Para além do caso Jerónimo Martins

Considerados todos os elementos disponíveis, continua a não haver razões éticas de peso para censurar a Jerónimo Martins (JM), ou o presidente do grupo, Alexandre Soares dos Santos pelas recentes mudanças no grupo. Pelo contrário, há é boas razões para não o fazer, sejam éticas, ou simplesmente de calma, que o povo é sereno.

Nada nos impede todavia de lamentar a sua decisão. Talvez tenha faltado reconhecer, entre os intervenientes na discussão do caso Jerónimo Martins, que os cidadãos mantêm sempre o direito de lamentar a decisão da JM, quer por expectativas mais exigentes, e fundadas, que pudéssemos ter acerca do que julgaríamos ser o comportamento da JM, quer por razões estritamente económicas. Mas, apenas com base no facto de lamentarmos essa decisão – é bom que se entenda – não estamos no direito de a censurar moralmente. Nem me custa admitir que a própria JM lamente a escolha que fez. Nas nossas vidas, as escolhas mais difíceis são as que lamentamos, mas que, ainda assim, escolhemos fazer. Muita da reacção pública à notícia da operação terá resultado, a meu ver, da confusão entre estes dois planos.

Insistiu-se muito nos ganhos fiscais que eventualmente a JM obteria, ou que o Estado português deixaria de obter, quando essa é apenas uma das dimensões a avaliar na operação. Curiosamente, tanto os críticos da operação da JM como a própria empresa no seu comunicado aos trabalhadores se deixaram prender por esse ponto, quando existiam pelo menos outras duas dimensões a ser consideradas nesta operação.

Em primeiro lugar, a maior facilidade, depois da operação, em a empresa conseguir financiar-se no mercado de crédito, salvaguardando assim a sua capacidade de investimento, seja fora da Europa, seja dentro da UE, seja em Portugal. É muito lamentável, mas nos dias que correm o selo “ser português” significa cobrança duvidosa, crédito muito caro ou mesmo inexistente para os grupos empresariais. Em segundo lugar, também a grande incerteza das políticas fiscais, muitas delas decididas de forma pouco cuidada, corrigidas, adaptadas, revogadas pouco tempo depois, e que traduz uma lamentável e justificada reputação de instabilidade do quadro fiscal em Portugal. Fica a sensação de que investir em Portugal vai sendo como passar cheques em branco a decisores políticos pouco seguros do que deverão fazer. Estes dois factos lamentáveis explicam no fundamental esse outro facto lamentável que foi a operação da JM. Tudo factos lamentáveis sem dúvida, mas nenhum deles, em si mesmo, eticamente reprovável.

Qual é a atitude mais correcta a adoptar quando nos deparamos com factos lamentáveis? Seguramente não é a censura moral, muito menos ainda a coerção (como seria o caso de um boicote), mas o empenho em criar condições para que aquilo que lamentamos acontecer deixe de acontecer. Esse sim é o registo certo da discussão e não tanto se o IRS de esta ou daquela pessoa é tributado aqui ou ali, ainda que seja relevante termos ficado com uma ideia do que estaria em causa nesse plano, graças a explicações de Pedro Santos Guerreiro.

E dentro do registo certo de discussão, há uma primeira coisa que pode e deve ser feita. O eurodeputado Rui Tavares disse-o muito bem numa importante intervenção no Parlamento Europeu – «metas orçamentais comuns sem harmonização fiscal põe os europeus uns contra os outros e poderá destruir o euro.» Isto é claro como 2+2 serem 4. Portanto, manda a mesma racionalidade aritmética: precisamos de lutar por uma harmonização fiscal no contexto da UE ou, ao menos, na Eurozona.

Não é menos verdade que isso não basta, mas dizer que não basta é dizer que tem de ser feito e que muito mais tem de ser feito. Não é assobiar para o lado, permitindo-se, como se tem permitido, uma erosão que acabará, a prazo, por não ser reversível. Esse deveria ser o primeiro ponto da agenda do países da periferia, os tais que deveriam estar a fazer cimeiras da coesão, e que por razões que deconheço preferem assistir passivamente, nos noticiários, ao desfile semana sim semana não do par bilateral Merkel/Sarkozy. Será que os juros da dívida têm propriedades sonoríferas?

