Bom dia tristeza.

Às vezes a escola é difícil. Muito difícil. É difícil quando o filho prefere ficar em casa a ir para a escola, quando gosta dos recreios e se aborrece infinitamente na sala de aula, quando já toda a gente sabe que ele vai ter uma má nota no próximo teste, quando os professores não encontram ponta por onde se pegue para o elogiarem, quando é irrequieto, inquieto, impaciente. Quando ninguém percebe o que se passa.

Nem mesmo ele próprio. Mas valerá a pena ter um diagnóstico? Como défice de atenção, por exemplo? Trata-se de um termo demasiado banalizado e desprezado. Basicamente a resposta da escola é sempre a mesma: Só não faz porque não quer. Quando quer, revela ter capacidades. Os alunos aqui são todos tratados da mesma maneira. A nossa escola é democrática e justa. Não pode haver excepções.

De nada serve explicarmos que o nosso filho não é igual aos outros. Que, se fosse assim tão simples, ele se empenhava nas tarefas, fazia os trabalhos de casa, estudava com algum gosto e tinha as mesmas notas que os outros. Ou alguém acha que um bom aluno é bom aluno à custa de muito sacrifício? Tem a sorte de a escola fazer parte dos seus interesses e tem a sorte de gostar de aprender o que lá ensinam. E mesmo que não se empenhasse muito, nos primeiros anos bastava estar com atenção nas aulas e pouco mais. Seria um aluno regular. Para a maior parte das crianças a escola não é assim tão difícil.

Levaram-me as circunstâncias da vida a ter cada vez mais conversas com pais desesperados, que pura e simplesmente se sentem completamente impotentes para ajudar os seus filhos em relação à escola. Muitas vezes desde o primeiro momento, desde o momento em que os filhos trouxeram a primeira nota negativa no primeiro teste que fizeram no primeiro ano de escolaridade, aos cinco ou seis anos, parece que o problema se instalou. Ajudam-nos nos estudos, fazem com eles os trabalhos de casa, sacrificam momentos de lazer para apoiar os filhos nas tarefas escolares, mas o problema é constante. As negativas sucedem-se e as queixas dos professores também.

Estou a falar de crianças para quem as actividades escolares são um castigo permanente. Não sabem organizar as tarefas que lhes são pedidas, não percebem o que a escola quer delas, perdem-se quando postas perante uma folha de teste. Podem saber a matéria na ponta da língua, mas ali, naquele momento, daquela maneira, nada flui.

Dizer que há crianças para quem fazer um esforço de concentração é particularmente difícil, quando essas mesmas crianças não revelam qualquer cansaço para montar complexas construções de lego ou se empenham com afinco numa complicada tarefa à qual se dedicam entusiasticamente, tem algo de zombeteiro.

E é por isso mesmo que se torna tão difícil defender a sua causa. Como justificar que elas podem ser brilhantes quando se sentem motivadas para o que estão a fazer? Como explicar a um professor que a criança só é capaz de colaborar se gostar dele, que só é capaz de executar bem uma tarefa quando o assunto lhe interessa? E, note-se, não é pequeno o esforço que ela faz quando se dedica a uma tarefa de corpo e alma!

E mesmo quando ajudadas, quando têm alguém ao seu lado que as acompanhe de perto, surpreendem-nos com a vontade que demonstram em ser como os outros, em conseguir cumprir o que lhes é pedido. E que pena que a escola, que a todos avalia por igual, seja incapaz de olhar para aquela criança, para qualquer criança, e não veja nela a alegria e o entusiasmo que a acompanham fora da sala de aula, quando se diverte com os amigos, quando brinca no recreio e experimenta a vida.

São normalmente adultos tristes, frustrados e resignados que debitam a mesma ladaínha: as turmas são demasiado grandes, não podemos andar com eles ao colo, os programas do ministério são demasiado extensos, temos de os preparar para os exames, os pais têm de os motivar para a escola…

O aumento da escolaridade obrigatória para 12 anos, o discurso dominante de mais exigência no ensino, a defesa de que haja mais exames, os fracos recursos das escolas para fazerem honestamente face aos numerosos casos de insucesso escolar, a falta de preparação e motivação dos próprios professores para encontrarem soluções para os problemas que diariamente enfrentam são razões mais do que suficientes para nos preocuparmos seriamente com o sentido da escola hoje. Não haverá alternativas?

