim duas vezes! E com isto vai-se um desejo.

2. Depois de duas décadas de desestruturação do sistema produtivo nacional (sob o efeito da anestesia de muitos fundos que, por razões diversas e em grande parte por responsabilidade doméstica, muitas vezes só foram “estruturais” e de “coesão” entre aspas), é preciso desejar que tenhamos novamente mais frota pesqueira, mais agricultura, mais aproveitamento deste nosso clima e desta nossa paisagem. É preciso crescer sim, mas não a fazer electrodomésticos e sapatos baratos, a soldo de marcas internacionais, que os poderão fazer em qualquer lado do mundo, seja uma democracia ou uma tirania, cumpra leis do trabalho ou empregue exploração infantil, pois esse é um jogo desleal, que só podemos esperar não tornar a jogar neste país. A alternativa é crescer aproveitando o valor do território nacional. Incorporar esse valor na produção nacional passa por nos firmarmos com determinação colectiva na produção de energia, nos recursos do mar, na riqueza agrícola. O caso de sucesso que tem sido o crescimento das exportações de vinho, e reconhecimento internacional da sua qualidade, é uma história exemplar. Uma nova agenda económica nacional deve ser a contrapartida dos sacrifícios a que o país se tem sujeitado. A única forma de dar sentido aos sacrifícios é haver um caminho que ganhe as pessoas devolvendo-lhes a confiança, e que a cada sacrifício faça corresponder, algum tempo depois, alguma realização. Desejava mesmo muito ver preto no branco um plano, com cronograma e milestones. E este era o meu segundo desejo.

3. A confiança é um bem inestimável de que as sociedades precisam sobretudo nos seus momentos difíceis. A confiança confere-lhes a resiliência e a elasticidade que não consentem o estilhaçamento do laço social. Mas para que possa haver confiança é necessário evitar inépcias entre aqueles que têm o maior dever público de a promover. Desejavelmente, terão de terminar em 2012 os convites à emigração para cidadãos de classes profissionais com dificuldades de emprego, as  apologias ao empobrecimento generalizado da sociedade, as escolhas de políticas de sacrifício social mas com baixa sensibilidade à equidade entre os diferentes sectores da sociedade, como já sucedeu com os funcionários públicos, ou com baixa sensibilidade à vulnerabilidade, como já sucedeu com os pensionistas idosos, ou com baixa sensibilidade à ideia de um projeto de renovação das gerações, como já sucedeu com os passes sociais das crianças.  Uma agenda da confiança portanto, e que deve ir muito além das inépcias desejavelmente a evitar, para promover a ideia de que temos um projecto comunitário comum. A confiança é uma palavra que enche a boca, mas, se apenas dita e nada feito por ela, é apenas uma mordaça que nos cala a boca. O desejo da confiança é também um desejo de que se esforcem por nos surpreender com inovação, arrojo e coragem, não contra nós, mas por nós.

Com estas três agendas, seria caso para se dizer Ano novo, vida nova!

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Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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7 respostas a Bom Ano para ti também!

  1. Jorge Bravo diz:

    Faz sempre bem, á alma, desejar Bom Ano.
    Até porque a esperança é a ultima coisa a desaparecer!
    Por isso saudações de Bom Ano também para vós.

    Ps: Já estava a sentir falta de comentários realmente bem escritos e melhor pensados, obrigado por estarem á distancia… de um blog perto de nós!

  2. Jorge Bravo diz:

    Já agora, gostei muito da retoma do tema: Recursos do Mar.

  3. André Barata diz:

    Caro Jorge Bravo, obrigado pelas saudações e é uma satisfação sabermos que temos o seu feedback. Bom ano para si.

  4. Alvaro Gomes Martins diz:

    Caro André Barata,
    Agradeço e retribuo os seus votos e partilho as ideias da sua agenda: – coesão dos paises do sul, uma ideia (ou duas) para Portugal, com cronograma e milestones, e confiança (good coaching).
    Mas o factor trabalho, apesar da apregoada mobilidade e dos “incentivos” à “deslocalizaçao” é o factor com menor mobilidade e portanto aquele que vai pagar a factura… Veja, 2011 acabou assim:
    «…a administração da JM explica que a participação de 56,136% do capital social e de 56,213% dos direitos de voto (representados por 353.260.814 títulos da JM SGPS SA) até agora detidos pela Sociedade Francisco Manuel dos Santos SGPS SA (que agrega a participação da família Soares dos Santos na JM) mudaram de mãos. “No passado dia 30 de Dezembro de 2011, a Sociedade Francisco Manuel dos Santos SGPS vendeu à Sociedade Francisco Manuel dos Santos BV” – o que indica que a companhia passa a ter sede na Holanda -, aquela participação. »

    Agora pergunte-se caro André: Porquê? – uma legitima e racional decisão de planemento fiscal faz que aquela sociedade deixe pagar impostos (pelo menos uma boa parte) em Portugal.
    Como eu gostava de poder lidar assim com a austerioridade que me está imposta!!!! Como diz o povo – quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão.
    Bom ano para si também.

    Cpts
    Alv

    • Jorge Bravo diz:

      Soares dos Santos já tinha avisado repetidamente que tal podia ocorrer se insistisse em aumentar impostos de forma irracionalmente indiscriminada.
      Esses avisos ocorreram pelo menos uma a duas vezes por ano nos últimos quatro anos.
      Não será por certo o único empresário independente de uma PPP a fazer isso, outros vão seguir esse caminho.
      Por isso é que muitos têm posto em causa de forma assertiva um aumento indiscriminado de impostos como forma de resolver um problema, que no nosso caso tem mais a ver com uma endémica falta de ética e total ausência de projecto para o país tendo em conta a nossa situação geoestratégica.
      Acresce que com as dificuldades de crédito a nível interno, quem puder irá deslocalizar para ter acesso a crédito mais em conta, veja-se a ultima operação de crédito da EDP.
      Tambem todos nós gostariamos de fazer o mesmo, seria “giro” que fosse possivel a criação de empresas gestoras de capital do tipo “Eu SA” para que nós deslocalizarmos também as nossas finanças.
      Então talvez, o estado acerte o passo.

  5. André Barata diz:

    Caro Álvaro Gomes Martins e Jorge Bravo, eu creio que há várias clarificações em curso e que seria bom aguardar umas horas mais até percebermos claramente qual foi o sentido da operação. Mas, volteremos ao assunto de certeza ainda hoje.

    Cumprimentos.

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