Carnaval

A decisão de não dar tolerância de ponto no Carnaval, e a forma como foi anunciada não deixa de ser curiosa.

Num período de dificuldades evidentes, num período em que o desânimo se vai instalando, em que a emigração como solução começa a ser assumida pela negativa – por não haver futuro em Portugal – a não atribuição da tolerância de ponto surge como mais uma “punição”, e não como um esforço adicional.

A concessão da tolerância de ponto teria a vantagem de permitir uma certa descompressão, a manutenção de um ar de normalidade em tempos exigentes, a capacidade de deixar algum divertimento, ou de descanso.

Precisamente por se retirarem feriados, por se retirarem dias de férias, é que permitir uns dias de distracção, habituais, teria feito sentido.

A lógica subjacente às declarações do primeiro-ministro correspondem a uma lógica workaholic – não perder uma oportunidade de trabalhar um pouco mais para fazer Portugal sair da crise, e de mostrar esse compromisso nacional interna e externamente. Até se compreende. Mas no balanço, teria preferido ouvir dizer que esta ano há tolerância de ponto, que para o ano se veria consoante os resultados dos esforços desenvolvidos pelos Portugueses durante este ano, ou no limite que se fosse mesmo necessário no dia 17 de Novembro, Sábado, se trabalharia como se fosse dia de tolerância de ponto.

E só por curiosidade, e reflexo desta tradição de paragem no Carnaval, no site do Ministério da Educação, aqui, tem-se no calendário escolar uma interrupção entre 20 e 22 de Fevereiro.

Não está aqui em causa uma questão de “direitos adquiridos”, ou de tradição que não pode ser alterada; está em causa em conseguir manter ânimo para continuar o caminho difícil que nos espera, colectivamente. A mobilização da população vai assim aumentando de dificuldade, e por inteira responsabilidade das decisões do Governo e da forma como são comunicadas, em questões onde o respeito pela “sensibilidade social” seria certamente uma forma de ganhar as pessoas para o que é preciso fazer.

ps: não sou adepto do Carnaval, nem usualmente festejo.

 

Sobre Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa
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2 respostas a Carnaval

  1. Francisco Velez Roxo diz:

    Nao sendo adepto do carnaval nem o festejando para alem das imagens do Rio de Janeiro, diriacque esta decisão e digna de um Reino Mono.
    Como cada vez regresso mais aos tempos em que a minha mae me “vestia de qualquer coisa” irei trabalhar vestido de ” options e futures”. E a cantarolar:

    “Lisboa, cidade maravilhosa…etc”

  2. Alvaro Gomes Martins diz:

    Esta malta ensandeceu! E acha “piamente” que temos culpas a expiar… A mim o que me admira é este silêncio!
    Mas não é uma especial motivação para o objectivo que está a calar as pessoas, nem um qualquer desígnio superior… ou a crença de que é preciso fazer o que o governo diz para tudo dar certo. Não. O que está a calar as pessoas é o medo. É o medo rasteirinho que cala a cidadania…..

    (E os gregos? Não acham estranho no meio disto tudo já não se ouvir falar que os gregos protestam nas ruas?)

    Cpts
    Alv

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