Editorial do jornal Público

Há dois dias li um pavoroso editorial no jornal Público. Começava assim: «Há um problema de entendimento, e certamente não linguístico, entre Portugal e a Alemanha.» Perdão, como assim?

Se é a nível governamental que há um problema de entendimento, até que seria interessante. Finalmente teríamos, imagino, alguma crispação genuinamente europeia pela coesão da União, e pela muito urgente solidariedade de que o povo grego precisa, em vez de uma estratégia o mais provavelmente suicidária propugnada pelos defensores da austeridade extrema. Mas a verdade é que todo o português minimamente informado sabe como Angela Merkel e Passos Coelho se entendem lindamente; e sabe também como afinam pelo mesmo diapasão os ministros Vítor Gaspar e Wolfgang Schaüble. A verdade é que o desejável seria mesmo que houvesse mais problemas de entendimento a este nível governamental. E que alguém batesse o pé àquele Herr das finanças.

Mas se não é isto, a que nível se coloca o desentendimento de que falava o editorial, que já agora lembro ser não assinado, do jornal Público? Inacreditavelmente, parece que é pelo facto de as pessoas visadas  terem nacionalidade alemã! Senão vejamos: «a profusão de ideias contraditórias dos discursos alemães sobre Portugal e a Grécia, hesitando entre o inferno e um possível purgatório, não são de modo a sossegar ninguém.» Sossegado é que eu não fico; pelo contrário, fico até um pouco consternado. Um outro Wolfgang,  mencionado no mesmo editorial, chega a ser numerado. Leia-se para que não restem dúvidas: «um quinto alemão de relevo, Wolfgang Münchau, colunista do Finantial Times (…)» A que propósito vêm estas referências a “discursos alemães”, a “alemães de relevo”, e a quintos ou lá quantos são alemães? É por terem ideias contraditórias? Então, mas todos os alemães de relevo ou sem relevo hão-de ter as mesmas ideias? Por acaso, todos pensamos o mesmo em Portugal? Ou imaginam os senhores editorialistas que Merkel, Schulz, Schauble, Lammert, Münchau e já agora todo o alemão hão-de concertar as suas ideias antes de abrirem a boca porque nós aqui gostamos de uma Alemanha em uníssono?

Senhores editorialistas, o que se tem de perceber é que, como nunca, aquilo de que precisamos é de uma Alemanha plural, contraditória e que só dessa maneira é possível debater a sério a Europa. O que é preciso, se estão mesmo para entrar neste desafio das nossas vidas, é assumir que a Europa se ganha ou se perde na disponibilidade para debatermos ideias contraditórias, em vez de nos acomodarmos no mais encantatório dos perigos –  protestar, como acabam de fazer, por os discursos de alemães serem contraditórios. Com isso apenas prestam serviço à ideia de que deva haver um só discurso alemão. Isso é que inquieta.  Agora percebe-se melhor que não tenham reconhecido que Merkel e Schulz possam pensar menos o mesmo do que Merkel e Passos Coelho, ao contrário do que assumiram há alguns dias, e como referi aqui.

Anúncios

Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
Esta entrada foi publicada em Debate político, Europa, Os media. ligação permanente.

3 respostas a Editorial do jornal Público

  1. Discursos alemães que interessa ouvir, não por serem alemães mas por serem certeiros e europeus.
    Alemão #6 – Oskar Lafontaine

    “o fim da guerra dos bancos contra os povos europeus”.

    http://www.ionline.pt/mundo/ex-ministro-alemao-das-financas-acusa-merkel-destruir-europa-banca-atacar-povo

  2. Jorge Bravo diz:

    Caro André Barata

    Estou a comentar só agora e atrasado o seu post, propositadamente, para não ser sempre o primeiro a desancar a actual leva de editorialistas e jornalistas da generalidade da nossa média e já agora, para apreciar a sensibilidade de opinião dos comentadores aqui do “reino”, a tal caso.

    É confrangedor a forma como vão sendo veiculando nos média, a começar por colunas de opinião e editoriais não assinados, notícias misturadas com opiniões e ideias, fazendo de tudo uma autêntica sopa de letras que parece tem unicamente a finalidade de manipular a opinião pública, ou disfarçar a “voz do dono”, a menos… que seja… pura inépcia.

    Por isso tenho cada vez mais saudades dos escritos do Artur Portela Filho, do Álvaro Guerra, do José Mensurado, para já não falar de Eduardo Prado Coelho ou mesmo à sua maneira de Vera Lagoa, Rui Rego ou José Saramago.

    PS: Registo 2 (dois!) comentários, sendo que um deles é de quem fez o post! Boa!

  3. Para o Jorge Bravo
    (com saudações ao André Barata)

    Teria algo a dizer a propósito de editoriais e de colunas de opinião.
    Não hoje.
    Sensibilizou-me a referência a textos meus..

    Artur Portela

Os comentários estão fechados.