O Presidente e a imagem dos portugueses

Em 2009, num discurso de 10 de Junho, o Presidente Cavaco Silva pedia aos portugueses que esforçassem a sua portugalidade para enfrentar os tempos de crise social. Atendendo à ambiguidade com que as elites tendem a representar os portugueses, isso mais não significou do que uma licença generalizada para que os poderes políticos recuperassem todos os estereótipos antigos ligados à imagem do povo abnegado. Este governo, é de convir, tem-se servido dela às largas.

Em 2012, a crise social está instalada. Há notícias de fome. Só a inconsciência ou a irresponsabilidade deixaria de esperar, nas actuais condições, o desespero das pessoas. Há alguns dias, lia-se a notícia sintomática de um jovem universitário que, exasperado com os serviços de Segurança Social, chega aos guichets de atendimento e de tesoura em riste corta os cabos de internet de todos os computadores a que consegue chegar antes de ser detido. A indignidade social perfila-se.

Anteontem, por ocasião do 25 de Abril, Cavaco Silva discursava na Assembleia da República. Não trazia o cravo na lapela, pelo menos que se visse nas imagens televisivas, mas trazia a ideia de emendar alguma coisa. O seu discurso sobre a imagem de Portugal, a que os outros têm e a que nós mesmos temos dela, afirmava uma ideia essencial, claramente em contraciclo com a retórica do Governo:

Umas vezes, existe a intenção deliberada de fornecer um retrato negativo do nosso país, de evidenciar apenas uma parte da realidade. E pior do que isso, essa perceção negativa é veiculada internamente, constituindo um fator de desmobilização dos cidadãos e prejudicando as expectativas dos agentes económicos. O 25 de abril dos nossos dias está também em mostrar ao mundo o muito de positivo que o País tem e o respeito que merecemos das outras nações.

Cavaco Silva não diz quem veicula a percepção negativa e quem constitui esse factor de desmobilização, mas sem dúvida diz bem quando articula a percepção negativa à desmobilização dos cidadãos.

De forma mais ou menos explícita, Cavaco Silva subscreve neste discurso (foi sempre assim? E se sim, por que não o disse antes?) uma modernidade portuguesa mais feita de ciência, criatividade, engenhosidade do que de auto-estradas, rotundas e estádios de futebol. Os seus exemplos têm, aliás, muito mais que ver com feitos dos governos PS do que de governos PSD, como logo fizeram notar os jornais de ontem. É particularmente significativo que os feitos portugueses mencionados não tenham sido metas económicas e orçamentais, que na verdade só podem ser entendidos como meios para atingir fins humanos. É bom pôr as coisas no seu devido lugar: as políticas orçamentais ao serviço das pessoas e não o contrário.

Mas, o discurso do PR alimenta ainda as ambiguidades que, adivinhando, evita confrontar. Pelo contrário, presta mais serviço à lógica de governação do Governo.  A escolha do tema de discurso foi a imagem do país no estrangeiro, escolha que, no essencial, vai ao encontro de parte decisiva da actual governação, apostada em fazer chegar ao poder financeiro que mais nos afecta uma certa imagem do país. Exemplos desta ânsia não têm faltado – o Governo precipita-se a eliminar as pontes de Carnaval porque não queria passar à Troika a imagem de um país de velhos comportamentos preguiçosos; o Governo precipita-se a ratificar o Tratado Orçamental Europeu porque importava sobretudo mostrar à chanceler Merkel que iríamos  ser os primeiros a fazê-lo; o Governo orgulha-se de antecipar e redobrar as metas que a Troika e o FMI nos impõem para que nada falhe no retrato postal de Portugal.

Esta ânsia de cumprir uma certa imagem no estrangeiro, refiguração do mito do Portugal bom aluno,  obediente, disposto a nada questionar e a tornar-se docilmente previsível, à espera da recompensa em empréstimos de favor, mas que nunca ficam em conta, é sinal de uma auto-menorização nacional grave. A essa forma de credibilização do país no estrangeiro chama-se subjugação. Nem a Itália, nem Espanha estarão dispostos a tanto. Nem deveriam estar quando se somam evidências, mesmo dentro de fronteiras, de que a política de austeridade por si só não nos salvará.

Um país sem credibilidade externa não passa bem, mas passa melhor seguramente se a credibilidade externa não for, ao contrário das práticas do Governo e da senhora Merkel, docilidade política e subjugação social.  E disto o Presidente da República nada ou quase nada disse quando era  urgente dizê-lo. Era decisivo que se opusesse à descontrução que está em curso da modernidade que o país foi conseguindo esboçar na última década. Mesmo não lhe competindo fazer críticas directas ao Governo, importava que fosse dando sinais para que o Governo nos governe menos a imagem, sobretudo esta imagem, do que as necessidades e a dignidade.

 

(Imagem de João Amaro Correia)

Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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5 respostas a O Presidente e a imagem dos portugueses

  1. Eduardo Dixo diz:

    É interessante fazer uma comparação dos discursos de Cavaco Silva nas comemorações do 25 de Abril deste ano e as do ano passado.

    • André Barata diz:

      Caro Eduardo,
      Não fiz esse exercício e parece-me uma boa dica. Conhece algum link para o discurso de 2011? Um abraço.

  2. Caro André
    Permita-me que cite Thomas Mann, ” Permiti-me que vos diga a verdade : se um dia o fascismo chegar à América, chegará em nome da liberdade.” “Não somos fascistas porque somos um partido que defende a liberdade”.
    3 de Outubro de 1940, Conferência no Claremont College.

    A liberdade é o que fazemos dela, somos um país que tem um governo eleito pelo povo, assim sendo, vivemos em democracia. Como é possível as sondagens continuarem a dar maioria ao governo em funções?
    A “massa” já pensa com o bacilo dessa ideologia, repare o egoismo, a arrogância, não está apenas nos capitalistas.está no povo(há excepções,felizmente). O fenómeno da manipulação de massas aperfeiçou-se fazendo crer aos manipulados que estão a ser livres por escolher. Podemos escolher a educação privada ou pública, hospital privado ou público, qualquer dia sistema de pensões público ou privado, mostrando constantemente o interesse próprio em detrimento do bem comum. Não será isso o pleno desenvolvimento da liberdade humana, ou pelo contrário, de forma sub- reptícia uma forma de servidão em nome da liberdade, como diria Thomas Mann?
    Cumprimentos

  3. André Barata diz:

    Caro Pedro Pinheiro,
    As sondagens talvez reflictam mais as dificuldades da oposição do que as do Governo. Em todo o caso, também me parece que a gravidade do momento histórico que o país está a viver leva as pessoas, por receio e prudência, a alargar a sua tolerância ao desconforto político. Um abraço.

  4. Caro André
    Infelizmente penso que o problema está no que nos divide, na Europa e em Portugal. Não acredito na ideia de tolerancia, antes fosse.
    Cumprimentos

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