As escolas do século XXI centram-se nos alunos *

(* texto de ficção científica, pastiche de um artigo de opinião publicado no dia 23.02.2012 no Jornal de Negócios por Francisco de Almeida, director da LEAP, em que me limitei a substituir a palavra empresa por escola, a palavra cliente por aluno, a palavra produto por matéria e a palavra negócio por ensino. Será assim tão difícil perceber que a escola tem de encontrar novas respostas para as necessidades dos alunos que a frequentam? Que exigência de disciplina e rigor de nada servem se o aluno não quiser aprender?)

“O paradigma escolar português está a mudar. Basta abrir os jornais para testemunhar, diariamente o encerramento de escolas históricas tidas como de referência a nível nacional, ao mesmo tempo que nascem novos projectos, de enorme potencial e escala global. Quais as causas deste efeito? Na procura de uma resposta contundente a esta questão chego à conclusão de que muitas escolas tradicionais perderam a perspectiva sobre o activo mais importante para o ensino sobreviver: o aluno.
O aluno deve estar no centro de toda a actividade das escolas. É a capacidade de ouvir as suas necessidades, sentir as suas emoções e ler os seus desejos que torna uma escola diferenciada, actual e sustentável. A relação entre as escolas e os alunos é um diálogo permanente e as escolas têm de ter capacidade para saber enviar as perguntas certas, receber e processar as respostas e, por sua vez, responder com algo que satisfaça os alunos. Os vários departamentos1 de uma escola (…) são apenas ferramentas de que a escola dispõe para responder às questões dos alunos.

Se olharmos para os grandes case studies da actualidade, como a Escola A, a Escola B ou a Escola C, é o contacto directo e permanente com o aluno que as permite estar na vanguarda (…). O sucesso da Escola A deve-se ao facto de ter desenvolvido um processo de ensino2 e logístico extremamente eficiente, ensinando apenas as matérias que os alunos sinalizaram que querem. A Escola B não é uma escola de invenções. A Escola B dispõe de uma capacidade única de interpretar os desejos dos seus alunos e satisfazê-los com soluções únicas e apresentadas3 de forma extraordinariamente apelativa. A Escola C não foi um rasgo de sorte de um professor genial4. A Escola C nasceu da necessidade de socializar por parte de um grupo de alunos mais introvertidos que criaram uma nova5 solução para o fazer. O sucesso da Escola C deveu-se à capacidade que (…) teve de perceber que essa necessidade se estendia a um universo muito mais alargado, conseguindo responder com uma abordagem6 verdadeiramente única e universal.
A realidade que encontramos actualmente em muitas escolas é um isolamento total em relação aos alunos. Durante anos ensinaram7 algo que a sociedade8 valorizava, tendo sido premiadas com protagonismo e uma forte posição competitiva. No entanto, as necessidades dos alunos evoluíram (…) e as matérias que outrora faziam sentido, deixaram de o fazer. Muitas escolas, reféns da realidade que conhecem (…), continuam a ensinar o que sempre ensinaram. Os alunos aprendem menos e mudam de estabelecimento de ensino9 demonstrando a sua insatisfação, mas as escolas continuam fechadas sobre si mesmas a procurar as respostas nos professores10, no Ministério da Educação11 ou na relação com o Estado12, esquecendo-se de falar com o aluno.
A inovação, termo que hoje em dia está em voga no mundo do ensino, é apenas o reflexo deste diálogo permanente. A inovação não implica a criação de um quarto escuro, debaixo de terra onde um par de cabeças com inteligência privilegiada juntam poções mágicas para resolver os problemas do mundo. A inovação é algo de muito mais simples: é a capacidade de trazer o aluno para o centro da escola, e, explorando as suas necessidades não satisfeitas, criar uma solução que preencha essa lacuna, com a forma, a apresentação13, a mensagem (…) que leve o aluno a querer aprender14”.

Palavras substituídas, para além das que foram indicadas em cima:
1 funções, 2 produtivo, 3 empacotadas, 4 génio informático, 5 digital, 6 ferramenta, 7 produziram, 8 mercado, 9 para os concorrentes, 10 distribuição, 11 marketing, 12 banca, 13 embalagem, 14 comprar essa solução

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4 respostas a As escolas do século XXI centram-se nos alunos *

  1. Jorge Bravo diz:

    Brilhante extrapolação, se for para o ensino superior em geral.

