A entrevista

A entrevista #1

Passos Coelho e Vítor Gaspar têm defendido que a baixa da TSU para as empresas visa criar emprego, baseados na perspectiva de que o necessário para a economia portuguesa é embaratecer os custos de trabalho. Mas, convenhamos, não bate a bota com a perdigota. Ontem, na entrevista que deu em São Bento, era o próprio Passos Coelho que sugeria ao Eng. Belmiro de Azevedo que aproveitasse a considerável folga obtida com esta medida (segundo se diz o patrão da Sonae é maior empregador em Portugal depois do Estado) para baixar os preços nos seus estabelecimentos comerciais e para dessa maneira compensar a previsível quebra do consumo causada pelo aumento da TSU dos assalariados. Onde pára então a criação de emprego senhor Primeiro-Ministro? Parece que, afinal, nem Passos Coelho, lá no fundo, acredita nos famigerados modelos empíricos que Vítor Gaspar tomou como referência, mesmo sem aprovação do Banco de Portugal, para os destinos do país. Na verdade, passando ao lado de interpretações mais sinistras, como a de que, à pala do brinde dado às empresas, a distribuição de dividendos entre accionistas de grandes empregadoras venha a crescer para o ano, e concentrando-nos na interpretação estrita que o PM fez do exemplo da Sonae, o que temos é claro: a baixa de TSU nas empresas não será investida em criação de emprego, mas sim desbaratada na tentativa de compensar o efeito devastador que o aumento da TSU para os trabalhadores vai ter no consumo. Assumindo como boa a interpretação que Passos Coelho faz, a criação de emprego será nula e o único resultado esperado será a desvalorização da economia, além claro do ganho ideológico de arrastar quem trabalha para baixo, que é lá em baixo, imagino eu, que Passos Coelho pense ser o lugar deles, ali ao lado dos precários e dos desempregados.

A entrevista #2

Se a TSU para os trabalhadores vai ser progressiva, como agora diz Passos Coelho, e se, no entanto, os 7% de taxa a mais se mantém como o valor de referência para a receita a obter, então quererá isso dizer que aqueles que não ganham o salário mínimo se devem preparar para passar a descontar não apenas mais 7% de TSU, mas 8 ou 9 ou 10% mais? Se sim, é caso para dizer que a espoliação não tem limites para este Governo! Não está em causa a progressividade que é, evidentemente, a maneira certa de distinguir as fontes de receita fiscal, mas os valores percentuais colossais e, como se vai tornando evidente, a transformação do que era uma contribuição social num imposto.

A entrevista #3

Passos Coelho comprometeu-se na entrevista de ontem com uma descida do preço dos transportes públicos. Segundo ele, seria a consequência lógica da baixa da TSU para as empresas públicas de transportes. Mas é realmente estranho que o faça quando em Fevereiro decretou o seu aumento cego e quando neste preciso mês de Setembro eliminou os descontos de que gozavam centenas de milhares de crianças e jovens em idade escolar. Estará Passos Coelho a querer emendar a mão depois de conhecido o número gigantesco de viagens a menos que se registaram nos transportes públicos este ano? Por exemplo, só no 2.º trimestre deste ano, o Metro de Lisboa registou quase menos 6 milhões de passageiros. É o país a parar, como se uma doença degenerativa lhe tomasse as energias. O passe mais simples para o Metro de Lisboa custou este mês 29 euros a um dos meus filhos; perante a perplexidade com o aumento, logo um funcionário foi avisando que em Janeiro o mesmo passe custará 35 euros. Lembremo-nos todos de avaliar esta entrevista quando pagarmos o próximo transporte público para irmos trabalhar ou levar as crianças à escola.

A entrevista #4

Não penso que Manuela Ferreira Leite, com as suas bombásticas declarações de antes de ontem, quisesse tanto manifestar a sua oposição ao conjunto de novas medidas austeritárias do Governo como quisesse informar-nos sobre a quem pensa não caber a sua contestação – exactamente o Presidente da República. Em todo o caso, devemos registar a mordedura mortífera que Passos Coelho quis infligir à ”sua antecessora” ao comparar vitoriosos do presente com derrotados do passado. Aliás, não é menos digna de registo a mordedura moral que destinou ao seu parceiro de coligação Paulo Portas, logo firmemente amarrado, como co-autor activo, à decisão por estas medidas brutais, apesar de ter escolhido até hoje guardar silêncio. Imagino que, por mais calor que faça nas próximas reuniões do Conselho de Ministros, não haja governante que não leve um bom agasalho contra o clima gélido que vem aí. E boas razões têm para isso. Esta entrevista é um prenúncio.

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Sobre André Barata

Filósofo, professor da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.
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