Resposta a um comentário – a “culpa” das dívidas soberanas

Foi-me colocada por comentário uma questão sobre a responsabilidade, a “culpa”, das dívidas soberanas (aqui), uma vez que têm vindo a ser defendidas posições opostas por grupos de economistas.

Não sendo a economia uma ciência tão exacta como a matemática ou a física, há naturalmente margem para visões diferentes.

O primeiro passo está em ter uma base comum de interpretação da evidência disponível, o que tem sido mais difícil de alcançar do que se poderia supor. Tem sido muito frequente que os “economistas” misturem as suas crenças e preconceitos com a análise da realidade (para além de saber se na própria recolha de informação já não o fazem também).

Assim, um primeiro crivo é perceber exactamente que informação está na base de cada posição, e como foi obtida.

Mas vejamos como se pode dar resposta à questão colocada. Tenho sempre a tendência de primeiro procurar explicações que não precisem de recorrer a teorias de conspiração que envolvam coordenações pouco prováveis e difíceis de conseguir entre agentes económicos (sejam estados, bancos ou empresas).

Numa perspectiva de longo prazo, os estados europeus montaram sistemas de estado social, sobretudo de segurança social – pensões -, baseados num crescimento económico permanente, em que a riqueza gerada em cada ano permitia às novas gerações melhor nível de vida e, ao mesmo tempo, maiores pensões às gerações mais antigas. A manutenção deste modelo de pensões baseava-se dois três “motores” fundamentais – crescimento da população, crescimento da economia. Ora nas sociedades europeias, o crescimento da população reduziu-se e as taxas de crescimento económico são hoje mais baixas. Adicionalmente, em muitos países aceitaram-se sistemas de reforma antecipada muito generosos, que na ausência de crescimento económico, se revelam complicados de gerir.

Os problemas do estado social são em grande medida problemas de sistemas de pensões, e problemas de sistemas de pensões resultam de haver menos riqueza do que se antecipava para distribuir por todos.

Resolver o problema das pensões não significa desmantelar todos os outros aspectos dito Estado Social.

Segundo aspecto, se para satisfazer as necessidades crescentes de despesa pública, o Estado aceitar défices públicos sucessivamente mais elevados com mais dívida pública, estará a aumentar ao longo do tempo os juros dessa dívida, mesmo sem as taxas de juro subirem.

Mas quando essa dívida começa a ficar muito elevada, e se criam dúvidas em quem empresta se o Governo de um país conseguirá ter receitas fiscais adicionais, que dependem em grande medida do crescimento económico que se observe, para pagar as dívidas contraídas, esse Governo começa a ter dificuldade em renovar a dívida existente, pagando uma e substituindo-a por outra. Os juros aumentam, fazendo com que o serviço da dívida volte a aumenta, o que a prazo aumenta a probabilidade de não pagamento.

Adicionemos agora aqui uma recessão económica, que pelos mecanismos existentes, fazem aumentar a despesa pública (por via das prestações sociais de apoio) e reduzir as receitas fiscais. Em condições normais, o aumento de dívida neste período seria aceite por quem empresta, antecipando um regresso futuro a uma situação de menor défice com pagamento dessa dívida. Só que no caso de incerteza sobre capacidade de pagamento, estes mecanismos, denominados “estabilizadores automáticos”, só aumentam as dificuldades. É devido a estes mecanismos de ciclo económico que frequentemente se fala em défice público estrutural, isto é, depois de eliminados estes efeitos.

A resposta à recessão económica passou pela visão de um estímulo de despesa pública, a questão é saber se as condições em que esse tipo de estímulo funciona estavam preenchidas.

No caso de Portugal, tinhamos já uma década de baixo crescimento económico, e não uma situação de forte capacidade produtiva instalada não aproveitada. Deste modo, o estímulo de despesa “fugiu” para importações (com os défices de comércio externo crescentes) e o investimento que houve foi em sectores com baixo retorno desse investimento. Nesse sentido, houve excesso de despesa pública, que aliás mesmo o aumento que se estava disposto a ter foi largamente ultrapassado por um verdadeiro descontrolo, por falta de mecanismos de controle orçamental da despesa.

Pedindo muito ao exterior, em termos públicos e privados, e sem crescimento económico, torna-se difícil alguém emprestar mais dinheiro. E estas dificuldades nacionais são independentes dos activos que os bancos alemães possam ter.

Podemos censurar hoje que as poupanças de cidadãos dos países do Norte da Europa tenham sido usadas para que em Portugal se comprassem mais carros vindos da Alemanha e mais televisores vindos da Coreia do Sul, mas na altura não se colocou em questão esse consumo. Numa presunção de crescimento económico a ser retomado em breve, tal seria razoável para todas as partes.

Os problemas da dívida pública portuguesa, da dívida externa dos portugueses, pública e privada, do peso da despesa pública na economia portuguesa,  são em larga medida resultado de uma estagnação económica, de baixa produtividade e baixo crescimento dessa produtividade, e não de factores financeiros internacionais.

Podemos discutir largamente a eficiência dos mercados financeiros internacionais, e o papel das entidades que neles actuam, mas tal não nos deve afastar do problema de falta de crescimento da produtividade na economia portuguesa, qualquer que seja o enquadramento financeiro.

