A revanche do Pingo Doce

Não sei se terá havido alguma  ilicitude no comportamento do Pingo Doce relativamente às disposições legais que regulam a concorrência. O Pedro Pita Barros já esmiuçou bastante os termos em que essa análise deve ser feita. Parece-me que a ASAE terá de fazer as suas averiguações, não apenas a respeito da possibilidade de ter havido dumping mas, além disso, se a cadeia de supermercados garantiu as condições de segurança e higiene que a Lei prevê para o funcionamento de espaços comerciais com a mesma natureza do Pingo Doce. E quanto a isto, resta aguardar.

Mas não se pode deixar de fazer uma leitura política do que sucedeu.  Pois, essa é que faz escândalo. Assumindo que todos os aspectos legais relacionados com a campanha tenham sido salvaguardados, fica por avaliar a escolha para o dia da campanha: precisamente o dia do trabalhador. Esta foi uma escolha política que não pode deixar de ser avaliada. Com efeito, a campanha comercial poderia ter sido feita num qualquer outro dia, talvez durante um fim-de-semana, mesmo num outro feriado, sem que isso implicasse nenhuma desvantagem para a guerra comercial sem trégua entre Pingo Doce e Continente. Tê-la feito no 1.º de Maio, em vez de noutro dia, não trouxe quaisquer ganhos comerciais. Porquê então no 1.º de Maio?

Em primeiro lugar, precisamente porque assim se torna patente que os ganhos seriam de outra ordem – política, moral, até mesmo de ajuste de contas, como veremos –  e, em segundo lugar, porque se trata de um feriado, que acumula com isso de ser feriado ainda a característica muito relevante de ser o feriado dos trabalhadores. O 1.º de Maio é, simbolicamente, o dois-em-um da luta política contra os feriados. Se a Jerónimo Martins decidiu fazer precisamente a 1 de Maio o que poderia, com igual ganho comercial, fazer noutro feriado, a verdade é que o exemplo vinha de cima. Quando o Governo se obcecou por eliminar os feriados nacionais do 5 de Outubro e do 1.º de Dezembro para conseguir ganhos de produtividade que conseguiria igualmente ganhar se regulasse a prática das pontes,  o sinal encorajador estava dado. A moralidade da história não está em nenhuma equação económica, ou algum preceito de gestão, mas sim no diktat ideológico: os feriados, afinal, não são coisa para respeitar. Que melhor do que uma campanha de descontos para dessacralizar o dia do Trabalhador?

E, contudo, o  1.º de Maio é um feriado com expressão quase universal nas economias desenvolvidas e em países com forte cultura de espaço público.  80 países celebram-no; praticamente todos na Europa o fazem.  Os valores celebrados  neste feriado são os valores ligados à conquista de direitos laborais e, desde que celebrados nacionalmente, não são partidários. Em parte significativa, a história dos movimentos sociais na Europa relaciona-se com  a luta pela consagração desses direitos, como foram a conquista da jornada de trabalho de 8 horas, o direito à sindicalização, o respeito pelos tempos de repouso, a não discricionariedade de tratamento na relação laboral, o direito à justa remuneração. Respeitar o 1.º de Maio é respeitar em grande medida as condições de paz social que conhecemos desde o pós-Guerra por toda a Europa. E compete ao Estado e à Sociedade Civil zelo nesse respeito.

Contudo, o Pingo Doce, ou a Jerónimo Martins, enquanto parte da Sociedade Civil, manifestamente não se achou obrigado a nenhum dever de respeito pelas celebrações do 1.º de Maio.  Ainda que a cadeia comercial abrisse portas, e poderia tê-lo feito apesar do 1.º de Maio, preferiu fazê-lo contra o 1.º de Maio. O convite que a sua campanha de ontem fez à classe média portuguesa, oferecendo-lhe um desconto de 50% sobre um total de compras superior a 100 euros, foi o prato de lentilhas com que a Jerónimo Martins comprou a demonstração revanchista, em dia que se esperaria dedicado à preservação de direitos adquiridos, de que o que move as pessoas é, muitos antes disso, a lógica do benefício económico, a lógica estrita, hiper-realista, sobrevivencial do que se ganha ou se perde. Foi a tentativa de demonstração “tu quoque”  (tu também), pelo comportamento dos seus clientes, de que a Jerónimo Martins não faz moralmente nada de mais, nada que todo o cidadão de classe média não faça. Foi só montar as condições certas, como nos filmes de Lars von Trier. Terá ficado, pergunto-me, no espírito da Jerónimo Martins alguma má-consciência perante uma opinião pública que reagiu com veemência à deslocalização da sua sede para a Holanda?

