«Made in Portugal» – Ainda sobre os pastéis de nata e a campanha «Portugal sou eu»

Para usar de toda a franqueza, não entendi que lógica ocorreu ao ministro Álvaro Santos Pereira ao dar como exemplo de produto nacional a ser valorizado lá fora os pastéis de nata. O contexto era mesmo a internacionalização da economia nacional?  Pela natureza da coisa em si mesma, pastéis de nata não são exportáveis… as natas estragam-se depressa demais para lhe pormos prazos de validade. A haver algo que possa ser “exportado” é a ideia do pastel de nata, ou a sua receita, mas, evidentemente, produzido e comercializado onde quer que se leve a ideia. Não duvido que possa ter muito sucesso, como por exemplo algures em Paris, onde é vendido “comme à Lisbonne”, mas não vislumbro como é que isso pudesse criar emprego e trazer crescimento económico em Portugal. A não ser que, em vez de termos os olhos postos nisso, estejamos uma vez mais a pensar em boas receitas para uma emigração de sucesso… E mesmo isso não sei. Os brasileiros não nos pagam direitos pelos seus deliciosos bolinhos de bacalhau. O meu amigo Senhor Pereira, patrício em terras cariocas desde há 40 anos, para os lados do Baixo Gávea, faz umas batatas às rodelas a que chama batatas à portuguesa e nem lhe falta o churrasco de frango, que por lá leva o nome de galeto. É como as coisas são.

Enfim, ou não entendi ou o exemplo foi infeliz. Deixo a dúvida. Apesar de tudo, é verdade que é preciso haver uma forte aposta na promoção do “made in Portugal”. Pelo que disse, não seria o caso dos pastéis de natas. Seria o caso dos chocolates belgas, se fossem,  portugueses, ou de trufas de Alba, se “tuberassem” por cá. Temos o vinho português que é um caso que tem corrido bem nos últimos anos, porque contrariamos um quadro em que os países europeus perdem quota nas exportações para países produtores como Argentina, Chile, África do Sul, Austrália.

Como lembraram o Daniel e  o Pedro, o Conselho de ministro aprovou uma resolução que lança a iniciativa «Portugal sou eu». A iniciativa é descrita no Diário da República através de quatro “princípios orientadores” que, fazendo bom uso de verbos de acção, nos dizem: apoiar, fomentar, estimular e dinamizar a produção em Portugal de bens nacionais com acrescida incorporação de valor. E dizem bem, pois as declarações de intenções também são necessárias. A parte difícil está em dizer como concretizá-las.

A resolução indica 5 áreas de concretização. As duas primeiras consistem no enunciado de mais uma campanha pelos produtos nacionais, junto aos consumidores e junto aos produtores. As quarta e quinta intervenções são operacionais, seja criando “plataformas de encontro entre a oferta e a procura”, seja produzindo legislação a propósito. Fica a faltar uma, que é a única medida realmente concreta:

«c) Revisão dos critérios comummente aplicados às compras públicas, eliminando barreiras ao acesso das PME àqueles procedimentos e criando condições favoráveis para o crescimento e a competitividade sustentáveis destas empresas, no âmbito dos princípios do Small Business Act, na medida em que tais políticas sejam compatíveis com o direito da concorrência nacional e da União Europeia.»

Concordo e não poderia ser de outro modo. Se quiser mudar o comportamento dos consumidores, o melhor que o Estado pode fazer é dar o exemplo quando consome.

A iniciativa deixa-me, contudo, algumas inquietações. É um importante objectivo tornar o ambiente económico português mais amigável da produção nacional, mas por razões económicas e não por alguma patriotice para consumo interno. Logo o título da iniciativa «Portugal sou eu» soa-me mal. Mas quem é que haveria de ser Portugal? Sou eu, sim, e os meus avós, e vocês e os vossos filhos… E daí? Esta auto-referência de Portugal aos portugueses, ou seja, a cada um de nós tem pouco sentido. Não tenho dúvidas sobre a minha nacionalidade, pelo que considero inteiramente escusado que ma recordem quando vou ao super-mercado. Não penso que o Governo de uma nação com a idade da nossa se deva prestar a passar a mensagem, subentendida nesta resolução, de uma ferida identitária nacional.

Além disso, estas tautologias simbólicas acabam por cair mal a quem pátria e mátria calam mais fundo. Não as devemos emprestar a exercícios de marketing. Recomendo, pois, vivamente que escolham outro nome para a iniciativa.

Ainda assim, a aposta na produção nacional é essencial. Mas, a ser uma preocupação do Ministro da Economia, deverá sê-lo sob critérios claros que, para seu infortúnio, o exemplo do pastéis de nata não satisfaz. Importaria que o ministro levasse ao Conselho de Ministros uma iniciativa que avaliasse claramente quais são as áreas de produção de bens transaccionáveis em que somos bons ou únicos e que disponham de elevado potencial exportador. Há empresas de consultadoria que podem fazer esse estudo rapidamente.  Em seguida, seria necessário desenhar planos estratégicos para cada sector de actividade nacional.  Indústria mineira, energias renováveis, a exploração do mar, as possibilidade de aproveitamento do clima ameno para aplicações além das habituais do turismo, etc. Em terceiro lugar, importaria promover uma agenda de promoção através da selecção de produtos, levando-os a competições internacionais, como sucede com o vinho, ou a feiras comerciais internacionais, firmando uma imagem de qualidade a que, depois, se aponha o selo «made in Portugal».

O caminho ao contrário é pôr o carro à frente dos bois. A marca Portugal só é incondicionalmente boa, antes de experimentada portanto, para os “eus” de que é feito o país. E mesmo assim… sabendo da corrosiva desconfiança que por cá se pratica… Mas fora do país, o valor da marca Portugal só pode ser resultado da capacidade de surpreendermos pela qualidade do que exportamos, a ponto de alguém se dar ao trabalho de olhar para as letrinhas da embalagem e ler «made in Portugal». Aí sim, até eu ofereço um pastel de nata ao senhor ministro.

Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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Uma resposta a «Made in Portugal» – Ainda sobre os pastéis de nata e a campanha «Portugal sou eu»

  1. Telmo Vaz Pereira diz:

    Pela primeira vez leio um lúcido artigo nada pastelado sobre os pasteis de nata. Parabéns ao autor.

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