Aprofundar a UE através de uma união fiscal, mesmo que morosa e progressiva, deve constituir um desígnio ao nível da defesa do interesse nacional. Ser europeísta é hoje, não haja nisso equívocos, a melhor forma de perseguir o interesse nacional, ou mesmo, para quem assim preferir, de ser patriota. Por isso, também era bom que estranhássemos mais as indignações contra a Holanda, como se esta fosse feita simplesmente de terra e gente estrangeira, fora do mesmo espaço europeu, da mesma moeda, dos mesmos parlamento e tribunal europeus, que são os nossos. E também era bom que se estranhasse mais a agressividade contra as suas escolhas de um sistema fiscal que tem sido, desde há muito tempo, o seu, bem como contra a personalidade que escolheu para a sua economia, uma das mais justas no quadro da UE. Sob este prisma, é bom que tenhamos consciência de que não temos lições a dar aos holandeses.

O desafio do europeísmo continua a ser, como sempre foi, fazer convergir a diversidade das suas nações, seja de Línguas, culturas, economias, até de fiscalidades, num todo justo.

Entretanto, ao nível dos poderes políticos nacionais, fala-se em tomar decisões políticas de maneira a inibir este tipo de operações, lamentavelmente consensuais entre as cotadas portuguesas. Só vejo duas maneiras de o conseguir, e se uma delas é boa a outra cedo se revelará problemática. A boa consistirá em trabalhar numa harmonização das condições em que se pratica a actividade económica dentro da União Europeia, prosseguindo a construção europeia, nem que para isso os países da coesão tenham de dar murros sobre a mesa; a outra consistiria em resolver o problema da competição entre os diferentes regimes fiscais da eurozona, impedindo, através de normas legais, a mobilidade das empresas entre os diversos estados membros da eurozona. Esta é uma solução má. Seria optar pela desistência da UE e seria optar por uma versão caduca do país, de portas que só se abrem de fora para dentro. Experimentá-la deixará o país exangue.

A disputa entre estas duas soluções será crítica nos próximos meses e será também uma disputa entre duas maneiras muito diferentes de pensar o que é a equidade. Voltaremos, por isso, ao tema.

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Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
Esta entrada foi publicada em Ética, Crise, Economia, Equidade, Europa. ligação permanente.

9 respostas a Para além do caso Jerónimo Martins

  1. Jorge Bravo diz:

    Só mais uma achega André Barata.

    Existe outro argumento de peso, a favor da Holanda, a rapidez do seu sistema judicial, veja-se que o tempo de uma demanda comercial na Justiça holandesa ronda mais ou menos os 6 Meses, comparativamente o de Portugal em que ronda 6 Anos, o que torna normalmente inútil a decisão.

    Ah! Mais uma coisa… estamos sem projecto para a nossa Terra!

    Com ou sem Euro, temos que ter um plano de desenvolvimento que num quadro de País ou de Região nos coloque num ciclo de desenvolvimento virtuoso longo, isso faz-se mais com ideias, trabalho, estudo, persistência de esforço colectivo e aproveitamento de recursos internos e com visão clara da nossa geoestratégia e a aplicação de uma boa geopolítica, do que com muitos recursos financeiros.

    Enquanto tal plano não existir, tudo andará em permutação esférica de inutilidade de esforços e impostos, em cifose profunda de tanto andar visando só os dois primeiros palmos do caminho a trilhar, em contínuas austeridades avulso para pagar o financiamento do ciclo de Pirro do desenvolvimento anterior e o eterno esbanjamento de recursos financeiros a crédito em faraónicas obras de ilusões de grandeza.

  2. André Barata diz:

    Ainda bem que refere a justiça caro Jorge Bravo, pois tinha pensado fazer-lhe menção e acabou por passar. Mas, tem toda a razão. Parece que a reforma dos códigos está a dar agora alguns resultados. Oxalá, seja num sentido positivo.

    • Jorge Bravo diz:

      O que vale é que o meu caro Adré Barata é uma pessoa de fé. Eu estou como S.Tomé.