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11 respostas a Bom dia tristeza.

  1. Zé Maria diz:

    Eu já não sei por que razão comecei a seguir este blog, mas hoje descobri aqui as mesmas inquietações, a mesma discordância do sistema actual. Nós temos 3 filhos, estando apenas a mais velha já no ensino obrigatório, mas estamos fartos de escolas e do sistema Crato. Há alternativas, claro que há, nós estamos a equacionar uma: homeschooling. Dá muito trabalho, obriga a família a dispensar um ordenado, mas parece-nos ser um sistema que funciona melhor do que o actual ensino industrial. Investigue. Vá em frente. As crianças merecem ser felizes e o mundo do futuro não será para marrões por obrigação. É o que eu acho.

  2. Daniel Ribeiro diz:

    Boa noite Cristina. De facto é triste mas não podemos ficar tristes. É preciso ir em frente, como diz o comentador anterior. Ir em frente, de lado, de qualquer modo, mas ir… empurrar, que esta mágoa e esta lógica não hão-de ganhar-nos.
    Também só nesta paróquia é que se lembrariam que os preconceitos de um professor de matemática eram mesmo o que faltava para decidir da Educação de todos nós….
    bjs
    D

  3. mario olivares diz:

    cristina, como pai passei essa situação, não ha alternativa senão em nos próprios, a familia, os pais, organizarem-se para exigir a escola que pagam com os seus impostos e criar curriculos alternativos em casa, incentiva-los na leitura, na cultura, no desporto, no prazer do saber, isso exige dos pais tempo e dedicação. Devemos exigir melhores professores, mais dedicados, melhor preparados, mais disciplina no ensino, a alternativa ao ensino fabrica ainda não existe e exigiria muitos recursos, mas participando na escola, contactando con os professores, com outros educadores e encargados de ensino se pode melhorar, num diálogo permanante, não tudo esta mal, mas longe de estar bem, obrigado pelo seu post.

  4. Aremandus diz:

    Bonjour tristesse…

  5. Só queria deixar uma ideia, tive uma educação em que respeitavamos o professor, sabíamos como estar numa sala de aula, eramos constrangidos a isso, e posso dizer-lhe que ajudou-me e muito na minha vida profissional ter que obedecer, compreender que temos de respeitar as normas de uma instituição. Educar implica constrangimento, pois é, a ladainha que devemos apelar a múltiplos métodos para cativar os alunos, colocar constantemente em pressão o professor, tem contribuido a passos largos para uma sociedade com falta de civismo, e sobretudo para o desenvolvimento de um individualismo narcisico que destroi qualquer espécie de cultura. Também tenho filhos, contudo compreendo, que têm de lutar perante as adversidades, pois é isso que os espera num futuro próximo e, não a comtemplação de professores de uma busca inglória, muitas vezes, de algo que motiva este e aquele aluno. Quando chegar a uma organização, vão dizer-lhe o que tem de fazer, tem de anuir e aprender a aceitar as regras, embora como é óbvio abro espaço para um diálogo reciproco. Confude-se democracia com o meu individualismo, a reciprocidade é fundamental, contudo, penso ser decisivo para a sua vida futura a compreensão que há leis que ultrupassam e condicionam a sua liberdade. E sobretudo, algo que se está a perder, em todos os níveis da sociedade: Os outros existem.

  6. Zé Maria diz:

    Pedro Pinheiro, ao contrário de si eu não acho que tenhamos que respeitar as normas de uma instituição. Eu acho que temos que respeitar o que é respeitável e contestar o que não é. Tenho tido alguns dissabores com esta forma de estar na vida, mas acho que essa é a forma de fazer avançar o mundo. Isto não tem nada a ver com individualismo, nem com narcisismo, nem com falta de civismo. Aliás, uma das piores influências que a escola pública tem tido sobre os meus filhos é justamente nesse aspecto do civismo e da educação (num sentido lato). Muitas vezes, nem os funcionários se salvam.
    Dizer que está de acordo que os seus filhos sejam infelizes na escola, porque inevitavelmente o serão na vida profissional é um argumento que me arrepia. Eu acho exactamente o oposto. Acho que é porque os fazemos tolos na escola que eles seguem por vias profissionais que os tornam infelizes, obedientes e desprovidos de criatividade e motivação. Cabe-nos a nós inverter essa lógica.
    Eu desejo que os meus filhos adquiram os conhecimentos necessários para aquilo que imaginamos que venha a ser a sua vida profissional, de uma forma feliz, motivada, interessada e adaptada à forma de aprender de cada um. Isso é possível, conheço casos.
    Na nossa família estamos seriamente a considerar tirá-los da escola. É o nosso sonho. De resto, nos casos de famílias que conhecemos que já enveredaram por essa via, posso-lhe dizer que as crianças são igualmente sabedoras, mais educadas, mais interessadas e muito mais interessantes do que os seus pares que estudam em escolas públicas.
    Se falarmos em escolas públicas (uma vez que nem toda a gente pode suportar colégios privados, onde o modelo educativo pode ser de alguma forma “escolhido”), estou absolutamente convencido que os meus filhos são melhor educados pelos pais do que pela generalidade dos técnicos e docentes dessas escolas.

