Also sprach Martin Schulz

Se o presidente do Parlamento Europeu declara, de semblante circunspecto, que o “futuro de Portugal é o declínio”, penso que, em vez de nos fazermos de virgens ofendidas, ai Jesus o dislate, aqui d’El Rei que ele é alemão, eu recomendo, com forte ênfase, que ouçamos uma segunda vez o que Herr Schulz diz e que, de uma vez por todas, guardemos as nacionalidades dos intervenientes europeus quando debatemos que Europa queremos e o que lhe andamos a fazer. Com toda a certeza, o que Martin Schulz diz não é a mesma coisa que Angela Merkel ou Passos Coelho dizem. E com certeza a notícia do Público interpretou tudo mal, quando toma o título: “Líder do Parlamento Europeu junta-se a Merkel nas críticas a Portugal”.

Comecemos pelo caso das declarações de Angela Merkel. O que a chanceler diz sobre as bonitas auto-estradas e túneis da Madeira, e que não me espantaria se lhe tivesse sido segredado por alguém no intervalo do cafezinho de um Conselho Europeu, resume-se à mesma liçãozinha do costume, que por cá também se ouve há muito. Se foram declarações confrangedoramente dispensáveis foi por se tratar de assunto demasiado longínquo da sua esfera de atribuições. Ainda que por um raciocínio de analogia, a opiniosa chanceler devia ser recordada do significado do princípio da subsidiaridade, cuja redacção no Art. 5 do Tratado de Lisboa limita, e bem, a intervenção da União nos planos nacional e regional. É que mesmo assumido que pudéssemos, num exercício hipotético-académico, decerto menos divertido do que desejaríamos, fazer equivaler o nome próprio “União” pelo seu sobrenome “Merkel”, a conclusão seria que a chanceler ao falar do uso dos fundos comunitários na Madeira, atropela esta Europa toda, de Norte a Sul, das Cárpatos ao Guincho, dos pequenos lugarejos às grandes capitais, em suma, onde lhe pareça que os euros cheirem a marcos perdidos.

Já quanto às declarações de Martin Schulz, apesar de destratarem o tacto que o cargo talvez lhe exigisse (oiçam lá o que ele diz da China, senhores deslumbrados pelo comunismo pós-marxista) têm o grande mérito de escarafunchar as escolhas que o nosso governo anda a fazer quanto a captação de investimento estrangeiro, cujo critério pouco tem sido questionado por cá, a não ser de viés, e a propósito de um incidente entre um cronista de uma rádio pública e a direcção de conteúdos do serviço público de rádio e televisão. O declínio que Schulz aponta ao futuro de Portugal é o mesmo que aponta ao futuro da Europa toda: tornar-se a europa irrelevante por tornarmos, por actos governativos, irrelevante sermos europeus. É que acaberemos a pagar o deslumbramento fácil pela abundância de dinheiro onde, porém, faltam, os fundamentos do Estado de direito, o respeito pelos direitos humanos, a assunção clara de direitos políticos, o modelo social e económico das democracias parlamentares, em suma, aquilo que deu significado a sermos europeus empenhados na construção de um projeto europeu mundial e historicamente inédito. São escolhas que se fazem, cá e também na Alemanha, escolhas regressivas, de oportunismo nacional, ou não estivesse Merkel fortemente empenhada no mesmo tipo de contatos económicos. Desistirmos de ser europeus é o primeiro passo para desistirmos da Europa. Desistirmos nós de ser europeus só facilita a vida àqueles que, tão pragmáticos como alguma gente de cá com poder, estão com vontade de desistir de nós. O pior não é, porém, quem desiste de quem, mas de que valores estamos todos a desistir. Só fez bem, pois, Herr Schulz em falar claro sobre o que está em causa. Entedia o taticismo hesitante, do género uma no cravo outra na ferradura, de certos editoriais. Essa hesitação é, provavelmente, a última singularidade europeia.

Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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3 respostas a Also sprach Martin Schulz

  1. André Barata diz:

    Comentários feitos na minha página do facebook:

    #1: Plenamente de acordo – uma voz crítica lembra, no PE, a tradição dos direitos humanos que é tão europeia e caem o Carmo e a Trindade por entre os lusos amnésicos ou ignorantes da escola jusnaturalista. Só não concordo com a última frase – ou não percebo bem: a hesitação será um sinal de distanciamento reflexivo ou de receio de tomar posição, esse sim de herança inquisitoria e ditatorial?

    #2: Penso o mesmo !!!

    #3: A mim parece-me todo muito bem mas choca num ponto que eu nunca entendi: o que é ser europeu? E o que é ser europeu na União Europeia? Por outro lado, quando falamos do regresso do país aos mercados, a quais? Ao alemão? Ao franceses? Posso estar enganado mas creio que Portugal nunca teve peso no mercado europeu. E sinceramente, e apesar de concordar com o que disse o senhor sobre a China e outros países, parece-me discutível que se defenda uma superior moral e ética europeia, quando esta sempre foi a de cuidar “o nosso quintal” para fazer lixo no “quintal dos outros”.

    #4: O problema também, julgo eu, é que as políticas para ajuda económica e financeira seguidas pelo FMI, a CE e o BCE, não fazem, nem sugerem, esse tipo de discriminação no seguimento das suas políticas de privatização.

    #5: A mim soa-me mais a discurso de quem lhe vê fugir o educando pela porta das traseiras…. O Sr. Schulz está preocupado. E com razão. Temos amigos pouco recomendáveis. Mas ficámos avisados e vamos abrir bem os olhos. Quem sabe se não podemos vir a exercer uma boa influência sobre eles. Ou será que o dinheiro manda assim tanto?

    #6: hummmm, manda?

    AB: Olá #1, desgostei da maneira como o Público tratou as declarações do Martin Schulz, em que o editorial hesita, penso que nem por distância reflexiva nem por receio, mas porque começou por comprar, como mostra o título da notícia, a ideia de que Schulz e Merkel estão no mesmo barco de críticas (alemãs) a Portugal, quando, ao mesmo tempo, até reconhece como pertinentes as declarações do primeiro. É como dar uma no cravo e outra na ferradura… mas se calhar fui eu que vi mal. Em todo o caso, é um grande prazer trocar ideias consigo, também por estas paisagens mais azuladas do facebook.

    AB: Meu caro #3, eu estou de acordo com parte do que diz, mas, além disso, creio numa coisa e tenho a certeza de outra: creio que sei pelo menos num certo sentido o que é ser europeu: é herdar e continuar um conjunto de valores de co-existência económica, social, política e cultural (e que Schulz bem enumera) que os europeus alcançaram à custa de muitos outros europeus e, certamente, também à custa de muitos não europeus. E tenho a certeza de que esses valores europeus são valores de que não abdico em troca de um qualquer prato de lentilhas….

    AB: #4 , esse é um ponto interessante. Em alguma nível de consideração, as instâncias europeias são chamadas a avalizar as privatizações. Por exemplo, aconteceu com a EDP. Agora, se algum tipo de discriminação deva ser assumido parece-me muito complicado. Imagine como alguns parceiros económicos extra-comunitários nos passariam a encarar. Não bastaria mais reflexão da parte dos decisores sobre o que está implicado nas escolhas que fazem? Penso que sim.

    AB: Hum #5, estou mais pessimista. A direcção da influência vai toda ou quase toda num só sentido, para cá, e duvido que seja a melhor das influências… nisso estou com Schulz. E olha que ela está a referir-se a toda a Europa, exemplificando, entre outros exemplos, com Portugal e a relação com Angola.

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