Porque é preciso fazer mais? A propósito do Manifesto para uma Esquerda Livre

É tempo da esquerda reencontrar a sua sociedade civil. Como as coisas estão, o país encaminha-se resignado para o abismo social. Governos nesta Europa aflita derrubam as práticas de solidariedade para impor, à custa de precariedade e empobrecimento social, uma «cultura do risco» – foi assim mesmo que Passos Coelho lhe chamou há dias. Para os idólatras do risco, “igualdade de oportunidades”, “democratização da economia” apenas significam, em claro abuso semântico da linguagem política, constranger a sociedade à perda de direitos sobre o seu próprio futuro. Ter uma ideia de futuro é só mais um desses direitos adquiridos a que, na lógica do risco produtivo, as pessoas não deverão ter mais direito.

Um esquema societário da subtracção hegemoniza-se sob o fundamento duplo de que, na ordem dos factos, o mundo não basta para todos e de que, na ordem dos valores, não devemos dar por garantido nenhum direito adquirido quanto à existência digna. A própria expressão “direito adquirido”, associada a conotações de privilégios perpétuos injustificados, perverte a missão do direito. Sem direitos adquiridos, não há direito justo.

A pretexto da gestão da escassez temos sido forçados à ausência de projectos, à abstenção preventiva da vontade e ao entrincheiramento defensivo do interesse. Como resultado, a sociedade canibaliza-se na forma de exclusões e desigualdades. Não restam outras oportunidades além da cobiça, cada vez mais liberta de constrangimentos, dos “direitos adquiridos” alheios. Liberaliza-se a empregabilidade das vidas até à incerteza do dia seguinte, o humano relativiza-se face ao absoluto da eficiência, as pessoas perdem o direito à indisponibilidade. O medo antecipa reacções prejudiciais ao interesse próprio, amplificando, com intensidade, o canibalismo social. O interesse fecha-se sobre si mesmo, em modo de reacção exacerbada, mas sem outro ponto de vista além do seu particularismo. Falta-lhe a perspectiva de uma vontade constituída, ponto de vista genuíno; falta-lhe ser janela com vista que dê sentido a uma racionalidade cingida à sua feição instrumental. É justamente a ausência de uma vontade que nos condena a instrumentos uns dos outros com o pretexto da maior eficiência do sistema. Mas, claramente, não há equivalência nenhuma entre este sistema eficiente e uma sociedade justa ou, pelo menos, minimamente decente.

Portanto, porque a primeira condição para não nos condenarmos é não nos condenarmos à sobrevivência, há que reencontrar os caminhos de uma vida que nos projecte fins a perseguir, há que reencontrar o sentido moderno de uma autonomia do humano, que para si mesmo escolhe uma lei, um projecto, e não se resigna ao jugo da subtracção da existência, dada, como ídolo da precariedade, ao consumo de um capitalismo canibal. Escolher é hoje escolher não sermos sobreviventes e, pelo contrário, resgatar o direito a um futuro.

Neste regime societário da subtracção, também se instalou a adversidade à própria vontade de escolher. Fazem-se ainda escolhas, mas como se não o fossem, como se fossem inevitabilidades determinadas por estilos de vida passados, esses sim escolhas, na verdade más escolhas, a penalizar. E, previsivelmente, elegem-se bodes expiatórios: governantes passados são diabolizados; mas também a comunidade toda, posta no patíbulo da reprovação por ter “vivido acima das possibilidades”.

Mas nem o futuro passa sem um direito ao futuro, nem o presente passa sem um exercício de escolha. Para a esquerda, seja ela qual for, a emancipação é um valor – uma premissa de igualdade de direito mobilizava-nos contra uma existência de desigualdade, como quando Rousseau afirmou “L’homme est né libre et partout il est dans les fers´”. Nos tempos que correm, a esquerda da emancipação tem de se confrontar com um cenário invertido – as pessoas vivem estilos de vida adquiridos a que não têm direito, ou cujo direito terão de ganhar, mesmo que estejamos a falar de direitos básicos como emprego, saúde e educação. O trágico nestes tempos árduos é não estarmos mais a debater a igualdade ou desigualdade entre homens, mas tão-só o direito à existência digna.

Enquanto a Esquerda significar emancipação, futuro e escolha, é exigível que esteja à altura deste combate, que é também um combate pelo sentido das palavras, contra a sua apropriação para fins imobilistas, de resignação e conformação, por exemplo, face à condição doravante precária do trabalho. O recente elogio de Passos Coelho às propriedades benéficas do desemprego ao menos tem o mérito de exemplificar com clareza cristalina este combate:

Estar desempregado não pode ser, para muita gente, como é ainda hoje em Portugal, um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma, tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma livre escolha também, uma mobilidade da própria sociedade.

Este não é mais um deslize de linguagem. Pelo contrário, é apenas a última formulação de um pensamento ideológico, e de convicções de direita, dito às escâncaras, a toda a hora e em toda a ocasião, solene ou ligeira. Diante disto, a esquerda não pode assistir atónita. É preciso fazer  mais, muito mais.

