resposta a um comentário

de um comentário, aqui, saiu uma pergunta:

o grande problema é a resposta à pergunta: o que produzir?

Na verdade, o grande problema é como procuramos responder a esta pergunta. Se estamos à espera que seja o estado a dizer o que produzir, a criar linhas especiais de crédito para o que alguém num serviço do estado acha que se deve produzir, então não encontraremos a resposta nem rapidamente nem provavelmente a resposta certa.

A resposta só pode ser dada pelas decisões de quem compra – deve-se produzir aqueles produtos e serviços a que os outros, quem compra, dão valor. E é difícil de saber, implica tentativa e erro, acertar e falhar, aceitar que nem sempre se está certo.

O exemplo das grandes empresas mostra que muitos dos produtos que tentam lançar falham. A Apple, hoje muito celebrada pelo sucesso dos seus produtos, teve também diversos fracassos – o Mac Cube, por exemplo; a Apple TV, foram produtos que não foram longe nas preferências nos consumidores. Mas a empresa seguiu em frente desenvolvendo outros.

Também numa das principais exportações portuguesas temos muito desse aspecto- no futebol, quantos dos miúdos que aos 11 anos são escolhidos para as academias de futebol chegam a jogar num grande clube de outro país? (para não falarem em terem valores de transferência superiores a digamos 1 milhão de euros).

A pergunta, de um ponto de vista de actuação de política económica, não é tanto o que devemos produzir, mas como devemos facilitar que quem quer experimentar produzir o possa fazer.

 

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Sobre Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa
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4 respostas a resposta a um comentário

  1. gustavossilva diz:

    Ex.mo professor Pedro,

    Acredita, como professor, estudioso e entendedor da matéria, que “basta” os empresários investirem naquilo que os consumidores procuram? Temos algumas fábricas em Portugal que têm produção única e útil e que mesmo assim vendem mais para o estrangeiro (para depois o governo as ir comprar…) que para “dentro”. A nível de famílias, referindo-me a um cabaz alimentar, creio que Portugal não tem condições climatéricas para cultivar uma diversidade de produtos alimentares (frutos, cereais, legumes, etc). Claro que há um ou outro não tão exigente e que ainda se consegue cultivar. Consegue-se e é feito!
    Aquilo que há muito é um desaproveitamento do que há em Portugal! Vemos com frequência pequenos agricultores a deitar as suas produções fora. Então, ninguém lhes compra as alfaces, tomates e batatas porquê? É de interesse, dos grandes, aquelas produções que nem é bom pensar o que comemos…
    A nível de produção, creio que Portugal, se quisesse enveredar por esse caminho, teria que apontar para indústrias, tal como o nome indica. Mesmo assim, não teríamos áreas geográficas, mão-de-obra qualificada e infraestruturas para tal. Um exemplo? Temos dos melhores serviços de internet do mundo. Mesmo assim, ninguém investe nisso (ou pouco investem) – mas este exemplo foge do sector da produção. Acontece o mesmo em nanotecnologia. Há um investimento grande neste tipo de tecnologia, mas são os centros de investigação das universidades.

    A nível do sector primário, acho que Portugal só conseguiria mesmo aproveitar a agricultura e pecuária, mas isso foi assassinado à uns anos atrás. A agricultura, dei a minha opinião no 3º parágrafo. Ela existe. Não é aproveitada!

  2. Este tema é deveras interessante.
    Concordo que a tónica deve ser colocada em como facilitar o processo de produção de quem quer produzir e, (acrescento) tem condições para o fazer! O Estado não deve querer substituir-se aos empresários. Cada um deve ocupar-se das suas funções e, exercê-las da forma mais eficiente.
    O actual modelo de associações de desenvolvimento regional, direcções regionais de economia, turismo, associações comerciais e industriais capturadas por agentes partidários e burocracia do SPA não favorece nenhum empresário. Devíamos ter processos simplificados e entidades publicas de efectivo serviço publico com objectivo principal de criar sinergias entre empresários, escolas profissionais e faculdades. A criação de canais de comunicação entre empresários e, destes para o exterior é fundamental e factor critico de sucesso.
    Para além disso, o aspecto judicial é um das maiores barreiras à entrada para qualquer empreendedor. Por exemplo, quantos anos são necessários para reclamar um crédito num tribunal? Se alguma pessoa pensar nisso antes de iniciar uma actividade, continuará a ser um não empreendedor.
    Este tipo de mudanças estão ao alcance do governo e do legislador. Assim haja interesse em mexer em poderes instalados e entidades obsoletas que podem ser de interesse público mas que tendencialmente se ocupam de interesses privados.
    Para além disso, considero que o actual modelo de aposta na competitividade e o total afastamento da coesão (que é muito sexy em períodos pré-eleitorais mas é sempre colocada na gaveta no pós votação) tem sido e continuará a ser um erro. Apostar apenas nas empresas existentes e nas zonas desenvolvidas e industrializadas do litoral é limitativo e esquece um território vasto e cheio de oportunidades e um conjunto alargado de população cheia de vontade em ser empreendedora mas com falta de conhecimentos, falta de acompanhamento, falta da financiamento e/ou falta de canais de comunicação/vendas.

