Equidades… Vai uns tremoços?

Já sabíamos que o tremoço era o marisco dos pobres. Hoje ficámos a saber que há também uma versão para pobres da “imoralidade” da acumulação de pensões. O senhor ministro da tutela, Pedro Mota Soares (aquele jovial da vespa convertida em Audi 7 de 3 litros, por feliz herança do anterior governo) diz, em declarações prestadas aqui, que «Estamos a falar de pessoas que recebem para lá da sua pensão um complemento.» Ah, nesse caso, evidentemente! Que outra coisa se poderia esperar se é dessas pessoas que estamos a falar? E explica, para que tudo fique claro:«Sucede que quando têm uma outra pensão e o valor desta pensão ultrapassa o valor do complemento, o valor do complemento deve ser reduzido». Naturalmente! Se ultrapassa, e se há complementos, que queriam?, é muita fruta em tempos de crise e de sacrifícios. Tem de se reduzir. É a austeridade que manda… Ficamos assim, persuadidos e descansados. E, por sorte, até são quase 15 mil! A bem ver, é um excelente resultado atendendo à realidade portuguesa. O Ministro da “Solidariedade” tem obrigação de o saber e dá provas disso: «Sabemos a realidade do valor das pensões em Portugal e foi por isso que mesmo num tempo de austeridade era preciso dar um pouco mais a quem nada tem.» Deve ser a tal equidade de que tanto se tem falado. Compreendo. Eu também sou pela equidade. E, novamente, é tudo herança do anterior governo, que bom, daqui lavo as minhas mãos… just in case: «o Governo está a aplicar uma lei que já vem desde 2007.»  Afinal, é mesmo para isso que elegemos governos, aplicar a lei. Cristalino e implacável!

As pensões acumuladas em causa descem dos 300 para os 240 ou dos 240 para os 190 euros mensais, mais coisa menos coisa… No jornal, vem o exemplo de uma que dá um trambolhão de uns imensos 303 euros para uns redondos 188. E é já neste mês de Janeiro que a vida fica feita num oito. É como quando se despede: o melhor é fazê-lo rápido para não complicar.

Estou chocado. Existe uma antiga ideia de equidade, que vinha do grande Aristóteles. Sabiamente, dizia ele que a lei deve adaptar-se ao caso concreto como uma régua maleável, feita de chumbo, se adapta à forma da pedra.  Com isto, queria dizer que a equidade é a sensibilidade da justiça. Eu apenas quero dizer que esta brutalidade sem aviso prévio é a iniquidade de qualquer sociedade justa.

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Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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5 respostas a Equidades… Vai uns tremoços?

  1. Jorge Bravo diz:

    André Barata mais uma vez excelente!.

    Só me atrevia a acrescentar depois de:

    «Sabemos a realidade do valor das pensões em Portugal e foi por isso que mesmo num tempo de austeridade era preciso dar um pouco mais a quem nada tem.»… «O Governo está a aplicar uma lei que já vem desde 2007.»

    O resultado das muitas pensões de 300 euros reduzidas para 188 era o que faltava até agora a cabal demonstração da estrondosa iniquidade governativa, da mais cínica e farisaica hipocrisia e da total ausência de senso político e capacidade do estado, até para governar seja quem for.

    Ando cada vez com mais saudades do saudoso Enani Lopes, porque será?

  2. Pedro Cruz Carrilho diz:

    Vivemos, cada vez mais, num estado de espírito inebriante em que a realidade factual é muitas vezes ultarpasasada e preterida pelas verdades que são construídas e que nos são oferecidas como se defacto assim o fossem…vivemos projectando nos outros aquelas carências às quais sabemos de antemão, por uma razão ou outra, ser vulneráveis, e deixamos que os outros transportem e projectem o que devia ser inerente a nós próprios, e, quando estes nos desiludem, tendemos a querer cobrar-lhes uma circunstância que eles não pediram…esta situação aplica-se, pela sua tranversalidade, a todo o espelho societário, das empresas à política, do mundo dos negócios ao do trabalho, tendo o seu culminar no seio de nós próprios, nas famílias, nas pessoas de quem mais amamos e que jurámos para sempre repeitar e …amar…mas o que temos é muito do faz o que eu digo e não o que eu faço, mantem-se públicas convicções, sempre muito genericamente politicamente corretas, criam-se (falsas) expectativas, leva-se ao limite o desvirtuar da realidade nua e crua, sendo esta substítuida, pelos mais experientes, pela omissão reconrente, como se estas lhes aliviasse a consciência que já não têm, pelos demais pela mentira cosntante, sendo que uma é irmã da outra, embora a omissão seja talvez o pecado maior na sua forma origunal, é corrosiva, manuipuladora e destrói tudo em que se acredita, leva-nos ao limite de pensarmos se as emoções não são um jogo de sedução para nos iludir das suas verdadeiras intenções…mas é importante termos sempre presente que, por muito que estas pessoas e estas práticas sejam cada vez mais generalizadas, enquanto sentirmos dentro de nós uma aceleração cardíaca, um arrepio que nos percorra de alto a baixo, então é porque ainda acreditamos no mais profundo dos nossos sentimentos e não há omissão ou mentira que nos criem que destrua isso!

  3. Alvaro Gomes Martins diz:

    Caro André Barata,
    O meu amigo não é patriota! Não é mesmo nada patriota! Entao tem a ousadia de achar iniquas estas medidas que apelam ao esforço de todos? O meu amigo tem “espírito de facção” e não tem “atitude nacional” ! Não vê que o nosso dever é remarmos todos para o mesmo lado e sermos coesos? Acha mesmo que o que escreveu é de um cidadão zeloso da pátria? Não vê que há o risco de Portugal não ficar no euro? Se os accionistas das nossas empresas têm que abandonar a Pátria e ir para a Holanda porque há risco de Portugal não ficar no euro, porque razão não hão-de alguns pensionistas abdicar de umas dezenas de euros em coerência com idêntica causa?
    Todos temos a nossa cruz, caro André Barata, e a cruz deste rapaz que gostava de andar de vespa é ser Ministro, e cumprir zelosamente, naquilo que convém ao designio pátrio, os raros gestos de patriotismo que ainda couberam ao Governo anterior. E essa lei de 2007 – com esse rasgo inaudito de ter razão antes do tempo – só poder ser um deles.

    – Se isto não fosse trágico era quase uma opereta!

    A bem da nação!
    Alv

  4. André Barata diz:

    Caro Álvaro, o meu amigo é um virtuoso! E, além do mais, descobriu-me a careca. Ainda me vai ver a plantar tulipas nas holandas que andam nas bocas do mundo luso. Obrigado pelo excelente, divertido comentário.

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