O pitonisato giliano

(Fotografia de João Amaro Correia)

Vivo num país conhecido. Chama-se Portugal, tem um território de fronteiras antigas, 10 milhões de pessoas diferentes, uma língua, muita cultura, imenso património… país que, lamentavelmente, passa, nestes dias, por uma crise como não conheceu outra desde que é uma democracia. Não sei em que país os meus compatriotas consideram viver, mas se José Gil vem dizer hoje, por todos nós, que “vivemos num país desconhecido”, então, o mais provável seria considerar-se não estarmos a falar do mesmo país, ainda que lhe chamemos  “Portugal”, com esta ou qualquer outra ortografia.

Infelizmente a questão não é apenas nominal, pois logo se percebe de que país fala José Gil – afinal é mesmo de um país desconhecido que acontece ser um certo “Portugal” visto de maneira muito peculiar. Se em ocasiões anteriores José Gil procurara diagnosticar à mentalidade da nação uma menoridade liliputiana temperada de inveja, imagem utilíssima para quem entretanto se vai lembrando de nos chamar piegas, preguiçosos e coisas afins, agora José Gil revela-nos, na argúcia das suas perguntas, a intrépida visão de um país animado pelo desperdício de energias vitais , por “dados” incognoscíveis, níveis subterrâneos à informação tangível, fluxos de acontecimentos inquantificáveis, ou mesmo imateriais, país que é afinal outro, quer dizer, sobrenaturalmente outro e, por isso, país incognoscível, dir-se-ia mesmo país espectral, a fazer-me duvidar se haverá mediums à altura deste para-inquérito nacional que José Gil escolheu advogar.

E a sua escolha não é banal. Apoia-se num motivo fortíssimo – «O nosso país está demasiado “cheio” (de informações, imagens, bugigangas de toda a espécie) e quanto mais se enche mais se enterra o vazio essencial a que não se dá a importância que tem.» Que dispuséssemos de qualquer coisa lusamente essencial já seria problemático o bastante para justificar algumas observações, mas tratando-se de um vazio essencial, e, sublinho, de um vazio essencial cheio de importância, então há que encher-nos de brios e pedir contas, mesmo filosóficas. Até porque o jornal espalhafata, imprimindo um imenso Zero, a encher quase todos os poros da sua primeira página, o mais tautológico dos não-conhecimentos – «O vazio do conhecimento sobre Portugal condiciona as políticas», lê-se. Pois claro, mas que outra coisa se não o vazio do conhecimento se poderia esperar do conhecimento do vazio? Já num muito longínquo Séc. VI a. C., o grande Parménides o concluía: do nada nada se pode saber… E é com grato prazer que lhe cito, atravessando olímpicos milénios, os versos do seu poema sobre a natureza (em tradução roubada), a fazer assim deles notícia actual sobre não-notícias inescrutináveis:

Pois bem, agora vou eu falar, e tu, prestes atenção ouvindo a [palavra
acerca das únicas vias de questionamento que são a pensar:
uma, para o que é e, como tal, não é para não ser,
é o caminho de Persuasão — pois segue pela Verdade —,
outra, para o que não é e, como tal, é preciso não ser,
esta via afirmo-te que é uma trilha inteiramente insondável;
pois nem ao menos se conheceria o não ente, pois não é
realizável , nem tampouco se o diria

É bom lembrar que este desacerto de nomes e coisas nomeadas, do ser e do não ser, do conhecer e do não conhecer, não é novo em José Gil. O pitonisato giliano já nos diagnosticara, desde o célebre Portugal Hoje – O medo de existir (2004), a inveja e a pequenez como medida da mentalidade dos nacionais, até os assinalara na Língua portuguesa, viciada no uso do diminutivo, pois somos gente que não inscreve, medrosa de existir.

Agora, na qualidade de director por um dia do Público, em dia de borla e reforma do grafismo do jornal, como se fosse dia feriado no calendário normalmente exotérico que por cá ainda é habitual praticar-se nos media, convida-nos, sempre com abundante conjugação da primeira pessoa do plural a respeito do país, a que nos convertamos ao que chamarei um esoterismo metodológico. Parece que há «movimentos do vazio que abrem linhas de fuga, incita a pensar diferentemente, desencadeia poderosas forças de criação». Entre forças, energias e vazios, o caso agrava-se portanto. Imagine-se que, depois deste feriado à revelia da missão exotérica do jornalismo em Portugal, alguém levava a sério o título do Público de hoje e condenava-nos doravante a assistir à mobilização de IRSs, subsídios e reformas para a satisfação deste para-desígnio de uma “sondagem imaginária” aos “nossos” mais essenciais vazios “atropelados”.

PS: Tenho o maior apreço intelectual pelo pensamento filosófico de José Gil, que leio sempre atentamente, mas com a mesma clareza que congratulo aquele, tenho por menos verdadeiras do que nocivas as suas reflexões sobre este “nosso” país.

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Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
Esta entrada foi publicada em Os media, Portugalidade. ligação permanente.

