O Ultimato

Em 1890, Portugal foi submetido a um memorando pelo poder militar britânico. Ficou na nossa História como o Ultimato, designação justa que a opinião pública deu à ameaça que nos era feita de Londres.  Ainda hoje o hino nacional que cantamos é memória dessa submissão forçada à escolha entre o desastre e o desastre pior que teria sido a guerra com a maior potência mundial de então. Ressentimos nesse tempo a humilhação até à própria maneira de existir do país. Logo um ano depois tivemos a revolta republicana do 31 de Janeiro no Porto. Era inevitável, a ferida não podia sarar sem uma redenção, mesmo que traumática. A monarquia deu lugar à república, como se só assim nos devolvêssemos o direito de tornar a existir como nação.

A Grécia vive agora dias angustiantes. Como em 1890, os memorandos de entendimento são tão-só ultimatos em linguagem diplomática. O Ministro das finanças da Alemanha,  Wolfgang Schauble, o mesmo da conversa condescendente, captada por uma câmara indiscreta, com o nosso Vítor Gaspar,  não podia, ainda há dois dias, ter sido mais claro: “Ou se comprometem todos os partidos por escrito ou o próximo passo é o referendo”. Nem a diplomacia dos termos se salvou. E ainda bem, porque, por vezes, as palavras diplomáticas ofendem mais do que a mais ofensiva palavrada dos ofendidos. Ontem, com Atenas debaixo da violência do desespero, decidiu-se, a custo de muito preceito democrático, aceitar os termos do ultimato.  Um deles, sintoma da nossa doença, é mesmo poupar nas despesas com eleições.

O que se passa hoje na Grécia não é austeridade, é obscenidade. A medida disso mesmo é que nem a Alemanha foi submetida a medidas tão duras nos difíceis anos do pós-guerra. É isso que se pode ler hoje no The Telegraph – « The US, Canada, Britain, France, Greece, and other signatories at the London Debt Agreement of 1953 granted Chancellor Konrad Adenauer a 50pc haircut on all German debt, worth 70pc in relief with stretched maturities. There was a five-year moratorium on interest payments.» Estas foram as condições humanas que permitiram à Alemanha acalentar um futuro digno entre nós europeus. Não foram ultimatos mal disfarçados na forma de memorandos.

Como pode não ser claro que a submissão forçada dos gregos ao poder económico do Ministro Schauble, da Troika, e de comissários vigilantes da sua obediência, deixará um rasto de ressentimento que se alongará por décadas na memória colectiva do povo, das elites e das suas consciências, corroendo a própria dignidade de que um país precisa para existir afectivamente livre? Como restam dúvidas de que os ultimatos são apenas o príncipio de qualquer coisa cujas últimas consequências desconhecemos? Que inumanidade andamos nós a produzir sob o nome de Europa?

No mesmo ano em que se perdoavam dívidas alemãs,  nesse longínquo 1953, o grande Thomas Mann rogava aos estudantes de Hamburgo que lutassem não por uma Europa alemã, mas por uma Alemanha europeia. 59 anos depois, quase uma vida inteira pois, é preciso repeti-lo.

Anúncios

Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
Esta entrada foi publicada em Europa. ligação permanente.

12 respostas a O Ultimato

  1. Aida diz:

    O que temos é uma Europa alemã… a questão é como se sai desta Europa alemã para uma Alemanhã europeia.

  2. Os países europeus enfretam uma espécie de dilema do prisioneiro em que têm de se sujeitar às exigências e (concordo) obscenidades alemãs. É verdade que foram cometidos muitos excessos e também é verdade que a própria Alemanha os tolerou porque muitos lhe deram lucros!
    Mas o que mais me preocupa é o facto da Alemanha ter colocado na prateleira as instituições europeias e os seus líderes. Esta Europa alemã deixou de ser Europa para se tornar numa região demográfica de países incumpridores liderados por uma Alemanha insensível e exigente. O que acontecerá à Europa se conseguirmos ultrapassar a crise? Como ficarão as relações entre os Estados depois destes ultimatos?
    Muitos diziam que a Alemanha era o país que mais tinha a perder com a União Europeia e a moeda única! Mas não será o que tem tido mais ganhos comparativos?

