Novas Ideias na República Pobre

Do grego, dois sentidos possíveis para “crise”:

– uma súbita alteração do curso de uma doença ou febre, no sentido de uma melhoria ou de uma pioria;

– o ponto num drama ou história em que um conflito alcança a tensão máxima e tem de ser resolvido.

Ou seja, as crises trazem novidade e, por vezes, conhecimento. Portugal tem a vantagem de estar a aprender há já algum tempo. A crise e o drama nacional duram há anos, talvez décadas.

O país parece rejeitar “novos diagnósticos”. No entanto, vários mitos caíram com o aprofundar da crise. Os cidadãos acolheram, no curto espaço de alguns anos, ideias novas que substituíram vários mitos maus.

Algumas dessas ideias farão parte de uma solução para os problemas desta “república pobre”.

Eis umas quantas que vieram por bem:

1. A culpa não é do povo

Pelo menos desde a ditadura anterior a 1974, mas sobrevivendo notavelmente à democracia, a ideia subliminar de que “com este povo não se vai lá” morreu. As elites estão, finalmente, no banco dos réus. Lembremos que o povo, como as estatísticas, não se desvia muito das médias e há países prósperos com todo o tipo de povo. As elites, as instituições que elas criam e os comportamentos que adoptam, essas são cruciais. Mudança de mentalidades? Essencial mas agora são as elites que merecem ser o destinatário.

2. A injustiça paga-se

Os casos mediáticos mostraram que a justiça não é cega nem célere. É lenta e vê muito bem de um olho (pelo menos). A dificuldade que os actores da justiça demonstram para manter a postura diante do poder político é a ponta do icebergue. Enfurece-nos, compreensivelmente, mas o que mói e afunda é invisível, grande e duro, está abaixo de água. São os formalismos lentos e erráticos da justoça que minam a confiança, arruinam a iniciativa e perturbam o ânimo produtivo.

3. Dívida são impostos no futuro

As despesas podem pagar-se com impostos presentes, dívida, ou inflação. Dívida são impostos no futuro. O Euro retirou aos governos as armas perigosas da inflação e da desvalorização. Para nos financiarmos ficámos com os impostos, presentes e futuros. As soluções que passam por impostos mais altos sem alterar a natureza da despesa pública perderam a sua “magia”. A mulher serrada em duas saiu da caixa e percebemos que, no fim, quem paga somos sempre nós.

4. Os partidos são egoístas

Os partidos, acomodados à democracia e viciados em benesses privadas, são também organizações. Com interesses, com fomes. Como empresas ou donas de casa, cuidam bastante bem de si e dos seus. Bem de mais. Serão sempre um veículo imprescindível da democracia, mas não são o único nem o devem ser. Os portugueses perceberam que o sistema eleitoral e o sistema político têm consequências para a democracia, a configuração do estado e o crescimento económico.

5. Cimento e tecnologia nem sempre são produtividade

Acreditámos que chegar mais cedo de automóvel à boda de natal na terra nos ia tornar mais ricos. Depois, a tecnologiafez a sua entrada como tábua de salvação, em encarnações coloridas e espectaculares. Os portugueses já perceberam que cimento não é crescimento e tecnologia pode ser mania. Tomados ao seu valor facial, cimento e tecnologia podem não passar de manifestações originais de novo-riquismo.

6. O consenso pode ser veneno

O consenso apodrecido dos brandos costumes e dos blocos centrais pode esconder interesses perigosíssimos, acumular dívidas públicas sem redenção. O conflito, apropriadamente contido, é fundamental para a democracia. Discute, revela, obriga à transparência.

São ideias novas, boas e úteis

O mais fundo da crise ainda vem aí. Ainda podemos aprender mais.

Image Rómulo e Remo

Anúncios

Sobre José Tavares

José Tavares doutorou-se em economia na Universidade de Harvard, onde se especializou em economia política e macroeconomia. Ensinou na Universidade de Harvard, University of California Los Angeles (UCLA), e Universidade Católica Portuguesa. É professor na Universidade Nova de Lisboa e investigador no Centre for Economic Policy Research (CEPR), em Londres. A sua investigação aprofunda temas como a relação entre democracia e crescimento económico, as determinantes da corrupção, e as consequências macroeconómicas da discriminação de género. Publicou em revistas científicas na Europa e nos Estados Unidos, e em volumes da Harvard University Press, MIT Press, e Princeton University Press. O seu trabalho académico foi comentado nos jornais New York Times, La Reppublica, Expresso, Público, e nos sítios de comentário especializado Vox.eu e Eurointelligence. Homepage: www.josetavares.eu
Esta entrada foi publicada em Crescimento económico, Crise, Partidos Políticos, Produtividade. ligação permanente.

2 respostas a Novas Ideias na República Pobre

  1. Alvaro Gomes Martins diz:

    Quero crer, caro José Tavares, que o meu amigo nos está a propor a mais refinada das ironias. Ou será que não?

Os comentários estão fechados.