A pressa da demagogia

“You can fool some of the people all of the time, and all of the people some of the time, but you can’t fool all of the people all of the time.” (Abraham Lincoln)

A demagogia é uma criatura apressada e com muitas caras.

Veja-se a inusitada demagogia dos números perpetrada por Nuno Crato em plena Assembleia da República, ao enveredar por uma contabilidade criativa de desvios de quatrocentos e tal porcento que induziram, com graves consequências para a verdade dos factos, uma percepção errada das contas da empresa pública. A pergunta que me fica, passados uns dias sobre a denúncia de Daniel Oliveira no Expresso, é: Como pôde passar pela cabeça de um ministro desviar-se dos números auditados? Ainda aguardo por uma resposta.

Veja-se, em seguida, a opinião de Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da Educação, quando escreve no jornal Público (edição de Sexta-feira) que «só um intolerável preconceito classista permite confundir com luxos desnecessários as exigências de qualificação da escola pública». O estilo jacobino com que governou confirma-se nesta espécie de demagogia ideológica com que acusa as consciências cidadãs de preconceito aldeão. Como se madeiras nobres, pedras naturais nobres em instalações sanitárias, bibliotecas e salas polivalentes anexas com áreas superiores a 330m2, salas polivalentes de uso redundante, guardas exteriores em aço inox, pavimentos exteriores em deck de madeira, não fossem sinal de luxo desnecessário, luxo duas vezes desnecessário quando havia mais escolas a precisar de qualificação, luxo três vezes desnecessário quando os recursos são públicos e escassos. O preconceito que mais me preocupa em Maria Lurdes Rodrigues não é o preconceito ideológico, mas o preconceito do novo-riquismo. Mesmo que nadássemos em dinheiro, no meu entender a escola pública deve ostentar uma sobriedade inteligente e não uma denunciada inveja da opulência dos lugares das elites, por mais agradável que seja frequentá-los.

Ao mesmo tempo, Maria de Lurdes Rodrigues tem razão. Paredes meias na mesma edição do jornal Público, lá estava a dar-lhe razão, de forma igualmente demagógica, ideologicamente demagógica, José Manuel Fernandes, que logo foi concluindo do caso que o bom seria que «as escolas estatais concorressem entre si e com as privadas para o fornecimento desse bem público que é a Educação», que isso «serviria melhor as famílias e seria mais económico». Falta-nos o dinheiro para requalificar a escola pública, há quem se queixe, de forma razoável, que poderia ter sido mais bem distribuído para mais bem cumprir o bom objectivo com que se comprometera a Parque Escolar, e o nosso opinador, com base nestas considerações sensatas, consegue vislumbrar uma boa razão para sugerir que, afinal, o que está mal é não se distribuir o dinheiro (em condições concorrenciais claro) também pelas escolas privadas. Pasme-se!

Temos mesmo de nos dispor a aceitar que a alternativa à demagogia só possa ser a demagogia alternativa?

Quando em 2007 o Governo anterior escolheu fazer investimento público na requalificação do parque escolar essa foi uma boa escolha, sem dúvida melhor do que outras (rotundas, fontanários e mais auto-estradas). A escola pública é um bem decisivo para o regime e a requalificação do parque escolar é um objectivo essencial.  Estas afirmações não devem, contudo, inibir-nos de apreciar a gestão da Parque Escolar, notar os seus aspectos positivos, apontar os (muito) negativos, fazer recomendações, tirar conclusões. Foi o que fez, de forma impecável, a Inspecção Geral das Finanças na sua Auditoria à Parque Escolar. Leia-se aqui a apreciação da gestão, que poucos terão tido a paciência de ler, citar, debater.

O mais irónico na hipérbole do ministro foi ter servido tanto para uma sumária condenação da Parque Escolar, como para a sua não menos sumária ilibação. Afinal, também existe uma estilística da contabilidade: chama-se demagogia, mas a demagogia só tem o poder de corrosão que a nossa impaciência lhe permitir.

 

Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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Uma resposta a A pressa da demagogia

  1. André Barata diz:

    Junto links para dois posts interessantes de Hugo Mendes sobre o tema:
    http://jugular.blogs.sapo.pt/3176105.html e
    http://jugular.blogs.sapo.pt/3176200.html.

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