Em Memória – Wislawa Szymborska

Faleceu hoje. Deixou coisas como esta.

(Tradução de Júlio Sousa Gomes, em Wisława Szymborska, “Paisagem com Grão de Areia”, Relógio d’Água, Lisboa, 1998.)

——-

ELOGIO DOS SONHOS

Nos sonhos
pinto como Vermeer Van Delft.
 
Falo grego com fluência
e não apenas com os vivos.
 
Conduzo um automóvel
que me é obediente.
 
Sou hábil,
escrevo grandes poemas.
 
Escuto vozes
tão bem como os santos mais austeros.
 
Ficaríeis admirados
da perfeição com que toco piano.
 
Consigo voar como devia ser,
isto é, eu de mim própria.
 
Ao cair de um telhado
sei como descer levemente na verdura.
 
Não tenho problemas
em respirar debaixo da água.
 
Não me lamento: 
consegui descobrir a Atlântida.
 
Fico contente porque, antes de morrer, 
consigo acordar sempre.
 
A guerra a rebentar
e eu a virar-me para o melhor lado.
 
Sou, sem ter porém
que o ser, filho da época.
 
Aqui há alguns anos
vi dois sóis.

E, antes de ontem, um pinguim,
ali, muito nítido, ao pé de mim. 

Sobre José Tavares

José Tavares doutorou-se em economia na Universidade de Harvard, onde se especializou em economia política e macroeconomia. Ensinou na Universidade de Harvard, University of California Los Angeles (UCLA), e Universidade Católica Portuguesa. É professor na Universidade Nova de Lisboa e investigador no Centre for Economic Policy Research (CEPR), em Londres. A sua investigação aprofunda temas como a relação entre democracia e crescimento económico, as determinantes da corrupção, e as consequências macroeconómicas da discriminação de género. Publicou em revistas científicas na Europa e nos Estados Unidos, e em volumes da Harvard University Press, MIT Press, e Princeton University Press. O seu trabalho académico foi comentado nos jornais New York Times, La Reppublica, Expresso, Público, e nos sítios de comentário especializado Vox.eu e Eurointelligence. Homepage: www.josetavares.eu
Esta entrada foi publicada em Liberdade. ligação permanente.

2 respostas a Em Memória – Wislawa Szymborska

  1. Jorge Bravo diz:

    A guerra a rebentar
    E eu a virar-me para o melhor lado

    Um must! Wislawa, sempre!

  2. Jorge Bravo diz:

    Diante do perigo a holoturia se divide em duas:
    Deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
    Salvando-se com a outra metade….

    In: Autonomia, Wislawa Szymborska

    Como um belo poema é uma lição… hoje!

Os comentários estão fechados.