Distrações e surpresas

Com o caso dos “nomes” para a EDP, tem feito por se tornar saliente a perspetiva de que a opinião pública anda distraída dos assuntos realmente importantes.

Até certo ponto é verdade, pois, em discussões desta natureza, transbordantes em impacto mediático, é o impacto económico directo que não dá para encher meio copo de nada. Mas desengane-se quem pense que, por isso, é de se conceder que o debate político anda fora dos eixos.

Por que razão haveríamos de não escrutinar a governação do país à luz dos compromissos eleitorais centrais que conduziram à eleição do actual Governo? Porque não é assunto que se prenda directamente com a embrulhada económico-financeira do país? Estranho… Então, mas não foi precisamente o programa eleitoral por que se fez eleger este Governo a defender estarem as duas questões imbricadas na justa quota-parte das responsabilidades que cabe ao poder político em Portugal? Estamos até recordados de que houve parlamentares da Maioria a sugerir a criminalização da governação anterior. E o certo, à parte exageros aqui ou ali, é que o compromisso de acabar com a promiscuidade entre as duas esferas, da política e dos negócios, era tido por pulso vital da inspiração deste governo. Nem sombra dela jamais, de acordo com as declarações mais sonantes, reapareceria doravante nas nomeações para cargos públicos, muito menos para cargos em empresas privadas.

Agora, o que não faltam é sombras. Sucedem-se as notícias surpreendentes. Relativamente à EDP, a entrevista de Eduardo Catroga ao semanário Expresso, se lida com atenção, esclarece muito. O entrevistado manifesta incomodidade, seja ao procurar “lógicas” para os convites, seja ao não a encontrar no caso de Celeste Cardona. Naturalmente, a lógica mais provável é aquela que sabemos. E mal aplicada no caso, deixou o próprio exposto. Naturalmente, estas coisas aborrecem e acaba dizend0-o da forma possível– “Não faço comentários. Não sei como o nome aparece. Nos outros nomes encontrei a lógica da ligação a Macau, nesse não sei se tem”. Como se os convites se resumissem a uma questão de ter, ou não ter, lógica.

Se ainda restassem dúvidas, é o próprio Eduardo Catroga a dizer-se surpreendido com Luís Amado não estar na lista. É digno de nota que quem mais confortavelmente poderia ter aceitado a posição, a tenha recusado e assim tornado a “lógica” menos embaciada. Mas há aborrecimentos com que podemos melhor do que com outros, sobretudo quando bem remunerados.

Correia de Campos escreve hoje no jornal Público:

«A partir do momento da sua nomeação, eles devem obediência à companhia das Três Gargantas. São seus assalariados. Conhecendo alguns deles, surpreende-me que tenham aceitado. Provavelmente estavam distraídos.»
(Correia de Campos, Público de hoje)

Só mesmo uma “distracção” muito peculiar levaria um ex-governante com o peso político de Eduardo Catroga a aceitar presidir um conselho de uma grande empresa recém-privatizada antes de estar completamente seguro de quem seriam as pessoas que integrariam o órgão e de todas as implicações políticas que daí poderiam seguir-se. Se não é assim, que me seja desculpado o tom, mas vou ali e já venho.

E por mero exercício de sentido de responsabilidade, com o propósito exclusivo de avaliar essas implicações políticas da aceitação dos convites, Passos Coelho não teria merecido a consideração de ter sido consultado por quem foi convidado? Toda a experiência política de Eduardo Catroga lhe teria permitido deduzir que o Governo não teria como falar do assunto sem, com isso, levantar a grave suspeita de interferência. Portanto, dizer, como diz na entrevista ao semanário Expresso, «Posso garantir-lhe que o Governo não falou com ninguém. Ninguém falou comigo deste Governo» é dizer o óbvio, mas não é dizer o necessário.

Quem pior fica nisto é o governo e todos nós que acontece sermos governados.

Hoje, metade da primeira página do jornal Público, comparava números de nomeações entre os últimos governos da nação e chamava a atenção para o facto de o actual governo já ter nomeado mais (apesar de ter menos governantes) do que o primeiro governo do Eng. Sócrates. Vale o que vale. Com certeza, cada uma destas nomeações estará perfeitamente justificada. Mas, convém a opinião pública estar atenta. Em editorial, o mesmo jornal escreve e bem «quem argumento contra o clientelismo não pode alimentá-lo ou sequer dar a mais pálida ideia de que o alimenta».

Onde estão os ventos de mudança que tanto pregaste Passos Coelho?

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Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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Uma resposta a Distrações e surpresas

  1. André Barata diz:

    Comentário recebido via Facebook:

    Fernando Penim Redondo: O que é grave não é concluir-se que “a opinião pública anda distraída”, o que é grave é poder alguém concluir que a oposição se agarra insistentemente ao Catroga por não saber como tratar “dos assuntos realmente importantes”.

    André Barata: Fernando, são muitas ideias numa frase só. Em primeiro lugar, isto tem muito pouco que ver com a oposição, e sim com a necessidade de esclarecimento sobre a escolha de um conjunto de pessoas com certas características para um órgão da EDP, escolha que levanta questões políticas diversas, por exemplo sobre a real capacitação do governo para cumprir seus compromissos eleitorais centrais. Estas questões não são monopólio da oposição e têm tido expressão na opinião pública de maneira bastante ampla. Em segundo lugar, não vejo como se possa concluir que a oposição se agarra ao tema Catroga por não saber tratar dos assuntos importantes. Não há relação entre as duas coisas. Não tenho de fazer o papel de advogado da oposição, mas não penso que não tenha ideias sobre os assuntos realmente importantes. Tem ideias, porventura diferentes, pelo menos em parte, das defendidas pelo Governo. E é tudo.

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