Havia necessidade?…

A entrevista de Alexandre Soares dos Santos (ASS) ao Expresso é elucidativa? Talvez demais.

Para justificar a mudança do accionista maioritario do Grupo para a Holanda, ASS, para além das razões já conhecidas (planeamento fiscal, acesso ao crédito, garantias sistémicas), diz-nos ainda, com clareza, que mudou porque não sabe se Portugal fica no euro (chamada de capa do Expresso).

Este argumento é novidade. Usado por ASS e pela JM, porque além de ASS há também muita gente que tem essa dúvida. É uma dúvida importante.

Diz-nos ASS que acredita no Governo e pede-nos, neste momento difícil, para acreditarmos no Governo e para todos o apoiarmos.  Faz-nos mesmo ver que não entende, nesta ocasião, porque é que não há acordo na concertação social e que “nada se lucra”em “apoiar greves para fomentar ainda mais o despedimento”. E que a nossa credibilidade é muito importante, pois “temos de mostrar ao credor que somos cidadãos de boa fé e que estamos a cumprir o que foi acordado”.

Mas ao mesmo tempo diz: “Nós temos três tipos de dívidas: a dos consumidores, a das empresas e a dívida pública. Foi resolvido tratar as três ao mesmo tempo e isto é um tratamento de choque que pode matar um doente. Falta saber quais foram as condições e como é que se discutiu. Não compreendo porque temos de pagar a dívida em três anos e não em quatro.”

Tal qual as dúvidas que assaltam muitos dos que criticam a acção do Governo (e a troika).

E como remédio para não “matar o doente” pergunta: “… porque é que não se tira a dívida pública da banca através da criação de um novo banco?” Que é exactamente outra dúvida que alguns outros  também têm quanto à opção seguida pelo do Governo…

Mas ASS não. Ele acredita no Governo e quer também que todos acreditemos.Mudou para Holanda porque Portugal pode não ficar no euro. Mas acredita no Governo. Acha que o doente pode morrer da cura que lhe estão a ministrar, mas acredita no Governo. Como remédio para não matar o doente propõe exactamente um dos que o Governo rejeitou. Mas ASS tem grande esperança no Governo. E quer que nós também tenhamos.

No entanto, à questão de sabermos se acha que as coisas vão melhorar apesar do muito que ainda há para sofrer, ASS… nada diz. Afirma apenas que a única coisa que quer “é que o governo tenha coragem para resistir aos ataques.”

Bom, mas de quem?

Julgava eu que o planeamento fiscal e o acesso ao crédito e as garantias oferecidas pelo sistema holandês eram razões bastantes para fundamentar aquela decisão de gestão do Grupo. E estava tudo dito sobre o tema. Mas não. ASS teve necessidade de nos mostrar também a sua pouca convicção na política que tem vindo a ser seguida e o seu efectivo receio de que Portugal possa não ficar no euro.

 – Mas vindo dele, apetece perguntar: – Para quê? Havia necessidade? Logo agora? Espero que os mercados estejam distraídos ou que não se deixem impressionar com estas provas de confiança.

Quanto ao Governo, mais vale de facto ficar calado, que a conta da  “mercearia”  tem sido alta ultimamente…

 

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4 respostas a Havia necessidade?…

  1. Jorge Bravo diz:

    Mais fundo que se julgáva

  2. Bons olhos te leiam, Daniel! Beijinhos.

  3. André Barata diz:

    Caro Daniel,
    Depois de lida a entrevista, e lido o teu post, fico com a percepção de que as declarações de Alexandre Soares dos Santos não seguem um padrão de tacto político, focando diversos aspetos relevantes mas de uma maneira muito menos prevenida do que a que emprega quando fala dos assuntos específicos do Grupo JM. Não acho muito surpreendente que assim seja. E não percebo por que razão os media se surpreendem com esta relativa inabilidade política de ASS. Mas já que os media fazem questão de ouvir e fazer ressoar cada opinião que ASS emite sobre a situação política, acabamos por ter de classificar as suas opiniões de alguma forma. Nesse sentido, entre a acusação ética, que não subscrevo de todo, e a simples lamentação, que me parece óbvia, a introdução da subtil nota de um “havia necessidade?” parece-me muito precisa. É que entre inevitabilidades que lamentamos (supunhamos que as que a racionalidade económica tem determinado são desta natureza) e opiniões e outros considerandos evitáveis num quadro de hipersensibilidade social é claro que o lamento só pode crescer. Perfeitamente pertinente, portanto, a pergunta “Não havia necessidade?”, ainda que, ou sobretudo porque, circunscrita às opiniões e não às decisões relativas ao grupo. A respeito destas, eu já não faria a pergunta da mesma maneira. Mas estou convencido de que é precisamente a respeito dessas decisões relativas ao grupo JM que grande parte das críticas cavalgou a relativa inabilidade política de ASS.

    Votos de muitos posts em 2012!
    Um abraço.

  4. Daniel Ribeiro diz:

    Obrigado Cristina pelo cumprimento, beijinhos.
    E também obrigado Jorge e obrigado André – de facto estas opiniões de ASS reforçaram em mim a ideia de que aquela mudança também se deveu à sua pouca convicção de ‘isto’ vá dar certo. Um abraço,
    Daniel.

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