Como havemos de nos explicar a um Primeiro-Ministro?

“piegas
(origem obscura)
adj. 2 g. 2 núm. s. 2 g. 2 núm.
1. [Depreciativo]  Que ou quem é muito sensível ou assustadiço.
2. [Depreciativo]  Que ou quem se prende com pequenas coisas.”

Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Como havemos de explicar a um Primeiro-Ministro que a sua eleição não é resultado de nenhuma vontade dos portugueses em sofrerem maus-tratos?

Não, senhor Primeiro-Ministro, não o elegemos, com o voto de muitos, e sem o meu confesso, para que fosse instrumento de um povo com desejos de se auto-infligir correctivos. Se alguma vez o pensou, está enganado, nós portugueses, como qualquer povo, não gostamos que nos depreciem, muito menos que nos deprecie quem nos governa. Nem por gestos, nem por palavras.

Saiba senhor Primeiro-Ministro, essas coisas com que nós, seus concidadãos, nos prendemos, e que, se nos entendemos no mesmo Português, com nova ou velha ortografia, o senhor toma por “pequenas” coisas, são os cortes dos ordenados dos funcionários públicos e, depois, a supressão dos subsídios, primeiro pela metade, a seguir por inteiro. E como fosse, nessa sua peculiar óptica, por demais piegas deter-se com tão pouco, lembre-se que também lançou as suas redes de arrastão sobre os vulneráveis, reformados não importa de que idade e em que condições de saúde. Mais uma bagatela, presumo, que não merece os queixumes lamechas da gente que somos. A culpa foi nossa, andámos a viver acimas das nossas possibilidades, não foi? Por isso, até julgo que percebo o seu pensamento quando acaba com essa espécie de borla que são as pontes no Carnaval. É porque é mau para o feitio austero que se espera do povo, não é assim?

E, naturalmente, vem nos manuais que não há fortaleza física sem rijeza psicológica. É preciso chamar-nos piegas de vez em quando, ou pelo menos avisar-nos para que não o sejamos, pois o adjectivo é depreciativo, como vem nos dicionários, e essa fraqueza pode curar-se como bem sabe quem sabe curar. A autoridade ensina de pai para filho: se queres ser um paísinho a sério, aprende! Acabem-se com os feriados da nacionalidade, que isso são vãs ilusões, a realidade é dura e crua, pão pão, queijo queijo. E para bálsamo há sempre os outros feriados, mais dados à consolação das almas.Há que enrijecer este ânimo luso, como dantes se fazia com os valentes de Esparta, não é assim? De outro maneira como aprenderemos alguma vez a sair das nossas zonas de conforto?

Entendo perfeitamente esta sua didáctica da austeridade. Mas, olhe, que tudo isto só me faz lembrar um discurso do pai de todos os democratas. Ele era Péricles e numa célebre oração fúnebre, há tempo suficiente para nele caberem três histórias completas de Portugal, ele guardou o testemunho dos feitos dos soldados heróicos, e num rasgo genial fez antes o elogio da constituição política de Atenas e do seu governo: a democracia. Não como o pior de todos os sistemas à exceção de todos os outros, como um dia disse Churchill, e que já é um cepticismo da democracia mal concedido, mas como aquilo que engrandecia os atenienses a ponto de os fazer vencer todas as dificuldades: a afirmação de uma existência liberal, culturalmente rica, viva e muito mais capaz do que aqueloutra, espartana, feita do ídolo da austeridade rija.

Infelizmente são tantas as suas “pequenas” coisas com que nos prendemos, já viu? É subirem-nos os impostos sobre os bens essenciais e fazerem-nos, no fundo, pesar cada passo que damos sobre esta terra que governa. Até o senhor Presidente da República já não está certo que consiga pagar as despesas, já viu ao que chegámos? Coisas pequeninas por que nos prendemos, sim, como convidar-nos a encarar a porta de saída do país, lá para onde não governa, e que levemos, cândidos, uma bandeirinha na lapela, como a usam aí no Governo, ou ideias para um negócio de pastéis de nata, como dizia aquele inspirado ministro, e que, no fim, não nos esqueçamos de umas remessas, pois a gente que aqui fica é pobre, embora, na sua prezada opinião, alguns ainda não tenham dado por isso. E, ainda, aquele seu Ministro do Imperativo Categórico, sempre a apregoar: não olhem às consequências, é preciso não olhar às consequências que isso é fraquejar. Já viu que são coisas e mais coisas que moem, coisas a mais?

