o mito do estado empresário

(post gémeo com o blog momentos económicos)

O mito do estado empresário está mesmo enraizado no pensamento político português, e é desses “instintos profundos” que resulta grande parte da nossa paralisia em geral.

Hoje, no trânsito, com a rádio ligada, estava a ser dada uma notícia sobre a linha do Vouga, que aparentemente irá ser encerrada. Um deputado de um dos partidos da coligação governamental era referido como tendo afirmado que “achava” que a linha era viável e urgia o Governo a olhar para o assunto. Eram focadas as ligações entre Aveiro e Águeda e entre Águeda e Espinho, se não estou enganado.

Desconheço, confesso, qual a verdadeira viabilidade económica dessas linhas e de que condições depende essa viabilidade.

O que me assusta é a ideia de que deve ser o Governo a fazer essa avaliação.

Pelos vistos, não cabe às empresas de transportes fazer essa avaliação, tem que ser o estado empresário, ao mais alto nível.

Pelos vistos, não passou pela mente do deputado ir para além do “achar” e fazer um business plan demonstrando essa viabilidade económica, ou incentivar alguém ou alguma empresa a fazer esse plano e a candidatar-se a explorar as ditas ligações sem apoios do estado.

Nada disso, cabe ao Governo avaliar a viabilidade económica da linha! Apesar de toda a retórica continua no fundo da alma a querer-se um estado que esteja presente em tudo, que tudo pague. E vindo do grupo político de apoio ao Governo, demonstrando o enraizamento desta ideia.

Se fosse um pedido para o Governo avaliar a componente de serviço público que pudesse estar presente – que externalidades existem? efeitos de redistribuição por apoio à mobilidade de população sem outras alternativas? coesão social na área? – ainda poderia caber dentro da esfera que se espera para o Governo. Não sendo assim, a pergunta deve ser devolvida à comunidade empresarial, que deverá mostrar, pela acção e gestão concreta, se as linhas em causa são ou não economicamente viáveis.

Sobre Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa
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3 respostas a o mito do estado empresário

  1. Maria diz:

    TUDO NESTE PAÍS E EXIGUO-O . O ESTADO, OS EMPRESÁRIOS……, A INTELIGÊNCIA DOS POLITICOS.NINGUEM ESTÁ INTERESSADO EM APROFUNDAR O REAL E VERDADEIRO PROBLEMA DO TERRITÓRIO, ASSIM COMO TAMBÉM DA VONTADE DO PRÓPRIO POVO CANSADO E ENGANADO. SEMPRE TIVEMOS IMENSAS DIFICULDADES ( SALVO RAROS PERIODOS DA HISTÓRIA) EM AQUENTARMO-NOS NESTES QUASE NOVECENTOS ANOS. AGORA COM A GLOBALIZAÇÃO É NULA. OU NOS INTEGRAMOS NA “CEE” E/OU “CPLP” E ALGUEM QUE NOS GOVERNE OU ENTÃO DESAPARECEMOS. INDEPENDÊNCIA? SEM PRODUZIRMOS NEM PARA A SUBSISTÊNCIA? E, A CULTURA NÃO MATA A FOME ( A FISICA ).DEIXEM DE BRINCAR AOS PAÍSES, CAIAM NA REALIDADE.

  2. Daniel Ribeiro diz:

    Olá Pedro,
    Percebo o teu ponto de vista… e a tua inquietação. Onde acho que tens razão muita razão é em não gostares de nos ver adormecidos e em não gostares que o primeiro impulso que ocorra possa não ser o da inciativa empresarial, possa não ser o de arriscar para criar valor ….
    Mas hoje não posso resistr a aproveitar a tua deixa (involuntária) para deixar dois ou três links sobre a dita Linha do Vale do Vouga, que recordo sempre com emoção…

    http://pasteldevouzela.blogspot.com/2007/10/linha-do-vale-do-vouga.html
    http://www.prof2000.pt/users/secjeste/Arkidigi/Vouga_Vale01.htm

    …E um pequeno ensaio de Pedro Zúquete, interessante, onde o autor procura demonstrar o interesse e a possibilidade em viabilizar economicamente a linha do Vale do Vouga, ou pelo menos parte dela.
    http://www.webrails.tv/arquivoPDF/LinhaVouga.pdf

    Tenho imensa pena que a Linha do Vale do Vouga tenha morrido e que, pelos vistos, continue a morrer.
    Um abraço
    Daniel

    • Olá Daniel,

      Obrigado pelo teu comentário e os teus links.

      Pessoalmente, não conheço a Linha do Vouga, e também por isso não emiti qualquer juízo sobre se a Linha é economicamente viável ou não. Talvez seja uma coisa a remediar um dia destes com um guia adequado?

      Depois de ver os teus links, talvez alguém ou algumas pessoas se juntem e procurem pensar nessa viabilização e propor a gestão da Linha, em regime de concessão, por exemplo, à CP (ou o que se chamar agora). Até porque partindo da iniciativa de quem conhece as potencialidades será mais fácil imaginar como a tornar viável. Juntar quem tem as ideias com quem sabe de serviço de transportes. O problema nesta altura será o financiamento, mas se o projecto for bom, certamente poderá encontrar apoio.

      Enfim, eu sei que é wishful thinking…

      abraço

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