  7. Caro José Maria
    Partindo dos seus pressupostos, a escola pública torna as pessoas infelizes, não educa, pelo contrário, corrompe,são desobedientes, não promove a criatividade, encaminha-os para profissões mediocres ou como diz obedientes…
    Bem, tudo isto significaria que todos nós educados na escola pública temos todos esses atributos negativos, o que lhe garanto que é uma barbaridade.
    Por outro lado, algumas das suas afirmações agaram-se a um individualismo preocupante, como, “é o nosso sonho”;”imaginamos que venha a ser a sua vida profissional”.
    Compreendo que queremos o melhor para os nossos filhos,mas é no esforço incutido( que pode ser por si, obviamente), e não na satisfação que pode estar a virtude da educação, já Cervantes dizia que “el camino es mejor que la posada”. O que penso é que esse caminho deve ser feito em comunidade, partilhando valores, construindo uma cultura comum. Obedecer não implica a anulação do indíviduo, mas abre espaço para o reconhecimento dos outros, decisivo para possuir uma postura ética. Depois de compreender bem uma estrutura de uma instituição, então dialogar num sentido crítico, em que todos possam beneficiar com essa intervenção. Esta postura nunca tornou infeliz pelo contrário, e possibilitou agir de forma ética, reconhecendo o valor dos outros, e abrindo espaço para reconhecerem o meu. Não vejo que esta fórmula seja a infelicidade de ninguém….

  8. Não deixa de ser curioso que a maior parte das conversas sobre educação acabe numa espécie de beco sem saída em que aparentemente há opiniões que divergem de tal maneira que não parece haver entendimento possível.
    Sugiro pois que se comece por discutir alguns conceitos, cujos significados tão facilmente damos por adquiridos e que, por isso, logo inquinam qualquer conversa, antes mesmo de se chegar a falar do que interessa. Falamos todos da mesma coisa quando falamos de esforço? E achamos todos que esforço se confunde com sacrifício? O que significa afinal ser exigente com os alunos? Faz sentido exigir sacrifícios? Ou não estaremos antes a pedir que os alunos façam um esforço para alcançar determinados objectivos? E será possível alunos diferentes chegarem aos mesmos resultados com o mesmo esforço? Um professor exigente será aquele que pede muitos trabalhos?
    Pessoalmente acho que é aqui que reside grande parte da confusão. Parece que àqueles que defendem a autoridade na escola se opõem aqueles que aceitariam um certo laxismo. Como se aqueles que desejam uma escola aberta e inclusa não pudessem ser os mesmos que dela exigem rigor e transparência. Aliás, um dos grandes problemas das escolas portuguesas neste momento é o de se verem confrontadas com a necessidade de conciliar um discurso tendencialmente autoritário e conservador, que a todos trata de igual modo, exigindo cada vez mais trabalho, com a obrigação de cumprir metas no combate ao insucesso escolar, o que, por sua vez, só pode ser feito com seriedade a partir de um sistema capaz de diferenciar os indivíduos e de identificar em cada um deles as capacidades que lhe vão permitir superar as suas dificuldades específicas.
    Há professores que se acham exigentes. Mas sê-lo-ão realmente? Ser exigente implica em primeiro lugar explicitar bem aquilo que se exige. E implica também saber ensinar ao outro como pode corresponder à exigência. E pressupõe que se seja capaz de reconhecer o esforço de quem procura cumprir. Não é possível exigir trabalho sem primeiro fornecer as ferramentas. E não é possível ser justo quando se trata a todos por igual. Ser exigente é acreditar que o outro sabe e pode fazer melhor.
    Quantos professores não pedem trabalhos, individuais ou de grupo, sem nunca terem ensinado como se faz uma pesquisa ou estrutura um discurso? Se um aluno não sabe, tem de ser ensinado. Independentemente do grau de ensino em que se encontra. Não me parece admissível que um professor parta do princípio de que o aluno já saiba o que era suposto ter aprendido anteriormente. O processo de aprendizagem não é linear e a um professor nunca devia ser permitido demitir-se da sua função de ensinar. Sobretudo a quem apresenta uma maior fragilidade.
    Ao remeter para os encarregados de educação o cumprimento de tarefas como o acompanhamento nos trabalhos de casa, o apoio no estudo e a recuperação de matérias não assimiladas, a escola não está a ser exigente. Revela apenas a impotência de quem já não sabe qual é o seu lugar. Não é ainda um convite ao homeschooling, mas é talvez um convite para nos organizarmos enquanto encarregados de educação e de sermos agora nós a exigir à escola que nos ajude a cumprir melhor a nossa tarefa de educarmos os nossos filhos.

