…com os pés bem assentes na terra (2)

O Daniel a propósito de um outro texto comenta a importância de perceber bem o que são os soundbytes da resolução de conselho de ministros nº 56/2011, e da relevância de o ganho de competitividade não ser sinónimo de salários mais baixos. Não discordando destas duas posições, há alguns aspectos adicionais a ter em conta.

Primeiro, o objectivo de maior valor dado aos produtos nacionais não é algo que um Governo, qualquer Governo, consiga fazer automaticamente. Além do mais, interessa sobretudo que sejam os consumidores externos a dar maior valor aos produtos portugueses – para que estejam dispostos a dar mais dos seus produtos em troca. E andam todos os países à procura desta competitividade. Daí que seja crucial recuperar ideias antigas de especialização produtiva e de trocas internacionais como sendo de interesse mútuo. Descobrir onde nos devemos especializar em termos de produção é algo que dificilmente determinável pelos Governos. O seu papel tem de ser o de dar as melhores oportunidades para que essa especialização possa ter lugar. A especialização ocorre entre sectores, mas também pode surgir dentro de sectores, com diferenciações únicas dos produtos. Uma vez mais, a forma de o fazer não é por boas intenções de um qualquer Governo. São as empresas que têm de tentar (e falhar, se for caso disso, voltando a tentar até conseguir). Na verdade, não são exactamente as empresas, são os trabalhadores das empresas que poderão aproveitar a sua experiência e conhecimento para iniciar novas empresas, lançando novos produtos e / ou serviços.

Tomar esses caminhos do lançamento de novos produtos não é fácil, mas também é demasiado fácil descartar todas as ideias que surjam com o argumento de que são irrealistas. Há, em geral, pouca sistematização na abordagem ao que podem ser oportunidades. É um dos aspectos de mudança.

Para além desse caminho de inovação, as empresas actuais também terão que evoluir, e no imediato, a forma mais rápida de melhorarem a sua capacidade de exportar, de conseguir convencer outros países a trocar produtos, é melhorarem a qualidade do que produzem, ou baixar o respectivo custo. Reduzir o custo pode ser obtido produzindo mais com os mesmos recursos – aumento da produtividade, ou por redução dos valores pagos pelas matérias primas e pelo trabalho usado, os tais baixos salários. O problema é que se não se aumenta a qualidade, se não se aumenta a produtividade, para a empresa sobreviver as opções serão rapidamente fechar ou baixar salários.

Qualquer um destes caminhos poderá gerar mais ou menos importações de produtos intermédios, o que não é um problema desde que de facto se exporte mais. Existe aliás em geral uma associação positiva entre exportações e importações – países que exportam mais também tendem a importar mais. O alerta do Daniel é importante a este respeito, e na verdade devemos focar sobretudo em aumentar as exportações.

Mais há a dizer para se ir definindo onde ir colocando os pés, mantendo-os assentes na terra; ficarão para próximas discussões outros aspectos e argumentos.

 

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Sobre Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa
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