Sem produção de riqueza não temos o que distribuir. Sem conseguirmos fazer com que nos comprem produtos, não conseguiremos importar. Os aspectos da “economia real”, de produção, a prazo acabam por ser os relevantes, mesmo que a “economia financeira” seja mais mediática e visível no curto prazo.

Sobre porque não conseguimos garantir crescimento económico na última década, teremos discussão adicional noutra ocasião.

 

Sobre Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa
Esta entrada foi publicada em Dívida, Economia. ligação permanente.

5 respostas a Resposta a um comentário – a “culpa” das dívidas soberanas

  1. Jorge Bravo diz:

    Magistral o “Tem sido muito frequente que os “economistas” misturem as suas crenças e preconceitos com a análise da realidade (para além de saber se na própria recolha de informação já não o fazem também).

    Assim, um primeiro crivo é perceber exactamente que informação está na base de cada posição, e como foi obtida.
    Muitas vezes, para não dizer na maioria das vezes, só isso pode justificar tanto desvio da realidade.

  2. Jorge Bravo diz:

    Já agora excelente análise.
    Mas, não esquecer tambem a manipulação politica externa, via agencias de rating e manobras avulso.
    A nivel interno o que aqui foi dito, é claro e sintético espelho da nossa realidade.

  3. Alvaro Gomes Martins diz:

    Escolho este trecho do último artigo de Danny Rodrik “Occupy the Classroom?» in Project Syndicate (também traduzido pelo Público mas já só disponível para assinantes on-line):

    «Oddly, the knowledge that the professor willingly imparts with great pride to his advanced students is deemed to be inappropriate (or dangerous) for the general public.
    Economics instruction at the undergraduate level suffers from the same problem. In our zeal to display the profession’s crown jewels in untarnished form – market efficiency, the invisible hand, comparative advantage – we skip over the real-world complications and nuances, well recognized as they are in the discipline. It is as if introductory physics courses assumed a world without gravity, because everything becomes so much simpler that way.
    Applied appropriately and with a healthy dose of common sense, economics would have prepared us for the financial crisis and pointed us in the right direction to fix what caused it. But the economics we need is of the “seminar room” variety, not the “rule-of-thumb” kind. It is an economics that recognizes its limitations and knows that the right message depends on the context.
    Downplaying the diversity of intellectual frameworks within their own discipline does not make economists better analysts of the real world. Nor does it make them more popular.»

    in http://www.project-syndicate.org/commentary/rodrik65/English
    Cpts
    Alv

  4. Professor Pedro Pita
    Obrigado pelo o comentário.
    Tenho grande dificuldade em compreender a objectividade quando falamos de assuntos onde a subjectividade provoca determinados efeitos, e mais ainda quando queremos fazer desta causalidade eficiente como a verdade, o único caminho. Senao vejamos , até 1998 as taxas de juro dos PIIGS estavam baixas( os problemas estruturais, que fala, já estavam presentes), contudo as taxas de juro nao reflectiam os déficits das balanças de pagamentos, estranho ou efeito pretendido?
    Segundo, porque só a partir de Janeiro de 2010 as taxas começaram a sua escalada?? Os desajustamentos que fala já estavam presentes, de forma objectiva alguns anos antes. Pode dizer-me que os PIIGS beneficiaram com a moeda forte do euro, prestigio do Bundesbank que foi transferido em parte para o BCE,etc beneficiaram na dívida não na sua produção.A dívida alimentou o superavit de alguns em detrimento do déficit na balança de pagamentos dos países do sul. Pergunto, porque o mercado não reagiu desde 1992? Porquê em 2010, depois de a política europeia de uma forma coordenada dizerem-nos para fazer políticas expansionistas? Acrescento, em Janeiro de 2010, Jurgen Stark afirmou que os mercados estavam enganados se julgavam que os outros estados-membros iriam resgatar a Grécia, Trichet fez declaraçoes semmelhantes, no final de Janeiro o Deutsche Bank avisou para o desastre do incumprimento da Grécia(são coincidencias??). Estas afirmaçoes subjectivas minaram toda a confiança e os juros da Grécia não pararam de subir. Insisto, o problema estrutural do déficit dos PIIGS já estava presente à alguns anos atrás. Pode dizer-me que é o problema da produtividade, ou da competitividade relativa, contudo, porque não actuaram em tempo, só em 2010 vereficaram que os PIIGS tem graves problemas estruturais? Isto não invalida a nossa falta de capacidade produtiva, contudo, pela forma como as dívidas dos PIIGS foram geridas parece-me acão de efeitos pretendidos. Aceito em parte a sua posição, que o problema da dívida portuguesa deve-se à estagnação economica ,baixa produtividade, à aposta errada no sector dos bens não transaccionadosetc,só que com o euro a nossa produtividade desceu drásticamente, politicas económicas erradas possivelmente, mas também manobrados por políticas que destruiram a nossa produçao. Os nossos principais credores continuaram a financiar-nos mesmo sabendo dos desequilibrios, ávidos pela usura, o mais grave é que estes são os responsáveis pela crise financeira, do dinheiro fácil, consumidores dos produtos estruturados. Não terão responsabilidade partilhada com os PIIGS? Já para não falar da forma como o poder da Europa tem gerido as dívidas.

  5. Pedro Pinheiro diz:

    Correção: Onde diz “até 1998” substituir por “até 2008”

Os comentários estão fechados.