Schuld & Schulden Associados

Have these genealogists of morality up to now allowed themselves to dream, even remotely, that, for instance, that major moral principle “guilt” [Schuld] derived its origin from the very materialistic idea “debt” [Schulden]? Or that punishment developed as a repayment, completely without reference to any assumption about freedom or lack of freedom of the will?
Nietzsche, A Genealogia da Moral

Depois da análise publicada pelo Wall Street Journal, mas não necessariamente por causa dela, os nossos juros da dívida começaram a subir por aí acima novamente. Ontem, à maturidade de 5 anos chegaram aos 19%! O Primeiro-Ministro reagiu com relativa cautela. No que depende de nós deu garantias de que não falharemos os compromissos – e de facto tanta austeridade não nos permite pensar outra coisa. Mas, há também tudo aquilo em que dependemos dos outros, dos gregos também, mas não só, nem sequer especialmente deles. Dependemos da atenção dos mercados da dívida, das desconfianças de analistas, alguns do outro lado do Atlântico, também de agências de rating que por vezes nos surpreendem dizendo coisas acertadas, enfim toda a espécie de humores e rumores conta na percepção do risco de default e no preço dos credit default swap. Estamos sob suspeita moral e tudo, nessa condição de reserva, merece escrutínio, avaliação e penalização. Até o reconhecimento implícito, para a lógica crua dos mercados, que o Primeiro-Ministro terá feito ao dar por adquirido que sempre teríamos a garantia de mais apoios europeus caso cumpríssemos a nossa parte.

O decisivo é entender que tudo isto é menos determinante do que parece, e bem mais dependente de escolhas e convicções políticas entre quem detém o poder na Europa. Tanto como nós, ainda que com mais urgência, também os  gregos dependem de umas eleições em França e, depois, de umas eleições na Alemanha. A Standard & Poor’s pôs o dedo na ferida quando baixou os ratings  dos países europeus. O Primeiro-Ministro achou que a agência devia abster-se de comentários políticos e dedicar-se ao seu trabalho técnico. Formalmente tem razão, mas, uma vez mais, uma razão relativa. No nosso caso, como no da Grécia, como em toda a Europa, o problema não é fundamentalmente outro: é um problema político. Pelo menos, é um bom indicador o Primeiro-Ministro ter concertado algumas posições com o homólogo espanhol. Oxalá, o candidato presidencial francês François Hollande possa um dia, vencendo as eleições a Sarkozy, reequilibrar as forças com Merkel e suas impressões sobre a vida dos outros.

A europa é a maior economia mundial, grande parte das dívidas públicas dos estados-membros da UE é relativa a outros estados-membros da UE, no seu conjunto a dívida da UE para com o resto do mundo é clamorosamente inferior à dívida externa da segunda potência económica mundial, os Estados Unidos. A China é uma potência mundial decerto, mas permanece ainda muito longe do PIB da Europa e dos EUA. Convém não desproporcionar as coisas. Tomemos por referência a economia brasileira – a China, apesar de 6 ou 7 vezes mais populosa, faz apenas 3 vezes a economia do Brasil. A economia europeia, essa sim, apesar de duas vezes e meia mais populosa que o Brasil, multiplica por 8 o PIB desta. O colapso da Europa valeria três vezes um colapso de uma China. Isso sim seria grave.

Qual é o problema da Europa então? O problema da Europa não é fundamentalmente o euro, nao é o pagamento da dívida, nem sequer o crescimento económico, mas o que impede tudo isto. Se um farmaceuta recusa dar ao médico o remédio que cura a doença, onde está o problema a enfrentar: No doente? Ou no farmaceuta?

O nome dessa maldita farmácia financeira é uma produção cultural a que devemos chamar ideologia. Não é uma ideologia económica, ao contrário do que muita esquerda pensa. É uma representação sobre modos de existência e que aproveita a economia para julgar e reprimir os modos de existência dos outros. Cá em Portugal, vivíamos acima das nossas posses, endividados, desregradamente. Portanto, justificada censura moral para essa gente. Cá em Portugal, temos de saber vencer grandes sacrifícios, seguir a regra redentora sem olhar às consequências. Portanto, justificado elogio moral para os que sobreviverem. A dívida e a culpa são apenas as duas faces da mesma moeda falsa em que há que martelar. O azar é sermos nós a moeda.