Simplesmente, esta é uma demonstração que não compro. Para muitos milhares, ser cliente exasperado em filas de horas foi a inevitabilidade deste 1.º de Maio. 50% de desconto pode bem significar o retorno, no final do mês, de um quinto do rendimento disponível, o que é muito para muita gente, não para quem já atingiu o limiar da pobreza (e não dispõe de 50 euros para gastar em compras), mas a tal classe média em vias de se tornar pobre. As pessoas não estão na mesma posição da Jerónimo Martins. Cada vez estão menos, aliás. Uns sobrevivem, outros enriquecem. Mas a Jerónimo Martins, pelos vistos, pretende legitimar-se uma moral da sobrevivência cuja ocasião promoveu ontem em termos que raiaram a obscenidade. Não só fazer passar as pessoas por vergonhas públicas, como bem evidenciaram os media, mas fazer as mesmas pessoas, uma classe média empobrecida, passar pela vergonha de se distrairem do 1.º de Maio, como quis demonstrar (ou activamente não evitou, o que basta para medir o seu dolo moral), em suma, fazer as pessoas passar vergonha, essa é a vergonha maior que o Pingo Doce deveria assumir. A vergonha de perpetrar uma revanche.

Este revanchismo simbólico não termina aqui. É sabido, e a Jerónimo Martins sabe-o bem: os tempos que correm, de crise económica, põem sob pressão os direitos laborais que o 1.º de Maio já não se pode dar ao luxo de celebrar. Vivemos tempos em que os trabalhadores são forçados a prescindir de parte do seu património de direitos. E, no entanto, é exactamente no 1.º de Maio, nem um dia antes, nem um dia depois, que a Jerónimo Martins decide avançar com a sua campanha e fazer de um Dia do Trabalhador amargurado um Dia de Festim, a comemorar o dia todo, com ânsia exaltada, de carrinho de compras empunhado, corredores adentro numa qualquer loja do Pingo Doce, a negação em acto do Dia do Trabalhador.

Na ressaca da festa, ficará a mesma amargura dos dias difíceis que vivemos, e a leve impressão de que, por detrás dos benefícios imediatos para uns e para outros – um carro de compras cheio para milhares de pessoas, uma revanche populista para a Jerónimo Martins – as soluções para os problemas das pessoas ficaram mais longe.

Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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7 respostas a A revanche do Pingo Doce

  1. Joffre Justino diz:

    ASAE, ACT, AUTORIDADE PARA A CONCORRÊNCIA,…E VOU FICAR ENVERGONHADO OUTRA VEZ?
    (OU EXISTE MESMO ESTADO DE DIREITO EM PORTUGAL?)

    Vivemos o tempo do Poder do Dinheiro?

    Será esta a Democracia que vimos nascer entre 1974 e 1983, entre conflitos para que o estatismo não nos dominasse, será que o 25 de Abril e o 25 de Novembro deixaram de importar para valer somente – o dinheiro?

    Vivemos o tempo da absoluta Ganância?

    Vale tudo, empurrar os preços para o cobre-custo somente, (por um dia somente claro), arrasando a concorrência, arrasando os Fornecedores, manipulando a publicidade?

    Vivemos o tempo do total Desprezo pelo Outro?

    Negligenciando totalmente as condições de Segurança das Pessoas nos espaços ocupados pelas organizações mais rentáveis do país, legalmente estabelecidas, pondo-as propositadamente em risco, dando origem a incidentes graves inclusive?

    Vivemos o tempo do achincalhamento do mais Pobre?

    Levando-o, pelo desespero da falta de dinheiro e das baixas expectativas de empregabilidade, a preferir trocar um feriado, o 1º de Maio, por um Consumismo desenfreado, que na realidade não usufruem senão assim, pontualmente, porque num dia, um único dia, os preços foram amarrotados até ao preço de custo?