O Manifesto para uma Esquerda Livre, que eu acompanhei e subscrevi, propõe-se ser contributo franco para isso.  Somos pessoas de esquerda, de uma sociedade civil que não é feita de banqueiros e corretores de bolsa, mas de cidadãos que sentem esta crise, cidadãos com ou sem partido,  movidos por um objectivo: alcançar uma esquerda capaz de estar à altura desta crise, e da direita ideológica que a alimenta e a tem gerido a seu bel-prazer.

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Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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8 respostas a Porque é preciso fazer mais? A propósito do Manifesto para uma Esquerda Livre

  1. António Betâmio de Almeida diz:

    EStou de acordo e já me associei ao Manifesto.

  2. António Betâmio de Almeida diz:

    Bem, permitam que diga um pouco mais sobre o Manifesto. Espero mais do que a mera assinatura do mesmo. Espero que ele seja o embrião de um movimento que faça brotar ideias alternativas consistentes e o mais possível integradas ou coordenadas. Um movimento que não seja só de notáveis mas que com eles possa motivar os que desconhecem o texto do presente “Manifesto”. É para eles que esta acção deve também ter sentido e utilidade. Espero que seja o embrião de um movimento concertado (com alguma coordenação) que promova reuniões e reflexões que sejam sementes que germinem e que consolidem atitudes firmes que possam atingir objectivos, através da palavra e das ideias. Espero que receba a experiência de cada um na defesa de uma maneira de encarar a Sociedade que considerarmos mais justa e globalmente eficaz. Espero que crie relações com outros movimentos europeus para que possamos ser mais certeiros e fortes. Eu sei que tudo isto não é fácil, num tempo em que o “já” é o mais premente. O tempo das tertúlias intelectuais que aprofundavam com calma as questões parece ter passado mas eu espero que as capacidades actuais de comunicação possam potenciar a criação e a mobilização de redes do pensamento activas e suficientemente poderosas, que vençam o véu do unanimismo e das inevitabilidades negativas. Que promovam um sobressalto emocional e inteligente. O isolamento das esquerdas na Europa é algo que não deveria continuar. Os preconceitos grotescos sobre os povos não deveriam ter a cobertura das esquerdas. Espero que não me engane e felicito os promotores!.

  3. Caro António Betâmio de Almeida,
    Agradeço o seu excelente comentário, rico de sugestões e que, permito-me dizê-lo, vai bem ao encontro das nossas melhores intenções. Como muito bem diz, faz falta um “sobressalto emocional e inteligente”. Talvez tenha notado que já amanhã haverá uma apresentação pública do Manifesto, pelas 11h30, no cinema S. Jorge. Além dessa apresentação, dia 2 de Junho realizar-se-á um primeiro evento com a perspectiva de apresentar ideias concretas e de as debater publicamente. Apareça!

  4. António Betâmio de Almeida diz:

    Está na minha agenda!Irei bater à sua “porta”.

  5. Caro André Barata
    Felicito-o pela iniciativa, vamos ver as reações da comunicação social, infelizmente um actor demasiado importante ainda hoje em dia….

  6. jdanielribeiro diz:

    Olá André,
    Gostei de ler este teu post. Também já li o Manifesto. Gostei mais de ler o teu post.
    Concordo com a ideia de construir um Portugal mais igual e uma Europa mais fraterna.
    Mas confesso que percebo menos a ideia de ‘uma esquerda mais livre’ (título do manifesto), tanto mais quando se quer ‘liberta das suas rivalidades’. Será que o mote em título nao reproduz essas rivalidades? Mais livre do que quê? Mais livre do que quem?
    … porque nao só um manifesto pela esquerda, pelos valores da esquerda?
    Nao sei… posso estar a ver mal…
    um abraço
    D

  7. Olá Daniel. Desculpa só responder agora. Há sem dúvida um ponto de vista crítico sobre as esquerdas partidárias ao querermos delas mais coragem e menos conformação aos papéis que entre si repartiram no espectro partidário. Mas esta é uma crítica construtiva de pessoas de esquerda, com ou sem partido, que se reconhece nela. Não é, de todo, uma posição rivalizadora. Pelo contrário, queremos estimular e pressionar as esquerdas partidárias e as suas agendas políticas. Nem me parece que até ao momento alguma reacção relevante noutro sentido tenha surgido.

    Por outro lado, o sentido da ideia de uma esquerda mais livre é ser livre para alguma coisa, liberdade positiva, e não tanto ser livre de alguma coisa, à maneira da liberdade dos liberais. Queremos uma esquerda livre para estar à altura desta crise e desta direita ideologicamente muito vincada a quem atribuímos responsabilidades que, geralmente, são, imputadas a outros, sejam govérnantes passados, sejamos nós, que nos limitámos a conduzir as nossas vidas.

    Finalmente, para uma esquerda livre pensamos uma esquerda mais abrangente, que consiga alcançar o pluralismo da sociedade civil e concretizá-lo em propostas. Uma vez mais não para as opor a partidos, mas para pôr no debate político.

    Um abraço!
    André

  8. Jorge Bravo diz:

    Apoiado!

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