a ponte de Vitor Gaspar

Vitor Gaspar entrou em roadshow, lá fora e cá dentro com uma longa entrevista ao Diário Económico. Dessa entrevista ressaltam vários elementos:

– ao fim destes meses, mantém o rumo decidido, apesar das incertezas. O discurso público limou algumas arestas, mas no essencial permanece a mesma consistência inicial. Continua a manter a postura do técnico envolvido na política quase por acaso.

– o reconhecer da importância da comunicação em primeira mão no exterior do que se está a passar em Portugal; é um exercício que faz parte da estratégia para ganhar confiança internacional na economia portuguesa, e que pode ser útil não apenas por causa  dos mercados financeiros, mas também pelo investimento directo estrangeiro

– grande cuidado político em não assumir protagonismo para além do cumprimento das metas assumidas para as contas públicas

– a novidade é um optimismo mais evidente sobre o crescimento da economia, e pela primeira vez responde com um valor sobre o crescimento económico esperado como resultados das reformas em curso (estou curioso; prudentemente, não há promessas de criação de não-sei-quantos milhares de postos de emprego.

Nada de verdadeiramente surpreendente, mas a consistência e persistência por vezes são surpresa em si mesmas.

Vitor Gaspar termina a entrevista da seguinte forma:

“Portugal está a meio da ponte? Ou ainda não chegamos lá? Estamos a aproximar-nos do meio da ponte.” Esperemos que a ponte esteja construida totalmente!

Sobre Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa
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2 respostas a a ponte de Vitor Gaspar

  1. Daniel Ribeiro diz:

    Olá Pedro,
    (corro o risco de me repetir, mas enfim…)
    Apesar da quebra da procura interna ser superior ao cenário por ele traçado no Documento de Estratégia Orçamental e de a procura externa poder não ter o dinamismo pressuposto, ou seja, apesar da recessão ser mais funda e por certo mais duradoura do que naquele documento traçara, o Ministro das Finanças continua a ter fé e a cumprir o rumo que se propôs. Nada de novo.
    Tal como então também agora não consigo compreender com que fundamento espera que da recessão emane um “efeito multiplicador” do crescimento da economia.
    Oxala me engane e com convicção o digo. Mas não é com certeza aquele documento de estratégia nem a fé que nele tem o senhor Ministro que me tranquilizam…
    A “ponte” do senhor Ministro é uma metáfora do “ajustamento / agenda de transformação estrutural” que em si já é uma metáfora da recessão em que vivemos e da triste consideração de que as pessoas (desemprego, para não ir mais longe) são a variável de ajustamento do processo económico.
    Continuando a usar a metáfora do senhor Ministro – o que eu não vejo, nesta ponte, é como se chega à outra margem. Continuo a achar que a travagem está a ser muito rápida e que pode ser muito contraproducente …

    abraço

  2. Rui Pedro Pinheiro Santos diz:

    Caro Pedro Pita
    A equação do governo de contrair a procura interna,sobretudo com a redução salarial, visa forçar um ajustamento também de quem produz. Alternativa de muitos é voltarem-se para o mercado exterior, sob o risco de falência ao manterem-se estáticos. O problema essencial é saber se vamos puder viver sobretudo das exportações, se vai gerar economia interna para sustentar toda a população que vive do mercado interno. Parece-me ser necessário um de dois movimentos, o primeiro, ou o nosso tecido produtivo trasmuta-se para onde existe procura, o que parece não estar acontecer se atendermos aos dados do desemprego( se tivesse essa eficiência, essa capacidade, o emprego estaria a estancar) , que continua em crescente, ou resta a alternativa da emigração. Quando Vitor Gaspar afirma que o ajustamento está a ser mais rápido que o previsto, não deve estar a considerar os dados do desemprego,ou apenas a analisar a balança corrente, que tem melhorado em virtude da diminuição das importações( por desvalorização dos salários reais), e aumento das exportações do tecido produtivo. Mesmo com recessão é possivel pagar dívida, contudo, parece-me no meu juízo limitado, a contração da procura interna pode arrastar-nos para uma situação de desigualdades sociais alarmantes,falência de empresas por falta de tempo para se ajustarem, sem planos de recuperações, sem crédito,lançando no desemprego milhares de pessoas.

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