    Eis, acima, resumidamente, o pacote completo de ilegalidades que pingo doce (e continente?), cometeram ontem, com a cobertura dos media que dizem até que o Dia do Trabalhador virou Dia do Consumidor, mostrando como em Portugal se entende o que é ser Consumidor – um desperdiçador de dinheiro, um jogador em oportunidades “fáceis e baratas”, e não um gestor de rendimentos e de necessidades!

    Eis o que as elites e os seus apoiantes fizeram do país, em imagem pequena claro, e espantamo-nos das Famílias terem, o grau de endividamento que têm, de a Banca ter o grau de crédito mal parado que tem, de os níveis de escolaridade e de qualificação profissional não ter evoluído o suficiente!

    Ver o meu amigo Villaverde Cabral dizer “Em lugar da “revolução” tão desejada…a classe media-baixa portuguesa aderiu a uma campanha de preços…Só não aderiu quem teve vergonha de o fazer…”, deixa-me totalmente, isso sim, envergonhado, perante tanto desejo de uma desregulamentação total, ao ponto de ir à ideia de acabar com duas das bandeiras do Liberal Estados Unidos da América – a defesa do Consumidor e a defesa de uma concorrência antimonopolista!

    Bem, claro que eu não perdi esta triste cena.

    Estive à porta do pingo doce dos Olivais para questionar um membro da policia que já lá se encontrava, com o pingo doce já fechado, diga-se, (só faltava saírem as ultimas e heróicas pessoas que foram salvar o seu mês), sobre o que é que ele tinha feito pela Segurança das Pessoas e dos Produtos expostos, pela livre concorrência e anti manipulação pelos Preços, pelas micro e Pme’s do setor da Distribuição, incapazes de poderem responder a esta manipulação de Preços de um dos 3 mais ricos de Portugal que estão entre os 800 mais ricos do Mundo, (imaginem, (!), este país pobre tem 3 entre os 800 mais ricos do Mundo, quando tem o SMN mais baixo da UE e o Salário Médio mais baixo da EU)!

    O referido membro da PSP responde-me dizendo que vivíamos em Democracia…o que não abona muito no Estado de Direito que temos diga-se.

    E, claro que não basta que a ASAE diga que está atenta à situação!

    Temos em causa ilegalidades que envolvem a ASAE, a ACT e a AC e são, como vemos, demasiadas ilegalidades para serem esquecidas!

    Dirá se calhar o meu amigo Villaverde Cabral que são ilegalidades só porque vivemos em Portugal, este estatista país, e eu respondo que não é verdade que são ilegalidades em Portugal, na merkeliana Alemanha, na sarkoziana França, como eram no Reagan/Bushiano EUA!

    Só que lá, estas ilegalidades são levadas a sério, e os jornalistas nem se atreveriam a confundir um ato de consumismo exacerbado, como sucedeu no 1º de Maio, com um ato de consumismo consciente, responsável, de gestor de rendimentos de uma Família.

    Por isso, lá, quando se fala de uma “bolha” na economia, seja na informática, seja no imobiliário, fala-se mal ela surja, em apoio e dando boa, adequada e atempada informação ao Cidadão, e não como cá que estando com a bolha do imobiliário rebentada desde 2009, pelo menos, nem hoje se assuma tal!

    Não, o 1º de Maio de ontem não foi o dia do Consumidor, houve sim quem o tivesse querido, ilegalmente e contra a economia de mercado, transformar no dia do consumidor exacerbado, do consumidor inconsciente, abusando das limitações da classe média baixa e da classe baixa portuguesa e gerando de novo a ideia de que estamos num país rico com gente rica, o que só afeta a forma de gestão dos Rendimentos das Famílias em especial a menos conscientes dos seus limites!

    Foi realmente um ato que pôs em causa a necessidade de alterar as mentalidades consumistas exacerbadas em Portugal, que empurrou já um nº tão significativo de famílias para o incumprimento, para o agravar da sua Crise e gerou significativas dificuldades à Banca em Portugal!

    Foi um ato que pôs em causa as micro e pequenas empresas, a ainda maioria no setor da Distribuição, que não tem condições de concorrer com este amarfanhamento dos Preços, (num dia que seja), e que tendem por isso a encerrar, pondo em causa ainda mais famílias que destas mico e pequenas empresas vivem, que põem em causa, mais ainda, os rendimentos e a sua Distribuição em Portugal.

