Senhor Presidente, venha daí essa ética da responsabilidade!

Pelo menos por duas vezes ouvimos, no exercício do seu mandato, o Presidente da República em funções fazer menção explícita à ética da responsabilidade. Fê-lo primeiro quando decidiu, em Maio de 2010, promulgar o casamento gay, apesar de com isso vir contrariar as suas convicções muito próprias na matéria em apreço. Dava assim o exemplo que, do seu ponto de vista, importaria que outros seguissem. E com efeito, faria uma segunda menção à ética da responsabilidade alguns meses depois, por ocasião da celebração do 5 de Outubro, nesse mesmo ano de 2010. Preconizava desta feita um apelo a toda a classe política para que contivesse a sua acção e discurso políticos dentro dos limites do bom senso.

Há portanto fundamento em dizer que o Presidente da República é pessoa sensível aos perigos das convicções quando deixadas à solta, desresponsabilizadas das suas consequências e dos seus impactos mais significativos sobre as outras pessoas.

Com base nestas razões, sabemos que o Presidente da República sabe que não se deve governar apenas com base em convicções, certezas íntimas, como por uma fé luminosa. Creio que não é difícil determinar, no entanto, que é precisamente assim, com base em imperativos ofuscantes, mal disfarçados por modelos obscuros, que o Governo se tem guiado no que diz respeito às suas políticas económicas, aos programas de ajustamento financeiro, à austeridade em suma.

A realidade já contradisse as estimativas do Governo, com factos e razões, mas ei-los outra vez, com novas estimativas, sem nenhuma base sólida, pelo contrário cada vez mais convictos, simplesmente mais convictos, como se a fidelidade à convicção fosse o critério único, mesmo moral, das suas existências públicas. É nisto que a lógica das convicções é desviante: é um processo que se auto-alimenta ilibando-se sempre. Nele, as contrariedades que a realidade vai pondo à vista de todos, longe de implicarem cepticismo para as convicções, pelo contrário servem de ocasião para testar resistência e robustecer as mesmas convicções, reiterá-las com o orgulho da dificuldade vencida, mesmo que assim se conduza os senhores da convicção e o povo que, por alguma circunstância, governam ao risco da catástrofe social e do abismo nacional.

Sabemos que a governação económica do país está a ser determinada por convicções apenas alimentadas pelo orgulho e pelo preconceito, seja o orgulho de um Governo que não é capaz de dar o braço a torcer –já todos demonstrámos com as nossas próprias subsistências difíceis que não é empobrecendo a sociedade portuguesa que se resolve o problema económico português – seja o preconceito ideológico que menospreza a confrontação humilde com a realidade, preferindo sobrepor-lhe imperativos de coerência imperturbável das convicções.

Senhor Presidente, sabemos que reunirá ainda esta tarde com o Primeiro-Ministro. Não se engane, não há piores consequências para a República do que deixar o Governo perpetrar a ruína da economia e a brutalidade social.  É altura de vir daí essa ética da responsabilidade, e tirar consequências. A bem do país.

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Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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4 respostas a Senhor Presidente, venha daí essa ética da responsabilidade!

  1. anónimo diz:

    Do nosso Senhor Presidente tudo é possível até aviltar a ética da responsabilidade em nome da uma continuidade da (des)governação.
    ´tou em ver para crer.

    • Precisamente para evitar que isso suceda, sou da opinião que o devamos pressionar politicamente. Ao menos fica a saber aquilo que esperaríamos da presidência da república.

  2. O facto de Manuela Ferreira Leite ter sugerido ontem, de forma bem explícita, que os deputados da maioria parlamentar devem votar contra as novas medidas de austeridade e não devem encostar-se ao Presidente da República, sendo a meu ver certo, não isenta este, contrariamente ao que pretende MFL, e provavelmente mandada por ele, de assumir uma posição clara hoje mesmo. http://www.publico.pt/Economia/alguma-coisa-tem-de-ser-ajustada-foi-o-recado-de-ferreira-leite-para-os-deputados-1562798?showVideo=1

  3. Pedro Pinheiro diz:

    Chamem o Medina Carreira para governar, por favor, o homem é mais sábio que todos aqueles estudos técnicos. Miopia da grossa??? Não acredito, infelizmente acredito mais em hipocrisia, um discurso de falsas esperanças, imiscuido cada vez mais numa cultura sádica de desprezo/satisfação pelo sofrimento dos outros. Porque não acabam com as parcerias público privadas?
    cumprimentos

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