da caixa de comentários, interessantes observações

 

recebidas há uns dias:

“Do que sei por mim, do que tenho lido e aprendido com diversos autores, a Economia não é uma ciência com uma única “verdade” (as ciências da natureza também não…) mas… o comportamento dos principais professores – comentadores e de alguns dos seus discípulos (e.g. os directores e jornalistas de diários económicos…) parece transmitir essa ideia: uma solução, um caminho, uma leitura, uma análise neutra e totalmente racional (sem ideologia, sem preconceito…). Na verdade, não é assim. Não sei se, no caso vertente, há (na UNL) uma sólida liberdade de pensamento e de investigação, de debate e ousadia, de respeito por opiniões diferentes. No início da sua conferência em Lisboa, Paul Krugman aborda este aspecto ao descrever as escolas de “água doce” e de “água salgada” nos EUA (uma conferência para ler com atenção logo que esteja publicada…).
Para quem está de fora permanece a ideia da uniformização para fora da “caixa universitária”: frequentemente notamos a notória dificuldade que alguns prestigiados especialistas – comentadores manifestam ao pretenderem dizerem o mesmo, de um pretenso guião, mas de uma forma diferente, original, que os diferencie e justifique a intervenção. No interior de cada Faculdade de Economia não posso afirmar o que se passa mas o Pedro Pita Barros está em excelente posição para nos informar sobre as diferentes tendências existentes, para além da sua (que pensamos conhecer…), na UNL.
É interessante registar alguma evolução (lenta) do discurso dominante com o tempo: a palavra especulador não podia ser dita em público (era uma ofensa…), os mercados eram quase perfeitos e agentes de controlo moral do comportamento económico colectivo, as agências de notação eram muito sensatas e independentes, as falhas de regulação um detalhe que não deve ser acentuado, o “risco moral” um assunto complexo, a política não tinha de intervir …Bem, o discurso teve de mudar um pouco.
Há também o aspecto da autonomia universitária. Em muitas universidades os recursos financeiros dos departamentos e dos professores dependem de uma forte ligação a instituições financeiras muito fortes e é natural que “diz-me com quem andas e dir-te- ei quem és…”. Sei que há mesmo novas regras deontológicas para os comentadores económicos nos EUA e França (diz-se por aí que algumas cenas do filme “Inside Job” influenciaram as novas disposições americanas).”

permite algumas considerações. Hoje centro-me numa: “não há uma única verdade” – esta é certamente uma realidade nas ciências sociais, e na economia não se é diferente. A economia não é uma máquina, um relógio, nem os “mecanismos” perfeitamente conhecidos. O funcionamento da economia é o somatório de milhões de decisões individuais tomadas todos os dias. Dentro deste quadro há regularidades que se podem prever (com base em versões simplificadas do que se entenda ser crucial para esse funcionamento da economia), e essas previsões podem ser confrontadas com a realidade (análise estatística). Reconhecer que não há uma única “verdade” é importante para manter a capacidade de aumentar o conhecimento sobre a realidade, e perceber como evolui. O que pode ser “verdade” num momento, no sentido de regularidade observada, pode deixar de ser “verdade” noutro momento, sob outras circunstâncias.

O não haver uma “verdade” não significa porém que todas as afirmações proferidas sobre a economia sejam em si mesmas verdadeiras.  Isto é, não haver uma verdade não impede que haja afirmações “erradas” ou leituras “erradas” da realidade. Nem todas as posições são igualmente válidas. É preciso um “teste” de validade sobre o que se afirma ou se considera ser o funcionamento da economia.

Há, a meu ver, duas grandes formas de fazer esse teste, que não são mutuamente exclusivas. A primeira dessas formas é o confronto com estatísticas, perceber se as implicações do que se afirma são consistentes com a evidência que se recolhe. Evidência que deve poder ser facilmente acessível a todos, para permitir contraditórios e exploração de explicações alternativas. Por exemplo, afirmar que 2011 não foi um ano de recessão em Portugal não é razoável porque é desmentido pelas estatísticas. Mas também não é razoável dizer que todas as empresas estiveram pior em 2011 do que em 2010, ou que todos os trabalhadores sofreram uma perda de direitos em 2011 (basta que alguns tenham melhorado para que a afirmação não seja verdade, a existência de qualificativos como “a maioria dos trabalhadores” torna-se necessária se se quiser ter uma linguagem precisa).