    Por isso, este ato pôs em causa os princípios da economia de mercado, pois a mesma, não existe para servir as muito grandes e as grandes empresas, existe para servir os Consumidores primeiro, e a generalidade das empresas a seguir, num são principio de concorrência e não de destruição do parceiro por via de politicas comerciais abusivas e num são cumprimento de regras por todos aceites, na Segurança, nos Preços, no ato de Consumir!

    Grave ainda é o que Villaverde Cabral assume “Da parte do pingo doce é também uma questão de gestão de stocks”!

    O que significa tal frase?

    Terão sido entregues aos consumidores, no meio do caos gerado, produtos fora de prazo?

    Se sim, estaremos perante mais uma grave ilegalidade, face à Saúde Publica… se não, será que não existem regras para os Saldos?

    Eu pensava que sim…

    Joffre Justino

  2. Jorge diz:

    Gostei da sua análise. Deu forma a uma sensação de mal estar que tinha sobre o assunto mas que não conseguia verbalizar correctamente.

  3. Pedro Lérias diz:

    Explique ao professor catedrático de economia que adorou ir ao Pingo Doce no 1º de Maio que a margem de um produto que duplica de preço é 100% e não 50%. Uma pessoa imagina que ele deveria saber, mas face à felicidade que mostrou aqui no blogue em participar na campanha a pessoa questiona-se…

    • Caro Pedro Lérias,
      expliquemos, um indicador comum de poder de mercado é a chamada “price-cost margin”, frequentemente usada quando se caracterizam casos de concorrência, e é definida como
      (preço – custo marginal)/preço (calculo que pelo seu conhecimento não lhe precise de explicar o conceito de custo marginal)
      se o desconto é de 50% sobre o preço praticado, e com esse preço não tiverem prejuízo (visto como preço acima de custo marginal, umas das formas habituais de definir), então custo marginal tem como aproximação 50% do preço de partida,
      pelo que este indicador de “price-cost margin” tem o valor de 0,5 ou 50%.

      Pelo seu comentário, pressuponho que esteja a pensar unicamente na margem estabelecida sobre o custo marginal; é outra
      forma de falar de margens, e de uma definição chega-se à outra de forma rápida. É livre de escolher a que mais lhe agrada para a discussão. Espero ter esclarecido.

  4. André Barata diz:

    Caro Joffre Justino, agradeço o seu testemunho; caro Jorge agradeço o seu cumprimento; caro Pedro Lérias, se se refere ao meu parceiro de blogue, Pedro Pita Barros, pode fazer um comentário no seu próprio post. Certamente responder-lhe-á com todo o gosto. Cumprimentos cordiais.

  5. Jorge Bravo diz:

    Mas porque será que este fenomeno de massas, na actualidade, me fez lembrar de imediato e antes de qualquer outra consideração “They Shoot Horses, Don’t They?” do Sydney Pollack?!

  6. Ontem no jornal Público, era exposta uma apreciação do caso pelo Manuel Villaverde Cabral:

    «No meio de toda a polémica, entre críticas e elogios, o sociólogo Manuel Villaverde Cabral não deixa de encontrar uma “ironia suprema” na campanha pensada pelo Pingo Doce. “Estas coisas não se podem fazer duas vezes. Foi fantástico do ponto de vista simbólico e metafórico. É o trabalhador versus consumidor, as duas qualidades estão na mesma pessoa. E hoje a segunda figura é mais importante”, diz.»

    Ora, se me perguntassem “Hoje a figura do consumidor é mais importante do que o trabalhador” ? eu responderia que não, clara e enfaticamente que não. Essa era a demonstração que o Pingo Doce pretendia fazer fazendo a sua campanha exactamente no dia 1 de Maio. Mas não é assim. O consumidor maximizou o valor do desconto (não do consumo); e maximizou o valor do desconto sobretudo pela razão de que é trabalhador cada vez mais precário, ou, mesmo, porque queria ser trabalhador, sendo desempregado, e em todo o caso cada vez mais pobre. A ironia suprema não é o Pingo Doce superiorizar-se às Lisnaves e ao Vale do Ave de outros tempos; pelo contrário, evoca-os. A importância revelada não é a do consumidor, mas a do consumidor de descontos que não está em condições de ser consumidor, normalmente consumidor. E as razões disso são as de sempre: trabalho ou a falta dele.

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