A visita de Paul Krugman ao reino

Nos últimos dias ganhou especial destaque nos meios de comunicação nacionais a visita de Paul Krugman, que voltou a frisar os seus pontos habituais:

– menor austeridade – significa menor contracção da despesa pública, sobretudo pelos efeitos recessivos que provoque

– menores salários em Portugal – reconhece que temos um défice de competitividade, e que é necessário ajustamento salarial – a alternativa não mencionada é conseguir mudar o padrão de especialização da economia portuguesa, o que demora tempo embora já estivesse a decorrer (maior conteúdo tecnológico nas exportações portuguesas). O que é preciso para que continue é um quadro legal estável para o investimento empresarial, seja nos aspectos laborais seja nos aspectos fiscais.

– Portugal irá manter-se no euro com elevada probabilidade

– a Irlanda não está tão bem assim no caminho da recuperação

– não há soluções que consiga apresentar para o problema do desemprego – ou seja, não tem uma solução mágica para fazer crescer a economia.

Ou seja, a divergência de Paul Krugman com o actual rumo económico para Portugal é bem menor do que possa parecer à primeira vista.

Krugman também expressa a ideia de que a Europa como um agregado não tem grandes problemas, e que há um importante problema político em cima das questões económicas, centrado na posição da Alemanha.

Sobre Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa
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7 respostas a A visita de Paul Krugman ao reino

  1. Daniel Ribeiro diz:

    Olá Pedro.
    Pena é que Krugman ou nenhum outro tenha solução para o nó em que estamos metidos. Krugman, como sabes, sempre foi descrente do euro e hoje não tem facilidade em ver solução para “isto” no actual quadro institucional da moeda única. Foi isto, mas não só, que hoje mesmo escreveu a partir de Lisboa para o Salt lake city Tribune
    http://www.sltrib.com/sltrib/opinion/53599264-82/europe-deficits-greece-nations.html.csp?page=1
    Mas, infelizmente, continuo é sem perceber qual é o passe de mágica virtuoso que este quadro recessivo (e depressivo) encerra.
    E estamos (já há algum tempo…) resumidos a pouco mais que isto – uma questão de fé ou de ausência de fé. Em poucos momentos a economia foi uma ciência tão política.
    Um abraço

  2. Sérgio diz:

    “Ou seja, a divergência de Paul Krugman com o actual rumo económico para Portugal é bem menor do que possa parecer à primeira vista.”

    Tenho acompanhado o blog do Paul Krugman e parece-me que só muito superficialmente esta frase é verdadeira. O economista assume-se como um full fledged keynesian e aposta em politicas viradas para a criação de emprego o que não me parece de todo o que está a ser feito em Portugal com, por exemplo, o aumento do periodo laboral e flexibilização de despedimentos, entre outras.

  3. Daniel:
    Foi pouco animador ouvir o Krugman dizer que não tem nada a sugerir quanto ao problema do desemprego.

    Sérgio:
    No discurso que fez, Krugman não defendeu políticas orçamentais expansionistas para Portugal como forma de sair da actual crise. Quando fala de austeridade normalmente remete para um quadro europeu e para a zona euro como um todo, e foi esse o contexto em voltou a falar. Mais do que apontar um caminho, falou das justificações que estão a ser dadas para o momento actual da Europa. Não o ouvi falar em saída do euro como solução, ou que voltar a ter contas públicas equilibradas não faz sentido. Neste momento, e para a situação portuguesa, a minha leitura do discurso dele na sessão pública do honoris causa é que a discordância face ao rumo actual estará sobretudo na falta de capacidade da zona euro actuar como uma área homogénea, com mecanismos de compensação internos adequados. Mas sendo a minha leitura, não descarta outras opiniões ou visões sobre o que ele quis de facto dizer.
    Quanto à flexibilização do mercado de trabalho, é um tema excessivamente confuso e confundido em Portugal. Existe mais flexibilidade real do que se poderia pressupor apenas pelas disposições legais. Existe, mesmo com essa flexibilidade, um grande dualismo no mercado de trabalho entre os que têm emprego assegurado e os absolutamente precários. A extensão e implicações de cada caso variam de importância de acordo com quem se fala.
    De qualquer forma, não temos muitos instrumentos para usar que tenha efeito imediato.

