Scuts superlativas sintéticas

O “importantíssimo” princípio do utilizador/pagador de que falou ontem, a propósito das ex-SCUTS, o Ministro Santos Pereira nesta intervenção em terras algarvias, nao é mais importante, por mais superlativos absolutos sintéticos que o governante use, do que o direito de as não frequentar. Proponho que lhe chamemos princípio do não utilizador/não pagador. Mais do que um direito, seguir este princípio talvez seja a opção cidadã mais acertada se se pretende um modelo de desenvolvimento melhor para o país.

E melhor em todos os sentidos. Ir pelas estradas nacionais é mais bonito, poupa em pneus e combustível, polui menos também, sente-se o Interior de janela aberta, lêem-se os nomes das suas terras, e almoçando muitíssimo melhor, evidentemente com o que não se gastou em portagens, até se contribui para o crescimento económico, economia feita de trabalho a sério, em vez de se alimentar o vaníssimo vício da rentabilidade das concessionárias e construtoras, que, como seria de prever, de acordo com notícia recente, só lucraram com a negociação para a introdução de portagens.

«O Governo aumentou a rentabilidade das concessionárias das ex-SCUT do Algarve e da Beira Interior, detidas em maioria pela espanhola Cintra e pela portuguesa Soares da Costa, respectivamente. A alteração foi efectuada no âmbito da negociação para a introdução de portagens nestas estradas, de acordo com o relatório da comissão de negociação, a que o SOL teve acesso. As taxas internas de rentabilidade (TIR) accionistas subiram de 13,03% para 13,97% na ex-SCUT da Beira Interior e de 7,72% para 8,62%, no Algarve.» (Sol, 25 de Março de 2012)

Não é claro por que razão o estado negociador em Portugal é tão mais brando do que o estado subtractor de rendimentos aos seus cidadãos, mas pelo menos a amaríssima amplitude dessa assimetria encontra uma boa imagem, e explicação, em factos como o de Portugal ser o segundo país da OCDE com mais kms de auto-estrada por mil milhões de euros de PIB; ou ainda: dispondo a pátria apenas de pouco mais de 1% do PIB da UE, que ultrapasse, em aceleração apreciável, os 4% de quota na rede de auto-estradas da UE (reporto-me a um excelente conjunto de posts publicados aqui em 2010).

Essa era a água no bico que trazia o “importantíssimo” princípio do “usas, então pagas”. Para tornar as coisas claras, não contribuir mais para este peditório pode ser mesmo a melhor pedagogia. O princípio “Não uso e não pago” põe a conversa no sítio certo: 1) Que modelo de desenvolvimento económico queremos para Portugal, o das rendas garantidas de privados ou o do crescimento económico sustentável? 2) Faremos do Estado um negociador mais combativo quando se senta à mesa com as concessionárias ou mera correia de transmissão de obrigações financeiras para os seus cidadãos? 3) Deixar-nos-emos de moralismos sobre usos e pagamentos iguais quando o que está em causa é escolher estratégias de desenvolvimento para um país profundamente desigual, ou continuaremos a abusar de superlativos de efeito retórico duvidoso? Fizeram-nas com pouco critério, agora desembrulhem-nas… mas com melhor critério.

 

(fonte)

Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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Uma resposta a Scuts superlativas sintéticas

  1. Carlos Dias diz:

    Estou absolutamente de acordo com o que aqui é dito, conforme podem, aliás, constatar pelo que já há algum tempo escrevi no meu blog, mais concretamente em http://piradodamona.wordpress.com/2011/11/13/cobrana-nas-scut-uma-sofisticada-forma-de-usura/
    e em
    http://piradodamona.wordpress.com/2011/12/03/novamente-as-scut/

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