    Temos sido muito egoístas para termos sucesso! As nossas zonas industriais ou parques de negócio nada têm a ver com eventuais modelos de “Industrial districts” franceses ou italianos (são zonas onde as empresas se instalam mas não geram sinergias, não criam novos produtos e não partilham experiências) e os nossos legisladores parecem esquecer o impacto das suas leis no quotidiano dos empresários.

    Bem, e já chega de escrita…porque este tema tem muito que se lhe diga e podíamos ficar várias horas a dar ideias de ganhos de eficiência, aumento da produtividade ou melhoria das condições de instalação de empreendedores…

  3. @Gustavo & @Nuno,

    O funcionamento das economias modernas baseia-se na nossa liberdade individual de comprar ou não, sendo que é o aparelho produtivo que tem de procurar satisfazer as necessidades da sociedade. Em termos de especialização produtiva, sabemos também que existem ganhos dos países se especializarem mais nuns produtos do que noutros, que as economias de escala e a diferenciação de produto têm importante papel em algumas áreas. O “dirigismo” central dificilmente se consegue adaptar a estas necessidades e suas flutuações. Daí que tenha pouca ou nenhuma fé em que os governos consigam, de forma duradoura, saber o que deve ser produzido.

    Vejo o papel da intervenção pública muito mais no agilizar de conhecimento sobre oportunidades e minimização de custos de ajustamento, revejo-me por isso em grande medida na posição do Nuno.

  4. Caro Pedro Pita
    Obrigado por ter respondido ao comentário.
    Quando levantei a questão do que produzir, não estava a pensar em economias planificadas( como por exemplo, a do Japão, e com grande êxito), mas sobretudo, que o tridente Estado- Banca- Empresas tenham noção clara do que deve ser produzido. O problema é que este tridente não tem funcionado como uma arma para a competitividade e produtividade. Míopia da política economica?? Produzir para sectores protegidos( é sabido que os nossos grandes empresários não estão na industria). A banca também prefere esses sectores para a realizaçao dos empréstimos. Urge a necessidade de reformular os pressupostos da sinergia do tridente, que fosse uma verdadeira arma de criação de riqueza, voltássemos para a s exportaçoes, para equilibrar a balança de pagamentos, e dessa forma conseguíssemos o desendividamento.
    Há empresários com ideias de investimento, com encomendas já firmadas e a banca não lhes empresta dinheiro. Possívelmente reservando para alguma obra pública,etectc. Preocupados com a desalavancagem, mas ávidos de títulos de dívida pública com retornos explêndidos ou não( caso grego, tenho dúvidas se alguma vez receberão o dinheiro investido). Ora, abreviando, este desalinhamento é extremamente prejudicial à criaçao de riqueza, ao crescimento. Penso que neste ponto o Estado deve ter um papel de criar uma política economica em que consiga alinhar o tridente, e para isso, tem de saber, não produzir, esse papel cabe às empresas, mas ter uma resposta à pergunta o que produzir? Produzir nos sectores transacionáveis, cabendo naturalmente aos empresários escolher o produto, ou serviço. Contudo, tendo essa resposta o Estado também fica a saber a política economica a realizar, como timoneiro deve -nos orientar o caminho, contudo eu decido o que produzo.A Politica Economica devia ser percebida por todos ,para existir um alinhamento, essa sinergia está a faltar. É o que eu consigo ver .

    Cumprimentos

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