  4. Daniel Ribeiro diz:

    Pedro,
    Krugman não disse cá nada de diferente do que tem vindo a dizer, aliás profusamente como é seu apanágio. O que acontece é que cada um sublinha e cita sobretudo o que quer sublinhar e citar. Sempre foi assim e obviamente vai continuar a ser. O homem não é nenhum oráculo como provincianamente o contexto em que o colocaram quase fez crer. A mim o que me admirou foi as três universidades em unissono quererem dar-lhe agora o honoris causa. Obviamente que o facto em si tem alguma leitura pq ninguem ignora, como é óbvio, o seu pensamento.
    Agora também te digo – claro que te percebo ao sublinhares o facto de ele nada ter a propor sobre o desemprego. Esperar-se-ia de um keynesiano a “obrigação” de ter resposta. E se não tem isso permite apontar o dedo a “essa lacuna” (salvo seja). Mas se ele nunca o fez não sei porquê esperar que ele o viesse fazer aqui. Mais, sem soberania nas finanças públicas nem na política monetária – que é o que se passa – não sei como se pode esperar de um keynesiano uma resposta para o desemprego no quadro nacional. É obrigado a reconhecer que não há instrumentos pq não há as opções de política que noutro contexto poderiam existir. Foi o que ele disse.
    É evidente que essa resposta só pode vir a partir do quadro em que, eventualmente, se definem as politicas no espaço europeu ou do euro. É também o que ele diz… e que mais austeridade é menos procura e mais recessão, e só há menos desemprego com crescimento…
    Eu tenho é de facto receio que a economia aterre num sítio de onde seja bastante difícil levantar-se… está tudo a ficar muito seco muito depressa. E não estou falar do clima. A internacionalização (exportação) não vai resolver todos os nossos problemas e é pouco prudente termos esse wishful thinking… e se não há procura, chapéu!… Tanto mais que ao nível das políticas de produto o que existe são políticas europeias e não políticas nacionais, e as políticas europeias têm sobretudo a ver com as necessidades competitivas dos países do centro.
    … Era de facto bom que Krugman ou qualquer outro nos brindasse com uma solução…
    A ver vamos o que a política nos reserva.
    (ao menos que melhorem alguns “custos de contexto” e o crédito se facilite e volte a ser mais barato – mas isso por si não dá retoma do crescimento…)
    Um abraço

  5. Pedro Pinheiro diz:

    Caro Pedro Pita
    Sem ter a pretensão do que vou afirmar, até porque o problema é demasiado complexo para expor em poucas palavras, penso que todos à partida somos contra a austeridade, contra o desemprego e a maior parte dos efeitos de tal política. Contudo, a austeridade podia educar-nos, sobre o que produzir, como alocar os recursos financeiros disponíveis que não fossem desperdiçados em megalomanias, ou simplesmente gastos sem retorno. E penso que neste aspecto, devíamos ter uma banca especializada para fazer análise dos investimentos que tivessem um maior retorno económico para o país. Não acredito que vamos continuar apostar no sector da construção,a não ser por masoquismo. Que seja exportável será uma mais valia. Mas que não seja o sugador dos recursos financeiros deste país, uma grande causa do nosso endividamento. Na minha visão limitada o grande problema é a resposta à pegunta o que produzir? Enquanto, for possível auferir rendimentos sem ter de arriscar, de ser competitivo, temos muito capital alocado ao ócio, viver à sombra das rendas. A isto eu chamo esbanjamento de recursos, quando podiam estar comprometidos em projetos que tornassem o país economicamente mais rico. Este passo de mágica é urgente. A própria banca teria de passar a fazer análise de investimento sobretudo na optica economica, e não apenas na certeza das rendas seguras quer do Estado, quer de investidores protegidos. O pouco dinheiro deve-nos fazer pensar onde alocar para tirar maior rentabilidade, obrigando-nos a fazer a destrinça do que realmente é importante para o nosso país.
    Se não resolvermos o problema de como tem fluido o crédito para a economia portuguesa, vamos continuar com problemas de alocar o dinheiro onde ele criaria emprego e consequentemente riqueza para o país.

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