O Tempo Grego

Há dois tempos para os gregos.

Chronos e Kairos.

O primeiro, Chronos, conhecemos do dia-a-dia: o quantitativo, linear, sequencial. Seja: cronológico. Entendemo-lo bem, falamos com ele com o auxílio de relógios.

O segundo, Kairos, é mais esquivo. Indica um momento em que algo importante, se quisermos dramático, ocorre. Um “tempo entre”. É descontínuo, qualitativo, marca quebras e rupturas na natureza das coisas. Kairos pode ser algo tão tão fugaz e determinante como o “clima”.

Em qual dos dois tempos gregos se encontra Portugal?

Até há algum tempo atrás, decididamente no primeiro. Apesar do acelerar da cronologia a que corresponde enfrentar os juros mais elevados de sempre, os decisores políticos aparentavam a calma e exibiam os planos próprios do tempo cronológico.

Ironicamente, com outros países do sul, foram-se refugiando na anacrónica palavra de ordem “nós não somos gregos”.

E agora? Podemos estar entre dois tempos. A passar, quase sem o sentir, do “nós não somos gregos” para “nós não somos (ainda)  gregos”.

Das pressões racionais do tempo cronológico para a queda existencial no Kairos.

Essa “mudança de clima” é uma aceleração, uma oportunidade, um tempo de prova.

Kairos, um tempo especial.

Os entendidos notam que o que é especial acerca desse tempo é tão incerto que depende apenas de quem usa a palavra. Kairos.

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Sobre José Tavares

José Tavares doutorou-se em economia na Universidade de Harvard, onde se especializou em economia política e macroeconomia. Ensinou na Universidade de Harvard, University of California Los Angeles (UCLA), e Universidade Católica Portuguesa. É professor na Universidade Nova de Lisboa e investigador no Centre for Economic Policy Research (CEPR), em Londres. A sua investigação aprofunda temas como a relação entre democracia e crescimento económico, as determinantes da corrupção, e as consequências macroeconómicas da discriminação de género. Publicou em revistas científicas na Europa e nos Estados Unidos, e em volumes da Harvard University Press, MIT Press, e Princeton University Press. O seu trabalho académico foi comentado nos jornais New York Times, La Reppublica, Expresso, Público, e nos sítios de comentário especializado Vox.eu e Eurointelligence. Homepage: www.josetavares.eu
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Uma resposta a O Tempo Grego

  1. Jorge Bravo diz:

    Por isso é que “inch bin ein” Griechischer staatsburger, Merkel tambem, só que ainda não sabe!

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