A segunda forma de fazer esse teste é avaliar se os argumentos apresentados para sustentar cada posição são internamente consistentes, se logicamente fazem sentido. Este teste de lógica é poderoso, no sentido em que não precisa de estatística de apoio, mas é também fraco, na medida em que envolve frequentemente hipóteses de simplificação da realidade para conseguir extrair os nexos lógicos. E a escolha adequada dessas hipóteses de simplificação é crucial muitas vezes para o resultado, que é um aspecto independente da validade do teste. Com certos pressupostos de partida, uma dedução lógica (racionalidade) pode facilmente chegar a conclusões que são distintas das obtidas com a mesma aplicação de racionalidade a pressupostos diferentes. O que está em causa então são os pressupostos de partida. E a discussão deverá centrar-se nesses pressupostos e não no resultado, se quisermos perceber o porquê das diferenças e as implicações dessas diferenças.

De alguma forma, a “ideologia” poderá surgir sobretudo nesta definição dos pressupostos, mas sobretudo na interpretação que se faça dos resultados. Mas repito que análises erradas são erradas, não sendo razoável dizer que se trata de ideologia para se furtarem ao teste de validade.

Os comentários feitos por “especialistas” e “comentadores” frequentemente não têm este crivo, e não devem ser confundidos com análise científica (embora também seja frequente deixar-se no ar essa confusão). Opinião não faz “verdades”.

Sobre a questão da liberdade intelectual dentro da universidade, devo dizer que na minha experiência própria nunca tive, nem vi colocar, limites de conveniência, ideologia, de preocupação financeira, ou outros, no que decidi investigar ou mesmo “opinar”.  Esperaria que o mesmo ocorra nas outras escolas de economia.

Não é na liberdade de investigar, ou na ousadia de escolher temas, que haverá problemas, e sim na capacidade de ouvir e analisar os argumentos e ideias dos outros. Em lugar da humildade académica encontra-se frequentemente a arrogância da “verdade”, confundindo-se convicção com necessidade absoluta de impor uma visão. Parece-me é ser uma questão de características pessoais e não de filosofia das escolas. Até porque há muitos investigadores com excelente trabalho feito, mas que são completamente desconhecidos do público (por feitio e até por filosofia de vida, não consideram relevante essa exposição, não fazem parte por opção dos “professores-comentadores”).

Enfim, mais se poderá dizer, e havendo tempo, irei continuando a discutir os aspectos levantados por este interessante comentário que foi feito.

Sobre Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa
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2 respostas a da caixa de comentários, interessantes observações

  1. Jorge Bravo diz:

    Apoiado!

  2. António Betâmio de Almeida diz:

    O texto de Pedro Pita Barros merece ser lido com a devida atenção.Gostei. No presente contexto comunicacional, não poderei aprofundar as diversas pistas epistemológicas que nos proporciona esse texto. Infelizmente, salvo raras excepções, na primeira metade do séc. XX, as elites portuguesas (em particular as universitárias) não cultivam a crítica e o debate públicos sobre questões relacionadas com os fundamentos epistemológicos dos domínios a que se dedicam ou que são interdisciplinares. Na época contemporânea, consolidou-se muito a posição de conhecimento absoluto, sem dúvida, apropriada para o “minuto” da televisão ou a página apertada do artigo de jornal. As redes sociais não melhoram este ponto. A resposta rápida enquanto se almoça ou se bebe o café não propicia uma reflexão muito consistente ou sábia ou justificada. Este é um tema em debate no último número da revista Philosophie: o pensamento rápido poderá ter mérito na procura da “verdade” ou serve de combustível a uma máquina demolidora da informação (manipuladora na ilusão de conhecimento fácil)?

    Voltando ao texto do Pedro, concordo na generalidade com o exposto e faço votos que os seus discípulos compreendam e desenvolvam essas ideias.
    Um aspecto importante é o de aceitar a dependência de pressupostos de base, axiomas, postulados: ideologias ou bases de teorias, consoante as circunstâncias.
    Não entendo bem a grande relutância dos economistas – vedetas, em particular os portugueses, em aceitarem a influência de ideologias: admito que está associado ao preconceito de tomar ideologia como opinião não justificada, perigosa e irracional, própria de filósofos (vulgo “fala – baratos”, perdoem-me a ligeireza na linguagem…). Penso que constitui uma tentativa de distanciamento da Economia como Ciência Social. Na verdade, a ideologia pode ser definida como um “conjunto das ideias, crenças e doutrinas específicas de um grupo social” (Dic. da Academia das Ciências). A utilização intensiva de ferramentas matemáticas pode tentar o especialista em Economia a naturalizar esta ciência. A querer encará-la como uma “ciência com um objecto de natureza tão objectiva como o da Física”. Existe uma realidade económica, “lá fora”, tão real e objectiva como a massa e a gravidade.
    È claro que nem todos os professores de Economia pensam assim, mas a “escola dominante”…tem muitos exemplos. “Não é ideologia!…São factos!” Logo aguentem o que vou dizer e não interrompam! (faz lembrar alguém?).
    As acções humanas podem ser assimiladas a fenómenos naturais da Física, da Química e permitir ao economista uma neutralidade ética e social blindada? (Que o Físico já perdeu…). Para sustentar este debate posso sugerir, na minha modesta opinião, os trabalhos de Daniel Kahneman (1996).