  9. Autor diz:

    Cara Cristina,

    Peco por não me comover com a situação de quem tem saúde para trabalhar. Sou assim, fui educado assim. No fundo acho que estou certo, pelo que quando digo “peco” estou a ser falsamente humilde. Mas digo “peco” porque me parece ser pecado não me comover com quem tem saúde para trabalhar.

    Já o mesmo não se pode dizer com o que diga respeito a crianças. Já o mesmo não se pode dizer com este seu post. Está simples e brilhante. Simplesmente brilhante. Comovi-me. Pela minha saúde, comovi-me mesmo. E não foi apenas com a situação destas crianças, e por tudo o que esta situação acarreta para o seu futuro. Talvez por ser pai, senti o desespero do pai que não percebe como pode ajudar o quem ama.Soluções? Infelizmente não tenho nenhuma. Muito do insucesso não passa por falta de sorte. Todos testemunhamos a forma, mais legítima ou menos, como pais delegam na escola a educação dos seus filhos. Percebo quem cujas vidas não permtie outra coisa. Mas percebo-os porque estão em minoria. Para muitos, todos conhecemos demasiados exemplos, são opções preguiçosas que se tomam. Mas o azar existe, e esse não há trabalho que valha.

    Pelo meu lado, tenho a extrema felicidade de ter duas filhas que, como diz e bem, têm a sorte de gostarem da escola, dentro e fora da sala de aula. Sou afortunado e espero que tal não seja pecado. Dou graças todos os dias, já por isso. O seu post apenas me relembrou dessa felicidade que me assiste. Parabéns por estas palavras.

    Não tenho um post para retribuir à mesma altura. O meu Antologia de Ideias tem um bias económico-financeiro. No entanto, deixo aqui um post sobre este tema. Teria todo o gosto que comentassem. Já agora, se me quiserem listar na vossa lista de blogs, eu farei desde já o mesmo com o vosso. Parabéns e aqui fica link para o “Educação: Literacia, Numeracia e Arte”:

    http://antologiadeideias.wordpress.com/category/educacao/

    Bem hajam todos,
    O Autor

  10. Cara Cristina
    Com todo o respeito vou deixar-lhe uma ideia de Ortega e Gasset sobre obrigação,esforço e liberdade.
    ” Mimar é não limitar os desejos, dar a um ser a impressão que tudo lhe é permitido e a nada é obrigado. A criatura submetida a este regime não tem a experiência dos seus próprios confins. À força de lhe evitarem qualquer pressão em redor, qualquer choque com os outros, chega a acreditar efetivamente que só existe ele, e acostuma-se a não contar com os outros, sobretudo a não contar com ninguém superior a ele. Esta sensação de superioridade alheia só lhe podia ser proporcionada por quem, mnais forte que ele, o tivesse obrigado a renunciar a um desejo, a reduzir-se, a conter-se.Assim teria aprendido esta diisciplina essencial: Aí termino eu e começa o outroque pode mais que eu.”
    EU pergunto esforçar-se para quem??PORQUÊ?
    Se não tivermos um paradigma de uma sociedade melhor nada vale, tudo o resto são jogos de linguagem, como diria, wittgenstein.
    Cu mprimentos

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