7 respostas a O pitonisato giliano

  1. Pingback: A ler | cinco dias

  2. ” … e além disso, temos Jesus Cristo, que não percebia nada de finananças e não consta que tivesse bibliotecas…”
    Posso usar esa citação de Pessoa porque sou ateu e porque não sou, de todo, anti-intelectuais, antes pelo contrário. Mas, livre-nos Deus de intelectuais deste jaez!
    Quem não entende que ” o que importa é transformar o mundo” e não põe todo o seu saber ao serviço dessa nobre causa, não é um verdadeiro intelectual. Pode até ser um erudito, um repositório de sabedoria, mas, está condenado a levar essa sabedoria para a cova sem utilidade de maior que o seu comprazimento pessoal…
    Ou pior ainda: a usar todas as suas muitas qualificações num sentido metafísico que, objectivamente, perturba e confunde quem devia ter ideias claras sobre a transformação que é urgente operar no mundo.
    Conheci operários quase iletrados que usaram o imenso tempo nas cadeias fascistas para se educarem, para aprenderem e hoje ( os que estão vivos ) se comportam e discorrem como verdadeiros intelectuais!

    • mario olivares diz:

      LUIS, enquanto continuares a discutir deste modo, desqualificando quem pensa diferente, nunca conseguiras adicionar outros a tua maneira de ver o mundo. Eu conheci operarios que a única coisa de que falam é de futbol, que olham a política com despreço e marimbam-se para qualquer coisa colectiva, mas se mobilizam por interesses, ambicionam comprar casa e têr carro, são mundanos e votam pelo PS, são a maioria. Os dirigentes operarios comunistas morreram, os novos jovens comunistas são todos muito mais qualificados e podem discutir com conhecimento, os velhos eran abnegados e lutadores, mas dogmáticos e seguidores do Cunhal, um estalinista nocivo e pérfido

  3. Jorge Bravo diz:

    Pois!
    Nem todos podem ser um furacão de optimismo como Agostinho da Silva, Gil também têm direito aos seus estados de alma pelo lado do lado negro da vida.
    Não é necessário até ir até aos filósofos articulistas no nosso media para encontrarmos a mesma linha condutora, tal também se nota nos escritos de Vasco Pulido Valente e de Medina Carreira.
    Por outro lado tal visão´de Gil, nada tem de recente, antes é confirmação, já que desde 1556 pelo menos, se escreve em verso até, da Inveja, ou dos Velhos do Restelo, ou da Vã e Vil Cobiça, ou da Indisciplina das nossas gentes.
    O mal não está nos que falam dos nossos defeitos, porque os temos, e tal até seria bom para os ir corrigindo.
    O mal está que nunca se fale do bem que há na nossa gente, ao ponto de já ninguém saber que existe bem na nossa gente.
    Que nunca se fale do seu sentido de interdisciplinaridade como o seu corolário de pensamento divergente no bom sentido Renascentista, na sua capacidade de usar simultaneamente todas as tecnologias e ciências disponíveis, na sua capacidade negocial aliada ao bem receber, fruto da sua facilidade de relacionamento intrapessoal, na sua capacidade de entreajuda acima da média, na sua capacidade de maximizar os meios disponíveis quando estes são escassos, na sua resiliência extrema, a que acrescentaria a já adormecida pelo menos desde 1496, mas sempre recuperável, é preciso é ser acordada, visão geoestratégica.
    Enfim tudo aquilo que as nossas gentes sempre tem demonstrado ter, quando em diáspora e que é sempre tolhido nas nossas terras, pela fraqueza dos nossos pequenos lideres.

  4. Pingback: Um país submerso? (II) | Total Blog

  5. André Barata diz:

    Um post a ler também do Nuno Serra, um dos Ladrões de Bicicletas: http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2012/03/um-pais-submerso-ii.html

    • mario olivares diz:

      Nuno, as referências que fazes ao citar a informação jornalistica, falam do pais visível, questões que as pessoas informadas do pais conhecem, são visíveis para quem lê, analiza, conversa, etc, mas que são invisíveis para maioria da população. A gente que tem a intuição que os ricos do pais mamam tudo, ha outros que tem a intuição que não muda nada, ha outros que acham que são roubados pelos políticos, ha muitos que não percebam nada e despreçam a política, a outros que querem emigrar, ha outros que pensam abrir um negácio, ha uns milhares que tem subsídio de desemprego, ha pobres que morrem de fome ou sofrem de falta de apoio social, ha pessoas para os quais nada mudou e continuam na boa, vejo tanto mercedes e audi a circular, restaurantes cheios, 40.000 benfiquistas a pagar bilhetes carisimos na champions, etc, etc. O pais invisível, que a vezes pode ser maioria silenciosa, votante PSD, CDS, PS, masoquista o não, que ve os reality da TV, paga la sport TV e que simplemente se esta marimbando ou vive na impotência é o pais real. ha uma greve geral e não acontece nada, ha protestos e não acontece nada, nada tem impedido este proceso de saque dos portugueses que trabalham. Ese Portugal heterogeneo é que dicta o que acontece neste pais, seja por receio, medo, incerteza, seja porque não ve liderança convincente, seja porque a dictadura dos media e do Estado os adormece, seja pelo que for, mas é invisível ou ningum consegue de facto mobilizar de modo continuo ate tornar obvio e visível que a burguesia portuguesa tem o controlo da situaçõa.

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