O discurso do ministro-entre-aspas Relvas

Circulam nas redes sociais umas frases do “ministro” Miguel Relvas, colhidas de um discurso que fez há já alguns dias em Santarém, a propósito do lançamento de um programa baptizado “Impulso Jovem”. Diga-se de passagem que a maneira pirosa e um tanto  apoucada, como se baptizam estes programas coaduna-se pouco com o seu propósito, convenhamos sério: constituir-se como a «resposta do Governo Português ao desafio lançado pela Comissão Europeia no Conselho Europeu de 30 de Janeiro para a apresentação de uma estratégia de combate ao desemprego jovem e apoio às PME.»

Mas, emparelhar a gravidade do desemprego jovem com piscadelas de olho à impulsividade dos jovens é só mais uma ligeireza ao nível de tantas outras  com que nos brinda a tutela governamental, nada comparável com o descaro das palavras em forma de discurso que o “ministro” Miguel Relvas dirigiu aos  escalabitanos:

«Nós hoje já não exportamos só futebolistas, exportamos cientistas, exportamos pintores, artistas plásticos. Hoje temos essa capacidade, esse é o grande bem de um pequeno país. É isso que nós temos para exportar, a capacidade de afirmação que a nossa história sempre demonstrou.»

(Fonte: Notícias online)

Exportamos pessoas? Já sabíamos que grande parte do Governo de Portugal encoraja, para vergonha nacional, os portugueses a emigrar, encoraja-os a não ser piegas, a assumir uma cultura de risco, a sair da “zona de conforto”. Não faltam exemplos desta linguagem motivacional empresarial levada para a esfera dos assuntos públicos e como justificação da treta para que jovens desempregados, precários, com pouco ou nenhum futuro à vista, se vão pôr na sombra de governos de outras paisagens. Mas, agora foi dado um passo mais! O “governante” que Passos Coelho teima em manter no executivo intoduziu na linguagem política uma nova categoria de exportações: as pessoas.

Não sei até onde se pode descer no descaso com o povo português. É uma evidência que não poderia escapar a um “ministro” (mesmo se dentro de aspas) do Governo de Portugal que as pessoas emigram ou imigram, não se exportam e importam. Tratá-las como mercadoria, assumir, logicamente, que, sendo exportáveis, são mercadoria é uma pouco confessada desistência da treta motivacional empresarial. Pior, muito pior, pensar que futebolistas, cientistas, pintores e artistas plásticos são mercadoria que nós (subentendo no uso majestático do pronome o próprio Governo) exportamos é tratá-los como se não dispusessem da sua autonomia de vontade, senhores das suas vidas, donos da decisão sobre para quem e onde trabalham; como se, falando claro, fossem escravos. Marx, que ando a reler, e a quem não se pode acusar de falta de clareza, opõe o escravo, ele próprio uma mercadoria vendável,e portanto exportável, ao trabalhador explorado, porque obrigado a aceitar que a sua força de trabalho seja uma mercadoria que ele vende a quem estiver disposto a pagar mais, mesmo que para isso tenha de emigrar. Di-lo assim:

«O trabalho nem sempre foi trabalho assalariado, isto é, trabalho livre. O escravo não vendia a sua força de trabalho ao proprietário de escravos, assim como o boi não vende os seus esforços ao camponês. O escravo é vendido, com a sua força de trabalho, duma vez para sempre, ao seu proprietário. É uma mercadoria que pode passar das mãos de um proprietário para as mãos de um outro. Ele próprio é uma mercadoria, mas a força de trabalho não é uma mercadoria sua.»

(Fonte: Trabalho assalariado e capital)

A História dos movimentos sociais tem sido um combate por maior dignidade do trabalho. Pretende-se que o trabalhador possa relacionar-se com a sua força de trabalho não como quem aluga bocados de tempo da sua vida, mas como quem forma, exerce e cultiva uma faculdade sua, comunitariamente apreciada, valorizada e remunerada.  Não se pretende, pelo contrário, a degradação do trabalho à condição de mercadoria igual a qualquer outra mercadoria. É causticamente irónico que na ocasião em que o Governo avança com uma estratégia de combate ao desemprego jovem, o seu “ministro” Miguel Relvas dê esta monumental cambalhota para trás, enrolada, para tomar já não apenas o trabalho, mas os próprios trabalhadores como mercadoria.   Em tempos de recuo significativo dos direitos sociais, com precarização das relações laborais,  por mais descuidado que seja este “ministro” são significativamente perturbadoras as palavras deste seu discurso.

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Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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3 respostas a O discurso do ministro-entre-aspas Relvas

  1. Muito bom! partilhei por aí!
    João de Sousa

  2. António Betâmio de Almeida diz:

    E que tal uma sessão de leitura de obras de Karl Marx sobre o trabalho?
    Estou certo que iriamos concluir: como é que ele “adivinhou”? Como é que ele é tão actual?
    Com este discurso estamos a desvalorizar a nossa força intelectual nos mercados estrangeiros.Acreditem: sei o que estou a dizer!

  3. palavrossavrvs diz:

    Tenho de elogiar-te a reflexão. Muito bom, mesmo.

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