    Devo esclarecer que só aceito a célebre frase de Galileu, “ a matemática é a linguagem da natureza”, como uma metáfora. Mas o problema inverso, tudo onde a matemática é aplicada torna-se Natureza, como as rochas…é, do ponto de vista do raciocínio dedutivo, errado (na minha opinião…).

    Saliento dois pontos do texto do Pedro: a consistência ou coerência dos argumentos e a concordância razoável com os factos, os dados, como eventuais critérios de “verdade” científica.
    São dois aspectos interessantes e fulcrais para uma discussão deste tipo.
    O tópico é vasto e mereceria outra oportunidade para desenvolver.
    A consistência ou a coerência interna de uma teoria é, para mim uma condição fundamental de decência e rigor intelectuais. Sem esta componente nada feito! Tudo pode ser concluído. Na matemática este é o critério predominante: as regras, os raciocínios estão sujeitos a uma lógica dedutiva muito forte. Uma falha e …erro!
    Mas também está sujeito a escolhas (convenientes) de axiomas: por isso existem três tipos de geometrias (cada uma verdadeira em seu domínio de aplicação…) com a mudança de um dos axiomas de Euclides (e na Economia teremos também exemplos equivalentes?).
    Nas ciências jurídicas este método é muito importante, mas eu não diria que o sistema romano ou o Napoleónico é mais verdadeiro que o Anglo-Saxónico…
    Conclusão: ser coerente é uma condição necessária, mas não é suficiente para garantir que uma teoria é “verdadeira” (muito menos única).

    Quanto aos “factos”. Este é outro aspecto complicado. Primeiro, não sei se existem sempre factos completamente neutros, em particular os factos que resultam de efeitos de diversas causas e que têm de ser aglutinados em factos compostos de acordo com um critério construído. Segundo, os mesmos dados podem ser ajustados ou incorporados por modelos diferentes, dentro de limites de calibração. Terceiro, as situações sociais não podem ser controladas para ensaios, não podem ser sujeitas a condições de repetição de variáveis totalmente controladas (complexidade de causas e incerteza comportamental de agentes…) o que difere muito das ciências da natureza e dificulta os critérios Popperianos de selecção, através de experiências cruciais para despistar teorias.

    Voltando ao ponto de partida, gostaria de sentir mais a Economia a ajudar a resolver os problemas sociais e a concretizar, o melhor possível e se possível, as metas políticas democráticas que possam ser razoáveis para a maioria e os mais vulneráveis e menos a ser um condicionante muito “comprometido”com algumas soluções e práticas políticas bem definidas e que tendem a favorecer os mais fortes.

    Na verdade, constata-se que quando a situação parecia estar calma, houve um fascínio pelos produtos financeiros complexos, modelados por instrumentos matemáticos sofisticados (grandes avanços na análise de riscos, para quem?…) que poucos conseguiam acompanhar (que teses na EUA, em França!) mas, quando a crise rebenta, não há uma análise, e auto – análise, crítica. Há quem diga, então, que tudo resulta da livre iniciativa, mesmo quando os processos pareciam de muita (!) duvidosa segurança, ou, por ultimo, esquecendo os modelos e a bondade das teorias, que o comportamento e o mecanismo dos mercados e instituições financeiras são assim porque reflectem a vontade de… (pasme-se!) de cada um de nós, quando deposita as poupanças e acredita (exige mais e mais…) nos juros e garantias dadas pelo gestor de conta de uma pequena dependência bancária em Alhos Vedros… ou outro lugar! Isto ouve-se da parte de respeitados especialistas – comentadores, doutorados, professores…

    Ainda bem que na UNL se garante a liberdade intelectual. No entanto, sabemos que uma criteriosa selecção de discípulos dedicados rapidamente torna uma instituição a “vibrar com a mesma frequência”. Faço votos que a econodiversidade seja defendida e promovida como forma única de garantir soluções socialmente mais equilibradas e eficazes.

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