A austeridade é, em muitos aspetos recomendável. A sustentabilidade económica, o crescimento em equilíbrio com os recursos, exige uma austeridade equitativa em contraste com a exploração desenfreada, seja dos homens seja dos recursos. A confiança no espaço público, a prevalência do regime plural das democracias ocidentais, exige uma austeridade redistributiva. Não é nenhum segredo. Já para Aristóteles, sem classes médias não era possível assegurar a continuidade da república. Ainda agora, o Presidente Obama, no seu discurso da nação, pôs-se do lado das classes médias assumindo a necessidade de maior redistribuição. Curiosamente, o único indicador em que o Portugal do Passos Coelho e a América do Obama comparam é na desigualdade de rendimento. Atacar isto é a única forma decente de dar sentido à expressão “democratizar a economia”. É que é mesmo uma questão de regime o que está em cima da mesa. Oxalá a Grécia não o demonstre com o seu exemplo já nos próximos meses. E já vamos em dois desejos.

A ideologia que se implantou nas instituições, nos processos da democracia e nas escolhas economicas, muito para lá do que pudesse ter sido alguma vez uma escolha das pessoas é uma ideologia antiga que discretamente vai regressando, depois da modernidade e da pós-modernidade. E reconhecê-la tem pelo menos isto de bom. Os problemas estritamente económicos são da ordem da necessidade; os problemas ideológicos desafiam a nossa capacidade de criar e fazer escolhas. É tempo para que uma liberdade cidadã venha à rua, aos jornais, ao espaço público todo e faça o que um alemão há muito fez – denunciar a rentável união entre culpa e dívida, que em alemão até se diz com uma mesma origem da palavra. Ele era Nietzsche e denunciava a ideologia que agora regressa – a Schuld & Schulden Associados. Vamos a isso?

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Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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5 respostas a Schuld & Schulden Associados

  1. Eduardo Dixo diz:

    Para mim, o mais curioso desta situação é comparar os comentários dos actuais governantes com os que proferiam no tempo em que eram apenas oposição e afirmavam que, por mais PEC’s e medidas de contenção/austeridade que o Governo implementasse, os “mercados” continuariam nervosos o Governo de então não era, para estes, credível e que a culpa da situação das finanças públicas era do Governo (de Sócrates), apesar, deste, apontar para as inconsistência das notações das agências.
    Agora que são Governo, as agências de rating são incongruentes face às “boa” prestação das contas públicas, o governo é agora credível e, no entanto, as notações continuam a baixar e os juros da dívida portuguesa a subir.
    Entretanto, hoje a edição impressa do Jornal de Notícias confirma o que já se adivinhava: afinal o “desvio colossal” que Passos Coelho afirmava ter sido detectado nos primeiros seis meses do ano, não existiu o Governo (actual) terá usado de «excesso de prudência» e que a «despesa efectiva ficou abaixo da estimativa para 2011 constante no OE 2012»
    (pode ser lido em http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO032308.html)

    • Jorge Bravo diz:

      É isso!

      Também temos de rapidamente aprender a reconhecer os fariseus hipócritas.

      É uma questão de formação ética e política, mas para isso, com a “excelência” e “isenção” dos “nossos média” está a ficar cada vez mais complicado!

      Talvez esta dolorosa situação contribua para essa aprendizagem.

  2. Jorge Bravo diz:

    Não vale chamar farmaceuta(s) a um par de néscios desqualificados até para ajudantes de farmácia!
    Eleições venham!

  3. Caro André Barata
    Execelente comentário. Concordo em pleno com o que afirma, a economia vive de decisões racionais, e a defendida objetividade à Economia fica muito a dever ao que chamaria Bertrand Russel,”acão de efeitos pretendidos”.
    Como sabemos, como a objetividade é tão míope.
    Mais uma vez excelente texto

  4. André Barata diz:

    Caros Eduardo, Jorge e Pedro,
    obrigado pelos vossos comentários!
    Um abraço.
    AB

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