      • André Barata diz:

        Não sou homem de grandes fés, mas nestes tempos parece que não resta mais nada. Ou brincanco com o seu São Tomé, talvez mais do que ver para crer, hoje seja importante crer para ver.
        Um abraço!

  3. joão diz:

    não percebo a indignação gerada pelo facto da família Soares dos Santos ter vendido a uma empresa de direito holandês- que lhe pertence- a sua participação no Pingo Doce e assim ficar com um regime fiscal mais favorável.
    O mesmo fez a CGD e é um Banco Público sem que o Governo nada tenha feito para evitar este escândalo.
    Não me admiro assim que o empresário o tenha feito, o que me admira é que o tenham levado a sério quando ele fez uma serie de criticas ao anterior governo mostrando preocupação pelas condições em que estavam a viver uma parte importante dos portugueses. Esta hipocrisia que teve eco em toda a imprensa foi apadrinhada por António Barreto, só estava à espera de uma oportunidade para ser desmascarada. Aqui está a verdadeira face do homem.
    Está preocupado com os custos fiscais das suas empresas e esta-se marimbando para os portugueses.
    Ele é bom a fazer o “planeamento fiscal” já o tinha demonstrado em 2010 quando antecipou o pagamento de 50% dos dividendos (26M€) para evitar o impacto das alterações fiscais previstas no Orçamento de Estado para 2011, em que os dividendos passaram a ser taxados em sede de IRC
    Eu já sabia das suas preocupações sociais, agora ficamos todos a saber.

    • Jorge Bravo diz:

      Não se tome a nuvem por Juno, Não se pode ser estóico eternamente, quando o próprio estado o não faz, veja-se CGD, mas tambem PT/ VIVO, Belmiro Azevedo e a OPA´da PT, Americo Amorim/ GALP alem disso é o estado que fez as leis que permitem o planeamento fiscal, que ele estado usa e abusa nas PPP que fomentou.

      Se o estado é tirano,mesmo que seja só fiscalmente e não faça nada com as PPP, não admira pois que quem possa se lhe resista, já S.Tomaz de Aquino dizia: Quando o estado é tirano temos obrigação de lhe resistir”.

  4. André Barata diz:

    Não sabia dessa da antecipação dos dividendos. Essa deixa-me bastantes reservas como referi na ocasião aqui: http://www.sedes.pt/blog/?p=2765.

  5. André Barata diz:

    Reproduzo uma interessante discussão, filosófica, que recolhi da minha página do facebook.

    Fernanda Bernardo – o problema económico é ORIGINARIAMENTE um problema ético – basta lembramos A. Sen!
    4/1 às 14:22 · Gosto
    André Barata – A distinção entre ética e moral não é considerada por alguns autores, mas é por outros autores. Na raiz, os dois termos significam o mesmo, ainda que num caso a partir do grego e no outro a partir do latim – ethos, donde por exemplo também vem a palavra etologia, e morus. Eu sou daqueles que considera útil fazer a distinção entre os dois termos, tal como o Pedro acaba de fazer, entre normas morais relativas ao comportamento em sociedade, variáveis no espaço e no tempo, mas essencialmente comunitárias, por um lado, e regras éticas que dependem sempre de algum tipo de fundamentação racional, por outro. Mas, como disse, nada obriga a subscrever esta perspectiva. E mesmo subscrevendo-a acontece os dois níveis não serem absolutamente estanques.
    4/1 às 14:27 · Gosto · 1
    Vitor Guerreiro – essa distinção parece-me fazer tanto sentido quanto a distinção entre “doxa” e “crença” ou opinião. Agora dávamos uma à Hegel e dizíamos que o termo de raiz grega tinha mais “élan”, ao passo que o termo de raiz latina era mais chãozinho. E afinal estamos a falar exactamente das mesmas coisas.
    “Ética” é o termo de raiz grega para referir o mesmo que o termo de raiz latina “moral”.
    Nem sequer percebo porque haveríamos de separar os princípios de comportamento e a discussão ou raciocínio moral.
    4/1 às 14:28 · Gosto · 1
    Vitor Guerreiro – acredito que haja muito quem acredite o contrário. nem é preciso ser autor e ter as palavras impressas num livro respeitável por ser respeitado. a única coisa que me preocupa é saber se a distinção faz mesmo sentido ou não, que razões podemos invocar a favor dela.
    4/1 às 14:30 · Gosto
    Vitor Guerreiro – talvez a ideia seja separar aqueles que são muito meditabundos, muito metafísicos, etc, e aqueles que, coitados, só sabem seguir códigos morais, essas reificações vis e chãs.
    uma forma muito mais económica de usar as palavras é simplesmente ver que há dois domínios distintos do valor: o estético (ou outro nome que se dê à mesma coisa) e o ético ou moral (ou outro nome para a mesma coisa).