  3. Caro André Barata
    Não estranha a vassalagem dos nossos governantes à própria Alemanha? Todos sabemos que uma parte da dívida é ilegitima( ainda à pouco surgiu o livro exatamente com esse título, de François Chesnais), é incompreensível o nível da taxa de juro sobre as dívidas soberanas comprometendo o estado social. Começo a ficar convencido da teoria da reflexibilidade defendida por Georges Soros, contra a arrogância da ciência económica. A míopia destes só pode ser propositada, ou acreditam em dogmas e pressupostos erroneos acerca da realidade?
    Das suas intervenções, caro André, vejo que caminha a passos largos para o questionamento de alguns fundamentos do mercado financeiro, e como este está imiscuído na política de quem dirige as instituições europeias.

  4. André Barata diz:

    Muito obrigado pelos comentários!

    Cara Aida, pois, essa é uma pergunta importante. Penso que não é difícil encontrar algumas respostas, mas, infelizmente, dependem muito menos de nós do que das elites alemãs de forma muito especial. É um debate que eles terão de ter, mas que também terá de ser levado a sério em toda a União, Portugal incluído.

    Caro Nuno Vaz da Silva, as suas preocupações são essencialmente as mesmas que eu tenho. Penso que se tem subestimado os efeitos a mais longo prazo, efeitos persistentes, não económicos, desta austeridade compulsiva. É preciso alargar os termos com que se considera a actual crise europeia além do problema das dívidas soberanas e dos défices públicos, e não recear pôr a questão da paz social e mesmo da paz entre os estados europeus (como Hayek punha no seu célebre capítulo sobre o federalismo).

    Caro Pedro Lains, óptima referência, que não conhecia, e que é bem elucidativa. Muito obrigado!

    Caro Pedro Pinheiro, cada vez estou mais convencido de que a questão não é económica, mas política, ou mesmo ideológica. Economicamente, a solução da crise na europa não é nenhum mistério. O que seria um mistério é saber por que razão não avançamos, nós europeus, em direcção à solução, mas nem é esse o caso. O bloqueio tem que ver, cada vez me convenço mais disso, com uma inflexão de valores difícil de caracterizar, mas que me lembra muito a mentalidade contra a qual se posicionou um Nietzsche, mas também o Thomas Mann. Mas, confesso, é só uma impressão a aprofundar…

    Um abraço
    Ab

  5. Miguel Araújo diz:

    Tudo isto é muito bonito mas a verdade é que quando se perde autonomia financeira, perde-se autonomia. Os Gregos consomem mais do que produzem. Portanto, ou produzem mais, ou consomem menos. É matemática pura. A alternativa que alguns preconizam é que os contribuíntes do norte paguem o custo de manter um regime insustentável no sul. Talvez a solução de longo prazo passe um pouco por isto mas é uma solução que não se pode impor aos contribuintes do norte e que, se algum dia for implementada, não poderá ser feita sem contrapartidas, i.e., mais cedências de soberânia. Não vale a pena diabolizar a Alemanha e todos os outros que se vêem na contingência de emprestar dinheiro aos Gregos (e aos Portugueses) pois ninguém os (nos) obrigou a gastar mais do que produziamos. Queremos ser donos do nosso nariz? Pois bem, trabalhemos para isso. Nunca ninguém foi autonomo dependendo financeiramente dos outros. É bom entender isto para não perder perspectiva e embalar em retóricas vazias de conteúdo.

    • André Barata diz:

      Caro Miguel Araújo, antes de mais peço desculpa pela demora na publicação do seu comentário. Tal deveu-se a ter ficado retido na caixa de Spam do blogue, não sendo esse o caso evidentemente. Ainda estou para saber que tipo de filtro determina o que é e o que não é Spam. Só por acaso lendo outros comentários, dei conta hoje do seu comentário, que logo publiquei. Fica o pedido de desculpas.

