frase infelizes, continua a saga

Na sequência de declarações infelizes, esta semana juntou-se o presidente da república, e uma vez mais a vontade de encontrar a pior interpretação surgiu.

Deveria o presidente da república ter referido o valor que recebe como pensionista? certamente que não.

Porque o fez? não notei que tenha sido em tom de queixa de que deveria receber mais ou ficar imune às reduções que têm sido aplicadas. Pareceu ir mais no sentido de dizer que também partilhava dos sacrifícios de todos. Mas claramente, para o nível de reforma que tem, deveria ter facilmente antecipado uma reacção como a observada. A de que se estava a queixar, e que há muita gente em pior situação.

Porque houve esta reacção? essencialmente, por motivos explorados em posts e comentários anteriores: vivemos uma época de hipersensibilidade social ao tema dos cortes de benefícios e sacrifícios da população em geral.

A escolha do conselho de supervisão da EDP trouxe novamente para a atenção mediática a prática de salários bastante elevados neste momento. As nomeações no sector das águas trouxe a questão das nomeações por critério partidário para cargos com salários relativamente elevados no panorama nacional.

Naturalmente que neste contexto afirmações referentes a pensões ou salários elevados, independentemente de legais, justificadas ou até mesmo que tenham sofrido cortes mas se mantenham num valor elevado por padrões nacionais, irão receber este tipo de tratamento.

O reconhecimento desta hipersensibilidade social aos aspectos de remunerações e pensões tem que ser rapidamente incorporado pela classe política portuguesa nas suas declarações e posições públicas, sob pena de continuarmos a distrair a atenção colectiva a discutir afirmações que na verdade são pouco relevantes para melhorar o funcionamento da economia e alterar a actual insatisfação colectiva com o ajustamento de rendimentos.

 

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Sobre Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa
Esta entrada foi publicada em Debate político, Política Nacional. ligação permanente.

3 respostas a frase infelizes, continua a saga

  1. Daniel Ribeiro diz:

    Pedro,
    Já não é a primeira vez que o escreves e já altura concordei. De facto, hoje mais do que nunca, era bom que os políticos cuidassem o discurso e nos poupassem a afirmações infelizes e que, como dizes, são pouco relevantes para melhorar o funcionamento da economia.
    Parece-me compreensível e até saudável que as pessoas estejam atentas à existência de justiça na distribuição dos rendimentos e sejam sensíveis a sinais que, embora infelizes, possam relevar menor respeito, alguma desatenção ou simples ambiguidade. Não me parece nada bom termos responsáveis políticos com quem haja necessidade de sermos condescendentes….
    Quanto ao tema da EDP e das águas – não creio que seja uma simples questão de salários altos. Parece-me sim mais um capítulo da infeliz promiscuidade entre negócios, estado e partidos.
    Um abraço
    Daniel

    • Olá Daniel

      nesta lista de frases infelizes, daqui a pouco podemos começar a tentar adivinhar quem será o próximo e qual o tema !

      sobre EDP e águas, tens razão quanto à promiscuidade, embora aqui estava apenas a usar a questão dos valores dos salários como efeito para adicional de irritação para com as declarações do presidente da república, nada mais.

      Sobre o universo das águas, até se poderia abrir uma tômbola de sorteio, em que só se podia inscrever quem tivesse as contas em dia, e depois sortear cada lugar disponível. Esse processo pelo menos não seria permeável a outros aspectos que não a mera sorte.

      Abraço

  2. João Henriques diz:

    Sinceramente o que mais me impressionou foi o discurso dos 40 anos de descontos para 1300€, tratando a reforma do banco de portugal como um arredondamento que nem sabia o valor, e sem dar a entender que os 1300€ que foram mencionados são eles sim um erro de arredondamento no total. Evidentemente que não tenho nada contra que o presidente da república tenha rendimentos de 10k/mês ou mesmo mais, mas tenho dificuldade em entender o posicionamento que foi feito das duas componentes como acidental, e isso sim, faz-me urticária.

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