    Já agora, partilho convosco uma experiência curiosa, a propósito de urologia:
    um gajo lê numa ecografia a palavra “litíase”. É assim que um doutor que se preze fala aos pacientes no consultório. Não vai dizer um plebeísmo como “pedra nos rins”. Mas o que mais me diverte é que “litíase” vem do grego “lithos” que significa…. “pedra”.

    E com tais coisas se faz dialéctica teutónica.
    4/1 às 14:34 · Gosto
    André Barata – Fernanda, eu sou um leitor convicto de Amartya Sen. Mesmo hoje estava de volta do seu extraordinário livro sobre a justiça, ainda a tentar reflectir sobre uma maneira de pensarmos a questão da equidade no contexto desta discussão actual. Eu poderia contrapor-lhe o pensamento de Hannah Arendt para quem a economia, originariamente ligada aos assuntos domésticos, da “casa” pois, respeitava à ordem da necessidade e não à da liberdade. Mas, mesmo que Hannah Arendt tivesse razão quanto ao significado original da economia (na ordem temporal), eu tenderia a concordar consigo de que originariamente a economia tem que ver com a ética. Em que sentido?
    4/1 às 14:36 · Gosto
    Vitor Guerreiro – talvez neste: as decisões económicas afectam seres relevantemente análogos a nós. logo têm importância moral, pela simples razão de que todas as acções que afectam seres relevantemente análogos a nós são moralmente relevantes…. porque é isso que é ser moralmente relevante: afectar seres que têm interesses, preferências, desejos, etc., para serem afectados.
    4/1 às 14:38 · Gosto · 1
    Vitor Guerreiro ‎… independentemente de quaisquer considerações etimológicas sobre o óikos e o resto.
    4/1 às 14:38 · Gosto
    Vitor Guerreiro – o problema dos economistas é o seguinte: andam tão fascinados a tentar mostrar que no fundo a sua disciplina é como a física, que se esqueceram que aquilo que investigam são, basicamente, pessoas. mas claro que há ainda economistas que se lembram disso, e, muito apropriadamente, discutem conceitos como o de justiça, não como uma actividade extra-curricular, mas como parte do seu ofício.
    4/1 às 14:41 · Gosto · 1
    André Barata – No sentido em que ambas, economia e ética, reflectem racionalmente sobre o comportamento de pessoas em contexto de interacção interpessoal. Há hoje em dia, aliás, modelos que aproximam regras éticas de conduta a regras de cooperação com vantagem para os intervenientes. Portanto, não discordo da sua afirmação.
    4/1 às 14:42 · Gosto
    Vitor Guerreiro – numa formulação ainda mais chã: as nossas decisões económicas, políticas, etc. podem ser ou morais ou imorais. é essa a ligação.
    4/1 às 14:43 · Gosto
    Vitor Guerreiro – o mesmo se passa com o valor estético: não são só as obras de arte que têm propriedades estéticas, se as há.
    4/1 às 14:44 · Gosto
    André Barata – Acho que o vítor e eu estamos a dar versões alternativas da mesma resposta.
    4/1 às 14:44 · Gosto
    Vitor Guerreiro – sim, creio… mas não estava a fazer ponto de honra em discordar, a não ser da tese de que moral e ética são coisas distintas. e também a salientar que o facto de a economia ser ou não moralmente relevante não decorre da etimologia ou do uso que Aristóteles faz do termo mas…. do facto de as decisões económicas serem o tipo de coisa que pode ter valor moral, positivo ou negativo.
    4/1 às 14:48 · Gosto
    Fernanda Bernardo – Lembremos Levinas: é o mundo que está na casa (oikos) e não a casaque está no mundo – o que quer dizer que é o mundo e tudo quanto é do mundo ou, segundo kant, tudo quanto se ergue acima do solo, o instituído (política, economia, direito (que não é a justiça) e etc.) que deve ser pensado a partir da casa, ela própria pensada como «hospitalidade por excelência» (o que decapita toda e qualquer pretensa soberania!) – um outro nome da responsabilidade incondicional e a condição de possibilidade quase transcendnetal de tudo – que devia, por exemplo, ter inspirado aos nossos «governantes» outras leis para que o gesto da JM não fosse «apenas» «imoral»… O que muito gravemente é…