      Relativamente ao que diz, a intenção não era dizer coisas bonitas, muito menos diabolizar a Alemanha. Precisamente ao contrário, a intenção era demonstrar que não poderemos contar com uma Europa se não dispusermos de uma Alemanha europeia. Repare que, tanto neste, como na maioria dos meus posts anteriores, tenho procurado evocar personalidades alemãs, pois justamente o que não aceito, como ainda há dias pude ler em mais um editorial do jornal Público, é que se diga que «há um problema de entendimento entre Portugal e a Alemanha». Nada disso. Há um problema de entendimento do que ser quer da Europa entre portugueses e outros portugueses, como entre alemães e outros alemães. Ora, o senhor Schauble, com o seu irritadiço modo de lançar ultimatos, encarna exatamente o tipo de mentalidade e atitude que destrói a Europa. Ser ele alemão é apenas uma circunstância particularmente infeliz, visto dispor de um poder desproporcionado atendendo ao dano que nos pode trazer a todos. E repare que nada disto tem que ver com a sua preocupação de que haja maior sustentabilidade nos modos de vida colectivos dos países do Sul da Europa. Naturalmente. Agora, isso não pode ser pretexto para uma asfixia a que nem a Alemanha, à saída do seu mais negro período histórico, foi submetida. É disso que estamos a falar.
      Obrigado pelo seu contributo.

  6. Pingback: Links 1T 2012 | Toca do Javali

  7. André Barata diz:

    Comentário de Salvador Louro (colocado no facebook):

    Portugal nos últimos dias tornou-se num enclave da China e de Angola na Europa. Portugal ficou dividido em dois. A parte norte, com o Amorim como Governador, pertence a Angola (BCP, BPN, Galp e ZON) e a parte sul, com Mexia como Governador, pertence aos Chineses (EDP e REN). Acredito que em breve, o Brasil irá fazer um tratado de amizade e segurança com as Ilhas da Madeira e dos Açores e as tornará num protectorado seu, estabelecendo aí as sedes das suas companhias orientais da Cimpor e da PT. Como se vê, já não precisamos de rating nenhum. Passámos de Ba3 menos-menos-menos para AAA num ápice. Quanto à Europa? Isso é passado, morreu e agora só falta mesmo enterrar ou o que for mais barato.

    Mais obsceno ainda é a política de defesa da europa (foi de propósito que escrevi com letra minúscula). A defesa da fronteira sudeste da europa é feita pela NATO com equipamento 100% Grego. Por isso, a Grécia tem o maior contingente de todas as forças armadas da europa. Mas não é só isso. Nos últimos anos a Alemanha e a França, como omissão culposa do Reino Unido, incentivaram a Grécia a se reequipar militarmente com o melhor e mais moderno equipamento que esses países fabricam. Assim, a Grécia foi obrigada a pagar todo o equipamento encomendado, e em alguns casos ainda não entregue, de defesa da fronteira sudeste da europa. Entre esse equipamento contam-se os seguintes brinquedos: 4 fragatas Meko2000 (alemãs); 9 fragatas Elli (Holandesas); 9 corvetas (dinanmarquesas); 7 corvetas de ataque rápido Roussen Super Vita (inglesas, sendo que estão todas pagas mas só 3 foram entregues); 12 fragatas Le Combattante várias versões (francesas, recentemente modernizadas); 3 submarinos Glafkos (alemães); 4 submarinos Poseidon (alemães); 6 submarinos papanikolis (alemães, todos pagos e só um foi entregue); 9 caça-minas (ingleses e holandeses); 3 torpedo retrievers (alemães); 5 transporte de tropas LCU (alemães); 4 transporte de tropas Zubr (Rússia); 6 patrulhas costeiras (Noruega); 4 transporte de tropas (Franceses); 10 apoio logístico (alemães e franceses); 16 rebocadores que a marinha opera. Isto é só a marinha grega. Faltam os 10 helis comprados recentemente à itália e que operam a partir das fragatas. Têm mais um brinquedos giros como 156 caças F-16 (americanos), 44 caças Mirage2000 (franceses), 57 caças de combate F-4 (totalmente modernizados) e 31 helis de ataque ao solo (franceses e italianos). O exército só tem 90.000 homens no activo e mais 200.000 em vários estágios de prontidão.E para finalizar só compraram 854 tanques de guerra Leopard aos alemães. Está tudo pago, conforme se sabe através das pressões dos franceses e dos alemães que vieram nas notícias. E depois querem que eles não estejam falidos…

  8. Neste momento as agency rating já não podem baixar mais….
    E nós não reagimos porque já estamos debaixo do tapete a ser pisados…
    Orgulho Português?

  9. Quando se vê um povo orgulhoso da sua história e cultura a suicidar-se como se viu ontem nos telejornais, e a Europa inteira não sai à rua em protesto, já se perdeu a dignidade ou então estamos mortos e não demos por isso…

Os comentários estão fechados.