  2. Daniel Ribeiro diz:

    Olá Cristina,
    Pois… o que nos mostras com esta ficção bem caçada é afinal muito simples: – a escola beneficiará ser for uma organização mais eficaz (embora isto se aplique a quase tudo e eu não defenda nenhuma “teoria geral” sobre a aplicação desta ideia à escola) e nós todos beneficiaremos se a escola não esquecer que os alunos são, sempre, os beneficiários e destinatários do “processo de produção pedagógica” que ocorre na escola.
    No entanto, a escola tem muitas escolas dentro e, por isso, pode ter outros “processos de produção” além do processo de produção pedagógica e o da estrita formação e qualificação de pessoas e de cidadãos. A investigação, por exemplo, que com frequência tem também um valor que ultrapassa o estritamente económico, ou, noutra vertente, a prestação de serviços à sociedade, como a consultoria, a realização de estudos, etc..
    Não obstante, o que não dizes mas é como se dissesses, é que, entretida como tem estado a querer optimizar os aspectos produtivos do processo, a escola tem-se bastas vezes esquecido (como quem não quer senão lembrar-se) dos seus primeiros destinatários e beneficiários.
    É por isso precisamente que a analogia que usas, tentadora bem sei, não me parece nem fácil nem linear, pois o que se espera que a empresa dê à sociedade não é o que se espera que a escola lhe ofereça.
    Parece-me no mínimo questionável (e sei que não é o que dizes) pressupor que a adopção da racionaliade económica tipicamente empresarial venha a ser, acriticamente, o melhor para a escola e o melhor para qualquer escola, ou seja, o modelo mágico que vai enfim resolver as ineficácias da sua gestão, que se ajusta como uma luva à avaliação das pessoas nela envolvidas, e que irá enfim proporcionar-nos o óptimo do “processo de produção pedagógica”
    E isto não é dizer menos exigência ou menos rigor. É dizer apenas que a ratio das organizações e das formações sociais não tem que ser toda recalcada da racionalidade económica empresarial. Sobretudo quando os bens têm uma natureza e um valor que ultrapassam para todos nós a dimensão do económico, que também têm ou podem ter.
    (…ena, não estava a contar estender-me tanto….)

    Beijinhos

  3. Obrigada Daniel, pelo teu longo comentário, que muito veio enriquercer este ‘post’. Concordo em absoluto contigo quando dizes que não se pode de forma alguma abordar a gestão das escolas com os mecanismos da gestão empresarial. O aspeto que me interessou mais nesta analogia tem a ver com outra questão – a de que as mudanças na forma como as organizações encaram o seu objeto ocorrem necessariamente quando é sentida ou presentida a necessidade para o fazer. É o facto de uma empresa se ver forçada a ser competitiva que a leva a procurar soluções para poder continuar a existir no mercado. E no mundo das empresas, as soluções passam necessariamente pela satisfação do cliente. É a velha lei da oferta da procura. Ora, no ensino, refiro-me sobretudo ao básico, em que estamos a falar de organizações de caráter social, como bem referes, há desde logo uma clientela não só garantida, como obrigada a ‘beneficiar’ dos serviços prestados pelas escolas – os alunos. Onde está pois a tal necessidade que faria aguçar o engenho e tornar a escola num sítio melhor, mais apetecível e interessante para os alunos? Infelizmente tenho vindo a assistir como um discurso supostamente universal, o do rigor, da disciplina, da autoridade dos professores, do desempenho dos alunos tem vindo a suplantar outro, o da escola inclusa, da escola para todos, da escola lugar de partilha. Colou-se a ideia da escola moderna à ideia de uma escola fácil e, ao que parece, faz-se tabula rasa de décadas de reflexão sobre o que devia ou podia ser o ensino. Aliás, acho mesmo que, no que toca o ensino, também estamos a entrar num beco sem saída. Porque o discurso da necessidade de disciplina e de rigor só vai aumentar o número de desadaptados. E estes, por sua vez, vão engrossar a massa dos insatisfeitos. Não me parece que estejamos no bom caminho.

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