    4/1 às 14:59 · Gosto
    Vitor Guerreiro – uma afirmação metafísica não se segue do facto de num dado autor, uma palavra ser mais assim ou mais assado. Num mundo sem Levinas, sem oikos, sem mistificação lexical da casa, do Ser e do Coiso, num mundo sem nada disso, continuaria a haver coisas moralmente relevantes, e a moral/ética é o raciocínio disciplinado acerca disso.
    não seríamos capazes de fazer códigos morais, por muito moralmente aberrantes que eles sejam, se não tivéssemos já a capacidade de raciocinar moralmente, antes de termos códigos morais estabelecidos. Há moral porque somos seres capazes de reconhecer, identificar, isolar, etc., razões para agir de um ou outro modo.
    4/1 às 15:04 · Gosto
    André Barata ‎- Fernanda Bernardo:Eu realmente concordo com o que diz, e a maneira como relaciona o mundo e a casa é uma bela maneira de evocar a ideia de inclusão, mas não concluo que haja imoralidade na decisão da JM. A hospitalidade que exija contrapartida não é genuína hospitalidade. Não foi a JM que fechou portas, todas as portas em seu redor é que, por instantes, pareceram querer fechar-se com estrondo. E eu tenho este terrível defeito de contrariar a maré…
    4/1 às 15:13 · Gosto
    Vitor Guerreiro ‎”é o mundo que está na espada e não a espada que está no mundo” – disse Afrânio de Alburrica, o Recôndito. E a partir daqui eu infiro a justeza de se declarar guerra santa a tudo o que me ofende e chateia… ou talvez infira precisamente o contrário, coisa que posso fazer porque dessa frase se segue realmente qualquer coisa.
    Tudo isto é lateral à questão de saber que relação há entre a moral e a economia, e já agora entre a a guerra e a moral. Imagine-se um militarão a insistir que a guerra é só sobre tácticas e nada tem a ver com moralidade. É quase quase o que por vezes ouvimos sobre economia e moral.
    4/1 às 15:18 · Gosto
    Pedro Pita Barros – Caro Vitor, sobre economía e moral, não resisto a relembrar o livro de vitor bento sobre o tema, editado pela fundação francisco manuel dos santos 🙂 ! Para além disso, a economia como ciência tem andado sempre entre o lado social e o lado da fisica (usando a sua expressão), mas mais relevante a meu ver é a distinção entre a análise económica positiva – estudar para compreender – e a análise económica normativa – que tem por vezes juízos normativos menos explicitados ou assumidos implicitamente. Nem toda a análise económica pretende resultar na determinação do que deve ser o comportamento. A utilização de modelos matemáticos, a tal aproximação à fisica, também cumpre um papel de disciplina mental e verificação lógica de argumentos. A sua aplicação literal poderá causar problemas, não a sua utilização conceptual.
    4/1 às 16:14 · Gosto
    Fernanda Bernardo – Tem razão Vitor Guerreiro – num mundo sem Levinas (e etc…, como refere) continuaria a haver a injunção à incondicionalidade meta-ética: acontece, porém, que foi ele que, nestes termos – que pessoalmente tenho pelos mais justos – ensinou que esta injunção é, enquanto tal, singularmente prévia ao «raciocínio disciplinado» e a quaisquer «códigos morais» que, enquanto tal, permite «bem» julgar. Esta «ética» não é nem conceptual nem normativa e desconstrói a caduca oposição teoria-prática, ela sim, mãe de todos os moralismos que, justamente, têm má reputação. Mas é ela que, a mim, pessoalmente, me mostra a criminosa injustiça das leis ao abrigo das quais a JM e etc. se «deslocou» para a Holanda.
    4/1 às 17:46 através de : · Gosto
    Fernanda Bernardo – Bom dia André – só agora encontrei a sua referência: passo pouco por Aqui e sempre de passagem.