Infelizmente, depois de tanta austeridade sacrificada, e talvez inútil como um cão que persegue a sua cauda até desfalecer, depois de tanta coisa que não foi pequena e que não trouxe esperança a ninguém, ainda vem somar-nos aos maus-tratos este de nos tomar por piegas. Não, não foi para isso que foi eleito. Lá no seu Programa Eleitoral, acredite que fui verificar, não encontrei uma ocorrência da palavra. Está a ver o equívoco? Ou não?

Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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9 respostas a Como havemos de nos explicar a um Primeiro-Ministro?

  1. Daniel Ribeiro diz:

    De facto André isto está a começar a ficar estranho. Como havemos de explicar-nos a quem nos governa? A ideia que dá é que desaprendem quem somos….
    Há quem reaja e diga piegas são os políticos, que nós piegas não somos
    http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=536643

    Mas já aconteceu assim em anteriores PM e neste também parece claro – depois de tomarem posse começam a distanciar-se das pessoas … parecem confinar-se a um restrito número de interlocutores que devem sobretudo dizer-lhes o que eles gostam de ouvir, ou o que pensam que eles precisam de ouvir para darem uma imagem de determinação e comando. Seja como for, é triste o resultado!..

    Que autoridade moral o PM pensa que lhe assiste para se dirigir assim ás pessoas? Dar liçoes de quê? Ele devia era enaltecer o estoicismo que os portugueses estão a demonstrar…. e mostrar respeito!

    (Às tantas dei comigo a pensar que a única solução digna seria convencer-me que aquilo foi em grande parte conversa de auto-motivação …)

  2. Há já bastantes anos tivemos um ministro da administração interna que tinha uma certa tendência para dizer sempre o que era mais inapropriado no momento. Agora parece que temos um primeiro-ministro que, seu afilhado, lhe está a seguir as pisadas (ou a seguir as que ele lhe recomenda?)

  3. André Barata diz:

    Pois é mesmo, caro senhor segundo comentador. Esse seu nome é impronunciável🙂
    Daniel, obrigado pela indicação do Henrique Neto, inteiramente certeiro sem dúvida. E sim, também desconfio que andam por lá por onde ele anda uns psicólogos motivacionais a vender-lhe coisas sobre como deve dizer o que quer que tenha a dizer…

  4. André Barata diz:

    Manifestamente, não tem emenda. Veja-se esta justificação de Passos Coelho para acabar com as pontes de Carnaval: http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=536437

    Ficámos a saber que o PM decidiu acabar com a ponte de Carvaval porque, no ano passado, enquando gozávamos a nossa ponte, a troika trabalhou todo o dia. É assim que as decisões se tomam em Portugal, para não embaraçar a troika, dar bom aspecto. Estupendo!

  5. Jorge Bravo diz:

    Só quem o não ouviu nas reuniões da JSD é que pode achar que ele necessita de psicólogos motivacionais para isso.

    É defeito e feitio!

    Foi infelizmente, para os portugueses mais um erro de casting, que nos vai custar mais um adiamento no projecto nacional e mais uns tiros nos pés, quiçá para ficarmos cá e irmos pagando os disparates.

    Reestruturação das PPP, Zero; Dinamização da Economia, Zero e os piegas somos nós?

  6. Eduardo Dixo diz:

    Creio que não vale a pena tentar explicar-lho o que quer que seja pois, por maior que fosse o nosso esforço e mesmo que lho explicássemos “como se fosse uma criança de 4 anos” ele, muito dificilmente compreenderia.
    Infelizmente são pessoas deste “calibre” que nos governam…

  7. Excelente texto André! Vai ficar como resposta clássica ao Sr. das Pieguices (em paralelo com a Sra. dos Anéis – Manuela Ferreira Leite).🙂

  8. Addiragram diz:

    O conceito psicanalítico de “identificação projectiva”ajuda-nos a compreender o funcionamento psíquico de quem assim fala. O “piegas” que não suportou a ideia de o ser, despeja agora sobre todos as suas pieguices de tantos anos. Mas o mais grave é que o piegas se transformou em moralista e agora quer ensinar o que é trabalhar… Tantos “carnavais” que vamos ter de nos penitenciar…se assim quizermos.
    Este é o meu modesto contributo ao belíssimo texto de André Barata. O meu obrigada!

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