comentários no reino…

Enviaram-me há pouco um texto que foi colocado online por André Freire (mas a que não consigo aceder directamente), e que transcrevo:

“Uma Faculdade (a de Economia da UNL) que há muito deixou de ter qualquer pinga de pluralismo cientifico-disciplinar… sendo este último uma condição sine qua non da cientificidade das instituições universitárias, podemos então concluir que há muito que a U. Nova – Economia passou a ser uma espécie de Think Tank liberal pago com os nossos impostos e que também ministra cursos (ideologicamente enviesados… só pode…) Ver «Nova, l’université du consensus : Le petit monde du libéralisme portugais»” (copiado de mensagem recebida, que assumo ser correcta)

Não posso deixar de ficar surpreso, e pelo menos curioso. Sendo docente na referida faculdade (declaração de conflito de interesses relevante para este post), antes de comentar em detalhe tenho muita curiosidade em saber as definições de André Freire para:

– pluralismo cientifico-disciplinar

– cientificidade de uma instituição universitária

Aliás, tenho curiosidade de saber se André Freire consegue indicar três nomes de investigadores da Faculdade (a de Economia da UNL). Só para saber se comenta sabendo o que se faz na faculdade ou se simplesmente se baseia em preconceitos (quais só ele poderá dizer).

Ganhei pelo menos o conhecimento de que estou envolvido em cursos ideologicamente enviesados, embora o “só pode…” de André Freire remeta para que nem se tenha dado ao trabalho de se informar sobre o conteúdo das matérias ministradas e dos cursos oferecidos. Também aqui fiquei interessado em saber o resultado da “auditoria ideológica” feita por André Freire aos cursos da Faculdade de Economia da UNL. Ooops, talvez o uso da palavra “auditoria” denote desde logo um enviezamento ideológico?

Escrever um texto na base em que André Freire o faz demonstra apenas vontade de atacar uma Faculdade. Gostaria de saber porquê. E se se insere na sua actividade académica ou política. Compreendo que o comentário de André Freire foi feito num ambiente “fechado”, mas não me parece que justifique o tom e o conteúdo.

Outro comentário “curioso” surge no blog jugular, a propósito de um cálculo chamado “Dia da Libertação dos Impostos”. (Declaração de conflito de interesses: não participei no cálculo desse valor, apesar de pertencer à mesma escola) O tom do post é perfeitamente demagógico, não se percebendo porquê. O cálculo do dia da libertação dos impostos tem como objectivo dar de uma forma simples uma visão do peso da despesa pública na economia. Não implica qualquer presunção sobre qual o seu valor adequado. E por chamar a atenção leva precisamente a que as pessoas se questionem sobre como é utilizado o dinheiro dos impostos, e depois decidam se, como sociedade, é adequado, deverá ser maior ou menor. É pena o tom, porque a discussão proposta, de onde se gastam os dinheiros públicos, é uma discussão relevante.

Claro que também se pode discordar da própria forma de cálculo do dia da libertação dos impostos. Mais inteligente é o comentário feito no blog vias de facto, que olha precisamente para esse aspecto, e para a importância que o desenho do sistema de impostos tem (progressivo vs regressivo).

Anúncios

Sobre Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

2 respostas a comentários no reino…

  1. Brasilino Pires diz:

    Ou seja, à vista do que se mostra no último parágrafo, mais valia estar quieto(s) com essa cena do ‘dia da libertação dos impostos’ (mas que paleio da treta!)…
    Q.E.D. Certo?

  2. António Betâmio de Almeida diz:

    Não conheço o texto de André Freire nem os argumentos ou justificação das respectivas declarações. Não conheço o “interior” da Faculdade de Economia da UNL mas reconheço que a questão em causa merece reflexão. Aliás, não é uma questão que diga respeito unicamente à UNL, não diz respeito só a Portugal. Quem acompanhe o que é publicado e dito em alguns países europeus e americanos reconhece a pertinência do assunto. Recentemente, o panorama alterou-se ligeiramente em Portugal: a comunicação social abriu uma pequena quota a posições de economistas que se afastam da “narrativa dominante”. Do que sei por mim, do que tenho lido e aprendido com diversos autores, a Economia não é uma ciência com uma única “verdade” (as ciências da natureza também não…) mas… o comportamento dos principais professores – comentadores e de alguns dos seus discípulos (e.g. os directores e jornalistas de diários económicos…) parece transmitir essa ideia: uma solução, um caminho, uma leitura, uma análise neutra e totalmente racional (sem ideologia, sem preconceito…). Na verdade, não é assim. Não sei se, no caso vertente, há (na UNL) uma sólida liberdade de pensamento e de investigação, de debate e ousadia, de respeito por opiniões diferentes. No início da sua conferência em Lisboa, Paul Krugman aborda este aspecto ao descrever as escolas de “água doce” e de “água salgada” nos EUA (uma conferência para ler com atenção logo que esteja publicada…).
    Para quem está de fora permanece a ideia da uniformização para fora da “caixa universitária”: frequentemente notamos a notória dificuldade que alguns prestigiados especialistas – comentadores manifestam ao pretenderem dizerem o mesmo, de um pretenso guião, mas de uma forma diferente, original, que os diferencie e justifique a intervenção. No interior de cada Faculdade de Economia não posso afirmar o que se passa mas o Pedro Pita Barros está em excelente posição para nos informar sobre as diferentes tendências existentes, para além da sua (que pensamos conhecer…), na UNL.
    É interessante registar alguma evolução (lenta) do discurso dominante com o tempo: a palavra especulador não podia ser dita em público (era uma ofensa…), os mercados eram quase perfeitos e agentes de controlo moral do comportamento económico colectivo, as agências de notação eram muito sensatas e independentes, as falhas de regulação um detalhe que não deve ser acentuado, o “risco moral” um assunto complexo, a política não tinha de intervir …Bem, o discurso teve de mudar um pouco.
    Há também o aspecto da autonomia universitária. Em muitas universidades os recursos financeiros dos departamentos e dos professores dependem de uma forte ligação a instituições financeiras muito fortes e é natural que “diz-me com quem andas e dir-te- ei quem és…”. Sei que há mesmo novas regras deontológicas para os comentadores económicos nos EUA e França (diz-se por aí que algumas cenas do filme “Inside Job” influenciaram as novas disposições americanas).
    Passo a palavra a André Freire!

Os comentários estão fechados.