    Devo, primeiro, referir que a minha perplexidade, tristeza e indignação com este «caso» brotou de uma certa simpatia que tinha por aquele que é o rosto da JM: e isto, porque há tempos, na tv, questionado por um economista sobre a actual inutilidade dos cursos de letras, o senhor soube contradizê-lo com admirável pertinência…

    Em segundo lugar, porque julgando embora compreender bem o alcance da referência que faz às «portas que se fecham», eu continuo a considerar a decisão «imoral» [mas de que moral se fala, quando se fala de moral?] e «injusta», mesmo se legal – ousei mesmo predicar estas leis de «criminosas»: e isto, pelo que significam de protecção à usura e de indiferença para com as pessoas, para com a dignidade das pessoas. Não darei ex, Leis que não são obviamente apenas nacionais (como aliás se comprova) – mas as inerentes à UE e à dita «mundialização» que temos, hoje, «governadas» por quem bem sabemos…

    Daí a minha referência a Levinas , não só pela radicalidade e justeza da sua «ética», exigentemente «humanista», mas também pelo seu repensar da «casa» (oikos) – para além, obviamente, da domesticidade, da propriedade, da localidade e, portanto, da soberania – em termos de hospitalidade incondicional – outro nome, não da inclusão, pelo contrário, mas da responsabilidade incondicional: uma hospitalidade incondicional que se DEVERIA SER e que se traduz num dever absoluto para com a singularidade ou a diferença, e a condição para repensar «o mundo» ou o «instituído» – ou seja, a sociedade, a economia, a política, a democracia, o direito… e etc. Esta «ética da hospitalidade» pensada a partir da «casa», assim repensada, é, em Levinas (como em Derrida), pré-política e pré-jurídica – pré-filosófica mesmo!

    Quanto à liberdade JUSTIFICADA em e como responsabilidade incondicional, em sede levinasiana é pensada, justamente, a partir da sujeição à desigualdade originária da (de cada vez singular sujeição) diferença – da pessoa, do evento ou da situação. Esta responsabilidade, prévia à liberdade como poder, é a condição da própria liberdade (por isso justificada, justamente).
    O mesmo quanto à questão da igualdade: Levinas pensa-a a partir da desigualdade originária, tradutora da sujeição meta-ética à prioridade outorgada à alteridade ab-soluta: é a questão do «terceiro» que a traz – «terceiro» que aparece imediatamente no rosto da diferença contraditando e hiperbolizando esta «ética» que, por isso, não é, nem moral, nem moralista.

    É a uma outra «nova ordem mundial» (que, apesar da boa intenção, nem sequer é a de Obama (Cimeira de Londres do g20) ou a de Stiglitz) e a um outro «contrato social» que este pensamento apela – uma tarefa para a «sociedade civil» e a «cidadania» por virem.

    Por isso, bem consciente de escandalizar, repito: leis que, guiadas por uma representação do «geral» como acumulação e crescimento da «equivalência geral», cujo nome é o dinheiro, contribuam para lançar na pobreza, na miséria, no desemprego, na emigração, no subdesenvolvimento as PESSOAS, são lesi «criminosas» a precisarem de urgente correcção. E, para dizer isto, nem sequer é preciso ler Levinas – bastava tão somente lembrar o melhor da memória europeia.

    Para concluir – o gesto da JM diz bem a tragédia que é a nossa…
    As minhas desculpas pelo excesso de filosofia…
    Quinta-feira às 10:55 através de : · Gosto · 1
    André Barata – Bom dia Fernanda, Muito obrigado pelo seu comentário e desculpe-me só reagir agora. Estou na fase da semana de muitas aulas. Não se importa que leve este seu último comentário para a caixa de comentários do blogue? Gostaria de o conservar lá.
    Sexta-feira às 21:04 · Gosto
    Vitor Guerreiro – nem conceptual nem normativa… ok, então pensar moralmente acerca de algo é nem sequer ter pensamentos, uma vez que nao podemos ter conceitos nem representações. uma crença moral será uma crença acerca de coisa nenhuma. E como não podemos ter normatividade, os pensamentos morais tão-pouco são acerca do que é melhor ou pior fazer-se.
    Permutamos então o “raciocínio disciplinado” (coisa careta e caduca e que não dá pica) pelo discurso inspirador e edificante. Como a coisa não é conceptual, também não se discute, é uma questão de aprender o que o guru das palavras fascinantes tem para nos ensinar. Afinal, se o guru superou o pseudoproblema da separação entre teoria e prática, é porque tem razão, tem singularmente razão (não é porque signifique aqui algo, mas porque temos de ser “pelo singular”, etc.), em tudo o que alguma vez disse.
    Sexta-feira às 21:44 · Gosto
    Vitor Guerreiro – esperem, algo aqui não funciona… os que teorizam a aconceptualidade para a ensinar aos discípulos têm de usar representações e conceitos, inclusive a representação de que a moral não é conceptual. e os discipulos, para aprenderem alguma coisa, por muito passivamente, têm de usar conceitos e ter representações.
    Sexta-feira às 21:53 · Gosto
    Fernanda Bernardo – André, deixo-lhe a decisão…
    E informo-o também de que durante a próxima quinzena não passarei por «aqui».
    Ontem às 19:17 através de : · Gosto
    Fernanda Bernardo – Victor,
    Conviria talvez não esquecer porque é que Sen e Levinas foram convocados para esta discussão (oiko-nomos)…

    Acerca do que diz, permito-me perguntar: acaso já viu um «conceito» na natureza? Acaso já viu o dito «conceito de diferença» ou de «alteridade», por exemplo, na natureza?
    O que é que o «conceito» [Heidegger diz as garras do conceito!] faria à «diferença»? ou à «alteridade»?
    Pois bem, Levinas vem APENAS lembrar isto: o limite da conceptualidade, tal como o limite da racionalidade.
    É isto enredar-se em contradições lógicas? pragmáticas ou performativas? é isto ser irracional???? À luz de que conceito de «racionalidade»? só se for da herdeira do zoon logon ekhon… cuja marca é, aliás, bem evidente no assunto que começou por discutir-se aqui
    Ontem às 19:33 através de : · Gosto
    Vitor Guerreiro – Se já vi um conceito na natureza… já: nas cabeças dos seres humanos. Bom, ver não vi, porque conceitos não são coisa que se veja. Mas aquilo que vemos na natureza deve ter especial relevância para o que pensamos moralmente? A natureza comporta todo o tipo de acções e comportamentos, dos mais inteligentes aos mais estúpidos. Nada disso nos ajuda a descobrir o que é melhor fazer ou não, porque não podemos saber de antemão, sem raciocinar, que comportamentos são mais ou menos sensatos, mais ou menos estúpidos.
    Ontem às 19:39 · Gosto
    Vitor Guerreiro – talvez Levinas, tal como Afrânio de Alburrica, o grande pensador inexistente (mas ainda assim carismático e sombrio), tenham declarado que tal e tal é o limite da conceptualidade, da racionalidade, e de mais coisas em grego que significam o mesmo que certas palavras em português, tal como “litíase” significa “pedra nos rins” embora não seja apropriado um médico falar nesses termos, tal como não é apropriado que diga “não sei o que causa isso”, dizendo antes “isso é de etiologia idiopática”.
    O problema é que eu não tenho outro modo de ver se Levinas e Afrânio de Alburrica tinham ou não razão a não ser raciocinando.
    Por exemplo, não percebo como pode “o conceito” ser um perigo para “a diferença”, ou como poderia haver práticas que não fossem estruturadas por reprsentações, de tal modo que a separação entre teoria e prática é um pseudoproblema. A diferença relevante é entre práticas estruturadas por representações inadequadas e práticas estruturadas por representações adequadas.
    Ontem às 19:47 · Gosto

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